Protestos no Chile levantam discussões que vão de História a Artes

Protestos no Chile levantam discussões que vão de História a Artes

Bianca Gomes

24 de outubro de 2019 | 10h00

O Chile vive nos últimos dias a maior onda de protestos desde a ditadura militar de Augusto Pinochet. O aumento na tarifa do transporte público, anunciado e revogado no mesmo dia pelo presidente Sebastián Piñera, foi a gota d’água que levou a população às ruas. Mas no pano de fundo das manifestações está a desigualdade social do país que, até então, era tido como modelo na América Latina

Protestos podem ser abordados de maneira diferente em sala de aula. Foto: Javier Torres / AFP

Um primeiro olhar para os indicadores econômicos chinelos causam boa impressão: PIB acima da média mundial, IDH elevado e inflação controlada. Por trás das estatísticas, no entanto, a má distribuição de renda no país dificulta o acesso da população mais pobre a serviços essenciais como saúde e educação. 

Produzido pela editoria de Internacional do Estadão, o Guia para entender os confrontos no Chile explica a cronologia das manifestações e o contexto em que elas estão inseridas. O material permite discutir o tema de forma ampla em duas áreas do conhecimento: Linguagens e Ciências Humanas.

A repórter de Internacional Carla Bridi explica os principais aspectos dos protestos no Chile no vídeo abaixo:

PROPOSTAS DE ATIVIDADE

1 – Chile X  junho de 2013 

Assim como no Chile, as manifestações de junho de 2013 no Brasil tiveram como catalisador o aumento da tarifa do transporte público, mas depois agregaram outras demandas da população. Em uma roda de conversa, peça aos alunos que apontem comparações entre os dois eventos. 

Além de uma possível comparação, é possível discutir com os alunos, tendo em vista os dois acontecimentos, temas como: direitos sociais, cidadania e participação, contextos de desobediência civil e seus limites, relação entre Estado e novos movimentos sociais.

Antes da atividade, uma sugestão para refrescar a memória é assistir ao documentário Junho: O mês que abalou o Brasil, dirigido por João Wainer, e ler trechos do livro 20 Centavos, organizado por Pablo Ortellado, pesquisador e professor da Universidade de São Paulo. 

 

2 – Violência nas manifestações 

Os protestos no Chile já são tidos como os mais violentos desde o retorno da democracia no país. Manifestantes atearam fogo em ônibus e estações de metrô, saquearam lojas e destruíram semáforos e placas de trânsito. Proponha o seguinte debate aos alunos: em uma manifestação, o uso da violência é legítimo? Se sim, até que ponto? Antes da atividade, exiba, em sala de aula, o filme chileno Machuca.

 

3 – Protestos na América Latina

Além do Chile, outros três países latino-americanos foram palco de protestos populares neste ano: Equador, Peru e Argentina. Proponha aos alunos que leiam notícias sobre o que ocorreu nos quatro países e criem um mapa mental, que consiste em um tipo de diagrama muito utilizado como técnica de estudo, pois ajuda a organizar e memorizar dados, além de enxergar correlações entre ideias. 

O conceito é simples: fazer um resumo gráfico de determinado assunto usando palavras-chaves ou até mesmo imagens.  É importante que o aluno saiba a ideia central do mapa, de onde sairão as ramificações. O uso de cores pode ajudar a ter uma melhor visualização. 

Nesta matéria do Estadão, veja dicas para fazer o mapa, muito utilizado por vestibulandos. Confira também o exemplo abaixo:

Mapa mental organiza ideias e ajuda a memorizar dados com mais facilidade. Foto: Pixabay

O mapa pode ser feito utilizando uma folha (de preferência, A3 ou maior) e lápis colorido. Há também a opção de fazê-lo pelo computador, se a escola tiver laboratório de informática. Diversos sites ajudam a fazer mapa mental, uma opção é o GoConqr (https://www.goconqr.com/pt-BR/mapas-mentais/)

No mapa, os alunos deverão fazer um resumo dos acontecimentos e contextos de cada uma das manifestações, além de apontar possíveis comparações. 

 

5 – Artes 

Apresente aos alunos referências de artistas contemporâneos que mesclam arte e protesto, como o Banksy, e de pinturas antigas reconhecidas que retratam ou manifestações históricas ou episódios de repressão e violência policial do Estado.  A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix, e O 3 de maio de 1808, de Francisco Goya, são bons exemplos. A partir da apresentação, é possível discutir com os alunos o papel da arte em retratar momentos históricos, além de propor que eles desenhem alguma situação. 

 

6 – Economia para além do PIB

Se considerarmos apenas o Produto Interno Bruto (PIB), um dos indicadores mais importantes da economia, o Chile vai bem: em 2018, fechou em alta de 4%, maior nível em cinco anos. A previsão neste ano era de um crescimento de 2,5% – maior do que o Brasil, por exemplo. Mas olhar apenas para o PIB não é suficiente para entender a economia de um país. 

Trabalhe com os alunos a ideia do “PIBismo”, ou medição do desenvolvimento nacional apenas por meio do crescimento do PIB. Primeiro, peça que pesquisem dados da economia do Chile e, em sala de aula, coloque em discussão se a economia do país vai bem ou não.

Depois disso, mostre aos alunos outros indicadores que ajudam a entender o desenvolvimento de uma nação e repita o questionamento inicial. Alguns exemplos de indicadores possíveis: 

  • Paridade do poder de compra (PPC)
  • Coeficiente de Gini
  • Felicidade Interna Bruta (FIB)

 

7 – Liberalismo 

O Chile virou referência na América Latina pelo crescimento econômico acima da média e por adotar o modelo liberal cujas reformas levaram a uma série de privatizações em áreas como saúde, educação e previdência. Nesta atividade, o aluno deverá pesquisar e comparar a implementação de medidas liberais em outros países da América Latina, observando suas consequências em cada lugar. 

O professor poderá aproveitar o tema para discutir o conceito teórico de liberalismo. A sugestão é que use como referência o autor Milton Friedman, dado que seus alunos da Escola de Chicago (os “Chicago Boys”) eram os economistas de Augusto Pinochet, que iniciou a implantação de políticas liberais no Chile. 

No youtube, há diversas entrevistas do próprio Friedman sobre liberalismo (https://www.youtube.com/watch?v=skx8a90xI78) e videoaulas que explicam, em linguagem simples, os conceitos do economista. Sugestão: https://www.youtube.com/watch?v=duDng9IJisc). 

Há, ainda, a possibilidade de fazer a ponte com o Brasil, provocando os alunos com a seguinte questão: qual a relação entre a Escola de Chicago e o atual Ministério da Economia? Afinal, Paulo Guedes estudou na Universidade de Chicago e tem Friedman como referência. 

 

8 – Chile e Equador em pauta

Divida a sala em grupos de 5. Cada integrante do grupo receberá um dos cinco materiais separados pelo professor. Cada um destes materiais terá uma pergunta-chave, conforme os tópicos abaixo:

1) Notícia dos protestos no Chile (o que desencadeou os protestos no Chile?)

2) Vídeo mostrando a violência nas manifestações (a partir dos conceitos de ‘direitos humanos’ e ‘manifestação política’, identifique possíveis contradições em relação ao uso de violência nos protestos do Chile)

3) Texto de sociologia abordando o tema ‘Estado e relação de poder’. Sugestão de autor: Pierre Bourdieu

4) Notícia sobre protestos no Equador (o que desencadeou os protestos no Equador?)

5) Texto sobre pontos em comum na América Latina 

Após responder à pergunta, cada aluno deverá se reunir com os alunos dos demais grupos que estão com o mesmo número/tópico. A ideia é que cada um explique sua resposta e discuta o tema. 

Depois da discussão, os grupos completos deverão se reunir. Cada aluno deverá expor as discussões que teve sobre o seu tópico com os demais e, juntos, os integrantes do grupo deverão montar um texto jornalístico que abarca os tópicos propostos e compare a situação atual do Chile com a do Equador.

Disciplinas envolvidas: Português, História, Geografia, Artes, Sociologia e Redação.

Anos em que as habilidades podem ser trabalhadas: ensino médio e fundamental 2

Referências na BNCC: Ciências Humanas e suas Tecnologias – EM13CHS603; EM13CHS604; EM13CHS204; EM13CHS201; EM13CHS102; EM13CHS106; EM13CHS205; EF08HI06.

Linguagens – EF69LP06; EF67LP27.

O repórter de política Paulo Beraldo dá dicas de como abordar as manifestações no Chile em sala de aula. Veja o vídeo:

(EM13CHS603) Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder, formas, sistemas e regimes de governo, soberania etc.).

(EF67LP27) Analisar, entre os textos literários e entre estes e outras manifestações artísticas
(como cinema, teatro, música, artes visuais e midiáticas), referências explícitas ou implícitas a
outros textos, quanto aos temas, personagens e recursos literários e semióticos

(EF69LP06) Produzir e publicar notícias, fotodenúncias, fotorreportagens, reportagens, reportagens multimidiáticas, infográficos, podcasts noticiosos, entrevistas, cartas de leitor, comentários, artigos de opinião de interesse local ou global, textos de apresentação e apreciação de produção cultural – resenhas e outros próprios das formas de expressão das culturas juvenis, tais como vlogs e podcasts culturais, gameplay, detonado etc.– e cartazes, anúncios, propagandas, spots, jingles de campanhas sociais, dentre outros em várias mídias, vivenciando de forma significativa o papel de repórter, de comentador, de analista, de crítico, de editor ou articulista, de booktuber, de vlogger (vlogueiro) etc., como forma de compreender as condições de produção que envolvem a circulação desses textos e poder participar e vislumbrar possibilidades de participação nas práticas de linguagem do campo jornalístico e do campo midiático de forma ética e responsável, levando-se em consideração o contexto da Web 2.0, que amplia a possibilidade de circulação desses textos e “funde” os papéis de leitor e autor, de consumidor e produtor.

(EF08HI06) Aplicar os conceitos de Estado, nação, território, governo e país para o entendimento de conflitos e tensões

(EM13CHS204) Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de territórios, territorialidades e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como grupos sociais e culturais, impérios, Estados Nacionais e organismos internacionais) e considerando os conflitos populacionais (internos e externos), a diversidade étnico-cultural e as características socioeconômicas, políticas e tecnológicas

(EM13CHS201) Analisar e caracterizar as dinâmicas das populações, das mercadorias e do capital nos diversos continentes, com destaque para a mobilidade e a fixação de pessoas, grupos humanos e povos, em função de eventos naturais, políticos, econômicos, sociais, religiosos e culturais, de modo a compreender e posicionar-se criticamente em relação a esses processos e às possíveis relações entre eles.

(EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos.

(EM13CHS106) Utilizar as linguagens cartográfica, gráfica e iconográfica, diferentes gêneros textuais e tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais, incluindo as escolares, para se comunicar, acessar e difundir informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.

(EM13CHS205) Analisar a produção de diferentes territorialidades em suas dimensões culturais, econômicas, ambientais, políticas e sociais, no Brasil e no mundo contemporâneo, com destaque para as culturas juvenis.

(EM13CHS402) Analisar e comparar indicadores de emprego, trabalho e renda em diferentes espaços, escalas e tempos, associando-os a processos de estratificação e desigualdade socioeconômica.

(EM13CHS502) Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais.

(EM13CHS503) Identificar diversas formas de violência (física, simbólica, psicológica etc.), suas principais vítimas, suas causas sociais, psicológicas e afetivas, seus significados e usos políticos, sociais e culturais, discutindo e avaliando mecanismos para combatê-las, com base em argumentos éticos.

 

O Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

O material teve a colaboração dos professores Bárbara Yuka,  da Escola Roberto Norio, Maria Fernanda Silva Pinto, do Colégio Anglo 21, Marcelo Adolfi, Megan Julia Sutton-Kirkby, do Colégio Pré Médico, Fernando Caiafa Gancev, do Curso e Colégio Objetivo, Poliedro e Liceu Jardim, William Oliveira Gomes da Silva, do colégio Poliedro São Paulo e Anglo Morumbi.

 

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