Motim de policiais militares no Ceará: tema é oportuno para discutir segurança pública com alunos

Motim de policiais militares no Ceará: tema é oportuno para discutir segurança pública com alunos

Veja proposta de atividades de educação midiática para abordar o tema em sala de aula

Bianca Gomes

28 de fevereiro de 2020 | 10h41

Desde terça-feira da semana passada, policiais militares do Ceará fazem motim contra a proposta de reestruturação salarial do governador Camilo Santana, em mais um episódio da crise de segurança pública no estado.

Policiais amotinados cobrem o rosto durante protesto. Foto: Jarbas Oliveira/EFE

O assunto pode ser abordado em sala de aula em disciplinas como português e matemática, para falar de formatos jornalísticos a problemas do País na área de segurança pública.

O repórter de política Bruno Ribeiro esteve em Sobral e em Fortaleza e conversou com policiais militares, entre eles o líder do motim, ex-deputado federal Cabo Sabino. No vídeo abaixo, ele conta como foi a apuração da matéria No Ceará, PMs relacionam o motim atual ao de 2011.

PROPOSTAS DE ATIVIDADES

1) Informação e visual

Um infográfico é um recurso interessante para quando se quer entregar uma série de informações complexas de forma clara e visual.  O segredo está em construir frases curtas, somente com as informações essenciais, de modo a resumir bem a situação discutida. A escolha do tipo de infográfico que melhor conta determinada história ou informação deve ser feita com cautela, levando em consideração pontos como: entendimento do leitor, informação a ser ressaltada e interatividade (ou se o infográfico será estático).

Apoiado nisso, a escolha de números para dar dimensões estatísticas e imagens não só para chamar atenção, mas para dar informações, também são bem-vindas. Um exemplo que o professor pode trazer para mostrar aos alunos é o infográfico sobre a Operação Lava Jato.

No caso do Ceará, o motim dos policiais militares tem razões complexas e uma série de acontecimentos que foram se desencadeando ao longo da semana, além de dados como PMs afastados e PMs presos. Tendo isso em vista, peça aos estudantes que, em grupos de até cinco pessoas, façam um infográfico explicando o motim e as reivindicações dos policiais militares no Ceará.

Existe a opção de desenhar manualmente ou de procurar uma ferramenta online com modelos a seguir. Duas ótimas opções com versões gratuitas são o Flourish (este talvez precise do auxílio do professor de inglês) e o Canva. No caso do primeiro, a página de exemplos pode ser um bom começo para ver os modelos possíveis. Depois, basta preencher a tabela, seguindo o que já está preenchido. O Canva é ainda mais intuitivo. Após escolher o template, é só preencher os campos de textos e, se desejar, inserir imagens e ícones ou alterar a disposição dos elementos.

2) Reportagem orientada por dados 

Em setembro do ano passado, o Ceará foi destaque em diversos noticiários do País em outro episódio envolvendo a crise na segurança pública. O estado sofreu dezenas de ataques a estabelecimentos e veículos públicos e privados ao que o governo chamou de reação do crime organizado a medidas mais rigorosas implantadas nas prisões. Os problemas relativos ao sistema carcerário, no entanto, não se restringem ao estado nordestino.

Neste exercício, além de conhecer melhor as deficiências do sistema prisional brasileiro, os estudantes deverão entender um pouco do que é o jornalismo de dados. Área do jornalismo que tem ganhado cada vez mais relevância, o jornalismo de dados pode ser entendido, segundo a jornalista Sandra Crucianelli, como o jornalismo que se faz a partir de grande quantidade de dados. Ele normalmente está associado a entendimentos estatísticos, conhecimento de ferramentas de raspagem de dados e de programação.

  • Em grupos, os alunos deverão pesquisar dados do sistema penitenciário brasileiro em sites confiáveis. Eles precisam ficar atentos ao tipo de dado que é mais utilizado pelas empresas jornalísticas e qual fonte é citada com mais frequência. A ideia é que eles percebam que as principais informações sobre o assunto vêm de fontes oficiais do governo, principalmente do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e de organizações não governamentais (veja abaixo). E que uma boa forma de saber se uma fonte é confiável ou não é verificar se ela é muito citada por jornais;

Os relatórios e levantamentos (muitas vezes até utilizando base de dados do governo) produzidos por ONGs da área de direitos humanos podem ser úteis para os alunos. Se não for como dado estatístico, com certeza como contextualização e crítica.

Algumas ONGs importantes que atuam na área de sistema prisional: Anistia Internacional, Conectas Direitos Humanos, Human Rights Watch (HRW), Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITCC), Instituto Sou da Paz, Justiça Global, Instituto de Defesa do Direito de Defesa, Instituto Veredas.

  • Em seguida, peça para os estudantes acessarem o site do Infopen, sistema de informações estatísticas do sistema penitenciário brasileiro abrigado no site do Departamento Penitenciário Nacional. É interessante que eles percebam que o Infopen é um dos principais levantamentos do País sobre a população prisional;
  • Os estudantes deverão clicar em “Acesse aqui o Painel Interativo junho/2019”, na página do Infopen. Lá, eles terão acesso a uma série de dados sobre o sistema carcerário que contam com auxílio de gráficos. Cada grupo deve escolher um tema e produzir uma reportagem ou outro tipo de conteúdo a partir dos dados (exemplo: número de presidiários, perfil dos presidiários – raça, escolaridade, sexo, tempo de pena -, infraestrutura);
  • O conteúdo é de formato livre. Além de texto, ele pode vir como podcast, vídeo ou infográfico. Uma possibilidade também é produzir outro tipo de conteúdo, como intervenção artística, cartazes para espalhar pela escola, campanha de conscientização, música, quadrinhos, entre outros.
  • Ao explorar o banco de dados, é interessante que eles apontem possíveis dificuldades e pontos a melhorar no acesso à informação. O professor deve incentivar o debate sobre transparência, colocando que informações como as do sistema carcerário devem estar não só disponíveis à população, mas acessíveis e inteligíveis;
  • Para a matéria jornalística, os estudantes devem entender que não basta apenas um número ou uma simples comparação (aliás, com isso, é preciso ter cuidado, já que os estados têm tamanhos distintos). É preciso, acima de tudo, contextualizar. Um exemplo: se grande parte da população carcerária é composta por pessoas negras, explicar que isso tem origens históricas no racismo. Se houver tempo disponível, o ideal é que os estudantes escolham os dados e entrevistem especialistas – o que com certeza pode ajudar na contextualização. A busca pode ser feita em plataformas como Lattes, observando sempre a formação do profissional e as publicações acadêmicas. Outra sugestão é buscar no Google Acadêmico artigos e teses sobre o assunto, dando maior atenção aos que possuem mais citações.
  • Se o aluno optar por uma matéria jornalística escrita, ela não precisa ser engessada. Pode e deve ter muito da criatividade de cada grupo. Porém, é importante que a sala siga algumas dicas para o texto ficar nos padrões do que se vê em grandes jornais.
  1. Coloque as informações mais importantes no começo do texto. Uma dica é fazer uso do lide, primeiro parágrafo que responde às perguntas: o quê? quem? quando? onde? como? por quê?
  2. Utilize uma linguagem clara e simples. Nada de palavras difíceis que o leitor não possa entender;
  3. Escreva de maneira objetiva, sem utilizar juízo de valor. Evite uso da primeira pessoa;
  4. Case os dados do Infopen com as explicações dos especialistas. Não deixe nenhum dado jogado no texto. Tudo precisa estar contextualizado.

3) Lei de Acesso à Informação

Esta questão pode ser trabalhada na mesma aula que o exercício anterior ou de forma separada.

Entre janeiro e junho de 2014 (dado mais atualizado), o Ministério da Justiça divulgou, em seu relatório “Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias”, que “foram registradas 565 mortes nas unidades prisionais no primeiro semestre de 2014 (sem dados de São Paulo e do Rio de Janeiro)”.Segundo o documento, parte da ausência desses números se deu porque “o Estado de São Paulo não respondeu ao presente levantamento”.

ARCOVERDE, Leo; CARVALHO, Bianca. A cada mês, 40 detentos morrem nos presídios paulistas. Fiquem Sabendo, 03, dezembro, 2015. Disponível em:https://fiquemsabendo.com.br/seguranca/a-cada-mes-40-detentos-morrem-nos-presidios-paulistas/>. Acesso em: 26 de fevereiro de 2020.

A matéria A cada mês, 40 detentos morrem nos presídios paulistas, da agência de dados independente “Fiquem Sabendo”, utilizou a Lei de Acesso à Informação para ter acesso a uma série de dados do sistema prisional paulista ocultada do governo em levantamento nacional.

Neste exercício, peça, primeiro, para os estudantes pesquisarem o que é a Lei de Acesso à Informação. O Wikipedia pode ser uma primeira boa fonte de pesquisa, mas apenas para ter informações iniciais. É importante incentivar o aluno a se aprofundar, consultando fontes acadêmicas (Lattes, Scielo, Google Acadêmico, Capes, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações são alguns exemplos).  Outras opções são jornais, sites oficiais do governo (Ministério da Defesa, Câmara dos Deputados) e organizações que trabalham com transparência (Artigo 19, Abraji).

Depois, os alunos deverão aprender, na prática, como se faz um pedido utilizando a Lei de Acesso à Informação. Antes de colocar a mão na massa, eles devem ler o artigo “Como garantir boas respostas pela Lei de Acesso à Informação”, do jornalista Luiz Fernando Toledo, publicado no site da Associação de jornalistas de educação (Jeduca).

Veja o passo a passo:

1) Entre no site https://esic.cgu.gov.br/sistema/site/index.aspx e clique em “cadastre-se”;

2) Complete os dados do cadastro (não é necessário preencher tudo, apenas se desejar; os tópicos obrigatórios são: Nome Completo, CPF, E-mail, Nome de Usuário, Senha)

3) Volte para a página inicial, coloque usuário e senha, clique em entrar;

4) Clique em “registrar pedido”;

5) Preencha os campos em branco. O pedido deve ser escrito em “Detalhamento da Solicitação”.

6) Agora, basta esperar pela resposta da sua solicitação. Na aba “Consultar”, clique em “Pedidos” para ter acesso a todas as suas demandas.

 

Mostre também o site de Lei de Acesso da Prefeitura e do Governo (se tiver). Um bom começo para os estudantes é fazer solicitações sobre o bairro em que eles moram ou assuntos que têm familiaridade.

Depois de entender como funciona o pedido de LAI, os alunos podem pesquisar matérias feitas a partir da Lei, a fim de entender que tipo de informação pode ser solicitada. Uma outra dinâmica que pode ajudar os estudantes é explorar o Achados e Perdidos, plataforma da ONG Transparência Brasil e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) que reúne milhares de pedidos de acesso à informação de cidadãos e as respostas da administração pública feitas via LAI.

O Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

Disciplinas envolvidas: Português, Matemática, História

Anos em que as habilidades podem ser trabalhadas: ensino médio e fundamental 2

(EF69LP07) Produzir textos em diferentes gêneros, considerando sua adequação ao contexto produção e circulação – os enunciadores envolvidos, os objetivos, o gênero, o suporte, a circulação -, ao modo (escrito ou oral; imagem estática ou em movimento etc.), à variedade linguística e/ou semiótica apropriada a esse contexto, à construção da textualidade relacionada às propriedades textuais e do gênero), utilizando estratégias de planejamento, elaboração, revisão, edição, reescrita/redesign e avaliação de textos, para, com a ajuda do professor e a colaboração dos colegas, corrigir e aprimorar as produções realizadas, fazendo cortes, acréscimos, reformulações, correções de concordância, ortografia, pontuação em textos e editando imagens, arquivos sonoros, fazendo cortes, acréscimos, ajustes, acrescentando/ alterando efeitos, ordenamentos etc.

(EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos.

(EF06MA32) Interpretar e resolver situações que envolvam dados de pesquisas sobre contextos ambientais, sustentabilidade, trânsito, consumo responsável, entre outros, apresentadas pela mídia em tabelas e em diferentes tipos de gráficos e redigir textos escritos com o objetivo de sintetizar conclusões.

(EM13CHS103) Elaborar hipóteses, selecionar evidências e compor argumentos relativos a processos políticos, econômicos, sociais, ambientais, culturais e epistemológicos, com base na sistematização de dados e informações de diversas naturezas (expressões artísticas, textos filosóficos e sociológicos, documentos históricos e geográficos, gráficos, mapas, tabelas, tradições orais, entre outros).

(EF03LP25) Planejar e produzir textos para apresentar resultados de observações e de pesquisas em fontes de informações, incluindo, quando pertinente, imagens, diagramas e gráficos ou tabelas simples, considerando a situação comunicativa e o tema/assunto do texto.

(EF01LP23) Planejar e produzir, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, entrevistas, curiosidades, dentre outros gêneros do campo investigativo, que possam ser repassados oralmente por meio de ferramentas digitais, em áudio ou vídeo, considerando a situação comunicativa e o tema/assunto/finalidade do texto.