Carnaval abre espaço para falar sobre gêneros jornalísticos e campanhas contra assédio

Carnaval abre espaço para falar sobre gêneros jornalísticos e campanhas contra assédio

Bianca Gomes

20 de fevereiro de 2020 | 14h08

Uma das datas queridinhas dos brasileiros, o Carnaval pode ser importante aliado da educação midiática. De discussões sobre gênero jornalístico ao fact-checking, há diversas opções criativas para abordar o tema com alunos de ensino médio e fundamental 2 em disciplinas como Português e Matemática.

A reportagem Prefeitura e blocos estimam 15 milhões de foliões no carnaval de São Paulo é exemplo de uso de jornalismo de serviço, com informações sobre locais e datas, e dados, com estimativas da Prefeitura de São Paulo.

No vídeo abaixo, a repórter Priscila Mengue, que acompanha o carnaval de São Paulo há três anos, conta como funciona a cobertura jornalística da data.

Propostas de atividades

1) Jornalismo de serviço

Antes e durante o Carnaval, é comum encontrar matérias com informações sobre locais dos bloquinhos, temas e horários dos desfiles das escolas de samba ou mesmo opções de viagem para curtir o feriado longe do agito. Esse tipo de conteúdo, com informações práticas e úteis para serem usadas pelos leitores, pertence ao gênero jornalístico de serviço. Bons exemplos encontrados nos veículos são opções culturais para o final de semana, calendário de vacinas e outros serviços públicos. Não existe uma fórmula para as matérias de serviço, o importante é que elas tenham as informações de utilidade, como preço, dia, horário e local.

Neste exercício, os estudantes devem produzir uma matéria de serviço sobre um tema de preferência deles que tenha utilidade para os moradores de seus respectivos bairros. Pode ser da área de saúde, educação ou cultura. Para chegar ao tipo de informação que será dada, o aluno deverá fazer uma pesquisa quantitativa com os moradores, perguntando quais assuntos eles têm mais interesse e quais eles menos têm informações. As perguntas dos formulários podem ser montadas no Google Forms por grupos de até cinco estudantes. Além de explorar os temas, eles podem incluir questões relativas à distribuição de informação (por onde as pessoas estão se informando e por onde gostariam).

A matéria de serviço deve atender a uma demanda crescente da população de determinado bairro, com informações confiáveis e objetivas. É importante que os alunos confirmem as programações com fontes oficiais, e não a partir de matérias já publicadas. Em espaços públicos, por exemplo, as sub-prefeituras podem ser uma boa fonte.

A Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC), do IBGE, permite que o aluno combine uma série de indicadores em tabelas, adicionando comparações, fazendo séries históricas, cartogramas. Há também opção de acessar os resultados consolidados – embora seja positivo estimular a busca por informações e mostrar ao aluno as diferentes possibilidades de combinações. Outro site que pode ser disponibilizado é o Meu Município, que tem uma navegação um pouco mais fácil do que a do IBGE.

O local e o formato da publicação devem ser pensados pelo aluno a partir dos resultados da pesquisa, levando em conta como aquele morador se informa no seu dia a dia. Além do formato tradicional de texto, eles podem explorar stories do instagram (a exemplo do que faz o Drops Estadão), cards (como no primeiro print abaixo do especial de educação das eleições de 2018 – neste caso, é importante usar frases curtas e objetivas), WhatsApp (como no segundo print abaixo) e tweet (quarta imagem).

2) “Decreto” falso

A imagem abaixo, de um decreto presidencial convocando todos os homens brasileiros para um treinamento militar “de caráter sigiloso” durante o período do Carnaval, viralizou nas redes sociais.

 

Divida a sala em grupos de até cinco pessoas e distribua a notícia acima para cada. Utilizando o que se chama de leitura lateral – segundo o Educamídia, compreende “navegar pela internet para buscar evidências da confiabilidade de determinado site, e não apenas avaliar o próprio site” -, eles devem checar a informação.

Durante o exercício, o professor pode falar sobre o que é decreto presidencial e onde ele pode ser consultado. É importante orientar os estudantes a sempre lerem as mensagens com atenção, observando possíveis incoerências (neste caso, fala de sigilo, mas expõe que os convocados ficarão incomunicáveis) e tom alarmista.

Após os grupos concluírem a checagem, a sala pode compartilhar os resultados e sintetizar quais passos são importantes para a verificação de uma informação. Depois disso, os estudantes podem discutir em roda de conversa: a estética da imagem (ela se parece com um decreto original? qual primeira impressão passa? por que tantas pessoas acreditaram que fosse verdadeiro?), a criação da imagem (como foi criado o “decreto falso”? é fácil? exige habilidades de photoshop, por exemplo?) e o contexto/intenção em que ela está (em qual momento político o “decreto” está inserido? com qual objetivo ele foi feito?).

3) Opinião e informação

Texto 1

Quatro escolas apresentaram desfiles plasticamente semelhantes – carros alegóricos e fantasias bem feitas, luxuosas e bem acabadas. Portela e, principalmente, Mangueira, que desfilaram na segunda noite, fizeram exibições contagiantes. Envolveram o público a ponto de muita gente chorar nas arquibancadas e frisas. Tijuca e Viradouro, que se exibiram na primeira noite, apresentaram desfiles tecnicamente muito corretos e mais teatrais do que a outra dupla. Ficaram, porém, estiveram longe de cativar o público da mesma forma. 

Texto 2

A Mancha Verde, escola de samba do Palmeiras, é campeã do grupo especial do carnaval paulistano em 2019.  A Vai – Vai, escola que mais vezes venceu o carnaval de São Paulo, e Acadêmicos do Tucuruvi foram rebaixadas para o grupo de acesso em 2020.

 

Para entender a diferença entre um texto opinativo e informativo, os alunos deverão ler os dois trechos acima, retirados de reportagens do Estadão, e sublinhar palavras que contenham juízo de valor. No primeiro texto, as palavras “contagiantes”, “luxuosas” e bem acabadas” são bons exemplos. É interessante que os estudantes percebam que o texto opinativo traz diversas observações do repórter. Não se trata de olhar para determinado acontecido e julgar, mas de entender contextos.

Neste exercício, cada aluno deverá produzir um texto informativo e outro opinativo, com a crítica sobre aquele desfile de Carnaval. Para estruturar o informativo, eles podem usar o “lide”, primeira parte da notícia que geralmente possui as informações mais importantes do texto: quem? quê? quando? onde? por quê? Antes da atividade, eles podem pesquisar sobre a escola que vão falar, utilizando o Acervo Estadão ou mesmo assistindo vídeos no youtube.

4) Assédio X Carnaval

A edição de 11 de fevereiro de 1920 do Estadão mostra que o combate contra o assédio no carnaval é problema antigo. Uma série de campanhas contra o machismo tentam conscientizar homens e mulheres sobre respeito. A “Não é Não”, feita exatamente para o período de Carnaval, ou o movimento #Metoo, popular no mundo inteiro, são exemplos. 

Os alunos deverão pesquisar iniciativas de campanhas ou políticas públicas sobre o tema, analisando questões como mensagem da campanha, público-alvo, objetivo, slogan (se tiver). Depois, em grupos de até 7 pessoas, devem criar uma campanha para combater o machismo nas escolas. A campanha pode incluir intervenções (como cartazes pela escola, teatro, apresentação musical) e ações nas redes sociais.

 

O Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

 

Disciplinas envolvidas: Português, Geografia, Matemática.

Anos em que as habilidades podem ser trabalhadas: ensino médio e fundamental 2

(EM13CHS402) Analisar e comparar indicadores de emprego, trabalho e renda em diferentes espaços, escalas e tempos, associando-os a processos de estratificação e desigualdade socioeconômica.

(EF09LP02) Analisar e comentar a cobertura da imprensa sobre fatos de relevância social, comparando diferentes enfoques por meio do uso de ferramentas de curadoria.

(EF69LP07) Produzir textos em diferentes gêneros, considerando sua adequação ao contexto produção e circulação – os enunciadores envolvidos, os objetivos, o gênero, o suporte, a circulação -, ao modo (escrito ou oral; imagem estática ou em movimento etc.), à variedade linguística e/ou semiótica apropriada a esse contexto, à construção da textualidade relacionada às propriedades textuais e do gênero), utilizando estratégias de planejamento, elaboração, revisão, edição, reescrita/redesign e avaliação de textos, para, com a ajuda do professor e a colaboração dos colegas, corrigir e aprimorar as produções realizadas, fazendo cortes, acréscimos, reformulações, correções de concordância, ortografia, pontuação em textos e editando imagens, arquivos sonoros, fazendo cortes, acréscimos, ajustes, acrescentando/ alterando efeitos, ordenamentos etc.

(EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos.

(EF67LP07) Identificar o uso de recursos persuasivos em textos argumentativos diversos (como a elaboração do título, escolhas lexicais, construções metafóricas, a explicitação ou a ocultação de fontes de informação) e perceber seus efeitos de sentido.

(EF67LP04) Distinguir, em segmentos descontínuos de textos, fato da opinião enunciada em relação a esse mesmo fato.

(EF06MA32) Interpretar e resolver situações que envolvam dados de pesquisas sobre contextos ambientais, sustentabilidade, trânsito, consumo responsável, entre outros, apresentadas pela mídia em tabelas e em diferentes tipos de gráficos e redigir textos escritos com o objetivo de sintetizar conclusões.

 

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