Black Friday: escolas podem discutir consumo consciente e segurança digital com alunos

Black Friday: escolas podem discutir consumo consciente e segurança digital com alunos

Atividades podem ser trabalhadas com os estudantes nas disciplinas de Ciências, Português e Matemática

Bianca Gomes

28 de novembro de 2019 | 14h20

Com a promessa de ser uma sexta-feira do ano com promoções imperdíveis, a Black Friday chegou ao Brasil em 2011 e desde então vem conquistando cada vez mais espaço no comércio online e varejo físico do País.

Somente no ano passado, a campanha faturou R$ 3,9 bilhões em transações virtuais entre os dias 22 e 26 de novembro, segundo levantamento da consultoria Ebit/Nielsen. Para este ano, a expectativa é de que o número tenha um aumento de 18%.

Neste ano, Black Friday será no dia 29 de novembro. Foto: Alex Silva / Estadão

Na reportagem Black Friday 2019: tudo o que você precisa saber, o repórter Felipe Laurence dá dicas de como aproveitar os descontos da campanha e não cair em golpes ou propagandas enganosas.

O tema pode ser abordado em sala de aula para discutir questões como privacidade e segurança na internet, consumo consciente e verificação de informações. Abaixo, Laurence conta como foi o processo de apuração da matéria:

1) Verificando as fontes

O texto sobre a Black Friday pode ser considerado uma “matéria de serviço”, pois dá ao leitor informações úteis para tomar decisões do dia a dia – neste caso, se compra ou não algum produto na data. 

Os alunos deverão se dividir em grupos e analisar quais fontes de informação a reportagem utilizou para dar dicas de como aproveitar a campanha. A ideia é que eles reúnam os nomes de pessoas e instituições citadas em uma lista e pesquisem sobre cada um

Ao longo do processo, é interessante que o professor oriente a busca dos alunos. A competência dos especialistas, por exemplo, pode ser checada em fontes como Lattes e Linkedin, ou mesmo por meio da ferramenta Google Acadêmico, que permite consultar publicações de autores. As pesquisas citadas podem ser buscadas nos sites oficiais das instituições. Os alunos devem verificar se elas já foram usadas em reportagens anteriores. É importante também checar as dicas recomendadas pelo autor da matéria, se funcionam ou não, se são acessíveis a qualquer pessoa (um exemplo é o site “Black Friday de Verdade”).

Os estudantes devem atribuir notas de confiável ou não confiável aos itens. Ao final do exercício, reúna a sala e discuta a qualidade das fontes usadas na reportagem e se a matéria cumpriu o propósito de dar orientações aos leitores.

2) Assuntos mais buscados

A reportagem sobre a Black Friday foi desenvolvida pela equipe de SEO da editoria de Economia do Estadão. Um dos propósitos da equipe é escrever matérias sobre assuntos que estão sendo buscados pelas pessoas na internet. Para isso, é usada uma ferramenta chamada Google Trends, que mostra o número de buscas por determinada palavra ou expressão. 

  • Os alunos deverão buscar pelo termo “Black Friday” no campo “insira um termo de pesquisa ou assunto” e analisar se os resultados que aparecem em “assuntos relacionados” estão contemplados na reportagem, avaliando se algum tema que poderia ter sido abordado ficou de fora.
  • Utilizando o campo de período, peça aos estudantes que selecionem “nos últimos 5 anos” e analisem o gráfico de interesse ao longo do tempo. A ideia é que eles vejam se a campanha, de fato, cresceu nos últimos anos, além do porquê de esse fenômeno ter ou não acontecido.
  • Por último, entendendo o funcionamento da ferramenta do Google, os alunos deverão produzir uma matéria sobre algum assunto contemplado nas “pesquisas em alta” indicadas no site. A matéria poderá ser em texto, vídeo ou podcast, mas é importante que para todos os formatos o professor indique que deve haver um planejamento de quais especialistas serão entrevistados, qual público-alvo a matéria busca atingir e qual o lide (que responde às perguntas: o quê? quem? quando? onde? como? por quê?). No caso do vídeo e do podcast, é preciso fazer um roteiro contemplando as falas de quem irá narrar, os trechos das entrevistas com especialistas e a trilha sonora, sempre observando os direitos de imagem. Se o professor desejar ampliar o exercício, pode juntar a próxima atividade sobre buscas no Google, pedindo aos alunos que trabalhem para melhorar o SEO das produções. 

3) Privacidade e segurança na web

Duas importantes habilidades previstas em educação midiática são guiar os alunos para práticas seguras no ambiente digital e ajudá-los a compreender e utilizar corretamente as ferramentas de buscas da internet. Visto que a Black Friday se tornou uma campanha forte no ambiente online, com propagandas falsas e golpes, proponha as seguintes atividades aos estudantes:

  • Os resultados de busca variam de acordo com o tipo de conteúdo que cada pessoa consome em seu aparelho celular, tablet ou computador. Duas pessoas que busquem pelo mesmo termo terão resultados diferentes exatamente por isso. Peça aos alunos que, em duplas, pesquisem os mesmos termos relacionados à Black Friday e comparem os resultados.
  • Discuta com eles as características dos resultados que aparecem em primeiro lugar nas buscas. Se há, por exemplo, uma grande quantidade de anúncios de venda. O professor deve levá-los a entender os critérios de ranqueamento das informações, incluindo questões de SEO (Search Engine Optimization) como: uso de tags, palavras-chave no título/linha fina/legenda da foto e hiperlinks. A ideia não é apenas que eles entendam o fenômeno, mas que estejam capacitados para otimizar um conteúdo que queiram produzir futuramente.
  • O professor pode aproveitar o tema para discutir privacidade na era digital. Primeiro, divida os alunos em grupos de cinco e peça para que cada grupo leia trechos de algum termo de privacidade (pode ser uma rede social que eles utilizem ou algum jogo) e consulte o  resumo dos dados salvos na Conta do Google. Eles deverão destacar trechos que chamem atenção para compartilhar com a sala posteriormente. A partir disso, levante as seguintes questões: quanto de informação pessoal fica disponível às grandes empresas e como isso afeta a experiência do aluno na internet? Deve haver limites ao tipo de informação disponível às empresas? É interessante perguntar se alunos da sala já tinham parado para ler algum termo de privacidade.
  • Após a discussão, os alunos podem pesquisar formas de se expor menos na internet. O próprio Google disponibiliza um material chamado “Ajudando as crianças a se tornarem exportadores seguros e confiantes do mundo on-line”, que indica conceitos básicos de segurança e cidadania digital para esse público.

4) Investigando sites não confiáveis 

O professor deverá dividir a sala em grupos de quatro a cinco membros e distribuir para cada um três sites de compras diferentes. Dois poderão ser da lista Evite esses sites, do Procon-SP, ou de sites que aparecem nas próprias redes sociais dos alunos. A ideia é que eles naveguem pelos sites e analisem se são confiáveis ou não. Eles podem separar elementos considerados suspeitos ou que indiquem algum tipo de segurança. O material da reportagem do Estadão pode ser distribuído aos alunos antes da atividade, assim eles poderão utilizar as ferramentas sugeridas. 

Depois do levantamento, o professor irá indicar quais eram os sites confiáveis e levantar, a partir de uma discussão com a classe, quais aspectos de um site podem ser observados para se evitar golpes. Os mesmos grupos devem voltar a se reunir e elaborar, cada um para uma mídia social diferente, um guia com orientações para identificar sites não confiáveis. 

O professor deverá apenas ter o cuidado de pedir para que os sites sejam abertos em janelas anônimas.

5) Campanhas publicitárias

As campanhas publicitárias promovidas por ocasião da Black Friday empregam sobretudo os argumentos de quantidade e qualidade; isto é, o preço (quantidade) e o fato de ser considerado um produto bom (qualidade) são usados para persuadir o consumidor. 

Em grupos de quatro, os alunos deverão selecionar um produto que esteja (teoricamente) em promoção na Black Friday e analisar o comportamento do preço nos meses anteriores à Black Friday e da própria semana da campanha, bem como as propagandas daquele produto em diferentes mídias. Sites como Zoom e Buscapé, agregadores de preço, permitem o levantamento dos valores. A análise quantitativa pode ser feita usando a ferramenta gratuita Flourish, que traz diversas opções de gráficos. O ideal é que cada grupo procure um setor diferente para estudar, como eletrônicos, passagens aéreas e cosméticos. Depois, eles podem procurar reportagens de anos anteriores e deste ano que falam sobre preços na Black Friday (em outros anos, ficou conhecida a frase “tudo pela metade do dobro” para expressar falsos descontos de empresas). Por fim, devem discutir as estratégias de persuasão utilizadas nas propagandas e a relação entre o que se diz e o que, de fato, é verdade. 

O objetivo da atividade, que corresponde ao campo jornalístico-midiático de linguagens da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), é fazer com que os alunos saibam identificar promoções que realmente valem a pena e não comprem o que não precisam, em uma tentativa de incentivar o consumo mais consciente. 

A BNCC prevê como habilidade a compreensão de formas de persuasão do discurso publicitário, a ideia do apelo ao consumo. A Black Friday vende a ideia de promoção e oportunidade única, fatos nem sempre verdadeiros. 

6) Consumo consciente

Equipamentos eletrônicos, sobretudo smartphones, estão entre os itens mais procurados na Black Friday. Sobre o consumo desse tipo de produto e a partir do vídeo “A história dos eletrônicos” (que pode ser visto pelos estudantes antes da aula), é possível abordar as seguintes atividades:

  • Discuta com os estudantes sobre o processo pelo qual um produto eletrônico passa desde quando é produzido até o seu destino final e os danos ambientais que ocorrem ao longo dessas etapas. Eles devem se dividir em grupo e trabalhar com a questão sobre qual é a relação entre o cotidiano dele e o meio ambiente, será que esses dois fatores têm uma ligação direta?
  • Introduza o termo “pegada ecológica” e explique que ela é uma forma de medir o quanto de recursos naturais nós temos disponíveis em nosso planeta e o quanto estamos gastando dele em virtude dos nossos hábitos durante o nosso dia a dia. Se houver a possibilidade de uso de recursos tecnológicos, cada aluno deve acessar o site “Sua Pegada Ecológica” e fazer o teste de quantos planetas Terra seriam necessários para que – se caso a população inteira do nosso planeta tivesse o mesmo hábito que você – todos vivessem de acordo com o seu estilo de vida.
  • Os estudantes devem apresentar seus dados e mostrar projetos que estejam em sintonia com a proposta, por exemplo, projetos que reutilizam peças de eletrônicos que já estão obsoletas para construção de microscópios feitos com matérias de baixo custo, como o proposto pelo grupo Conector Ciência (https://www.conecien.com/conectorscopio.html).
  • Por fim, proponha um debate sobre a importância de se ter um consumo consciente, fazendo a ligação com as datas comemorativas ao longo do ano em que há grande incentivo, principalmente por meio de propagandas, ao consumo. Uma possibilidade é pedir para os alunos criarem ações coletivas para incentivar o consumo consciente na escola. Um exemplo é economia de energia elétrica nas salas, de água.   

Disciplinas envolvidas: Ciências, Matemática e Português.

Anos em que as habilidades podem ser trabalhadas: ensino médio e fundamental 2.

Referências na BNCC:

Linguagens: EF89LP08, EF69LP02, EF69LP06, EF89LP07, EM13LGG701, EF69LP04, EM13LP41;

Matemática: EF06MA32;

Ciências da natureza: EF05CI05, EF09CI13 .

(EF89LP08) Planejar reportagem impressa e em outras mídias (rádio ou TV/vídeo, sites), tendo em vista as condições de produção do texto – objetivo, leitores/espectadores, veículos e mídia de circulação etc. – a partir da escolha do fato a ser aprofundado ou do tema a ser focado (de relevância para a turma, escola ou comunidade), do levantamento de dados e informações sobre o fato ou tema – que pode envolver entrevistas com envolvidos ou com especialistas, consultas a fontes diversas, análise de documentos, cobertura de eventos etc. -, do registro dessas informações e dados, da escolha de fotos ou imagens a produzir ou a utilizar etc., da produção de infográficos, quando for o caso, e da organização hipertextual (no caso a publicação em sites ou blogs noticiosos ou mesmo de jornais impressos, por meio de boxes variados).

(EF69LP02) Analisar e comparar peças publicitárias variadas (cartazes, folhetos, outdoor, anúncios e propagandas em diferentes mídias, spots, jingle, vídeos etc.), de forma a perceber a articulação entre elas em campanhas, as especificidades das várias semioses e mídias, a adequação dessas peças ao público-alvo, aos objetivos do anunciante e/ou da campanha e à construção composicional e estilo dos gêneros em questão, como forma de ampliar suas possibilidades de compreensão (e produção) de textos pertencentes a esses gêneros.

(EF69LP06) Produzir e publicar notícias, fotodenúncias, fotorreportagens, reportagens, reportagens multimidiáticas, infográficos, podcasts noticiosos, entrevistas, cartas de leitor, comentários, artigos de opinião de interesse local ou global, textos de apresentação e apreciação de produção cultural – resenhas e outros próprios das formas de expressão das culturas juvenis, tais como vlogs e podcasts culturais, gameplay, detonado etc.– e cartazes, anúncios, propagandas, spots, jingles de campanhas sociais, dentre outros em várias mídias, vivenciando de forma significativa o papel de repórter, de comentador, de analista, de crítico, de editor ou articulista, de booktuber, de vlogger (vlogueiro) etc., como forma de compreender as condições de produção que envolvem a circulação desses textos e poder participar e vislumbrar possibilidades de participação nas práticas de linguagem do campo jornalístico e do campo midiático de forma ética e responsável, levando-se em consideração o contexto da Web 2.0, que amplia a possibilidade de circulação desses textos e “funde” os papéis de leitor e autor, de consumidor e produtor. 

(EF89LP07) Analisar, em notícias, reportagens e peças publicitárias em várias mídias, os efeitos de sentido devidos ao tratamento e à composição dos elementos nas imagens em movimento, à performance, à montagem feita (ritmo, duração e sincronização entre as linguagens – complementaridades, interferências etc.) e ao ritmo, melodia, instrumentos e sampleamentos das músicas e efeitos sonoros.

(EF69LP04) Identificar e analisar os efeitos de sentido que fortalecem a persuasão nos textos publicitários, relacionando as estratégias de persuasão e apelo ao consumo com os recursos linguístico-discursivos utilizados, como imagens, tempo verbal, jogos de palavras, figuras de linguagem etc., com vistas a fomentar práticas de consumo conscientes.

(EM13LP41) Analisar os processos humanos e automáticos de curadoria que operam nas redes sociais e outros domínios da internet, comparando os feeds de diferentes páginas de redes sociais e discutindo os efeitos desses modelos de curadoria, de forma a ampliar as possibilidades de trato com o diferente e minimizar o efeito bolha e a manipulação de terceiros. 

(EF06MA32) Interpretar e resolver situações que envolvam dados de pesquisas sobre contextos ambientais, sustentabilidade, trânsito, consumo responsável, entre outros, apresentadas pela mídia em tabelas e em diferentes tipos de gráficos e redigir textos escritos com o objetivo de sintetizar conclusões.

(EM13LGG701) Explorar tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC), compreendendo seus princípios e funcionalidades, e utilizá-las de modo ético, criativo, responsável e adequado a práticas de linguagem em diferentes contextos.

(EF05CI05) Construir propostas coletivas para um consumo mais consciente e criar soluções tecnológicas para o descarte adequado e a reutilização ou reciclagem de materiais consumidos na escola e/ou na vida cotidiana.

(EF09CI13) Propor iniciativas individuais e coletivas para a solução de problemas ambientais da cidade ou da comunidade, com base na análise de ações de consumo consciente e de sustentabilidade bem-sucedidas.

O Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

O material teve a colaboração dos professores Diana Ribas Rodrigues Roque, do Liceu Jardim e menstranda em ensino na UFABC, do Frederico Barbosa, do Cursinho da Poli, Paulo Fontes, do colégio Albert Sabin.

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