Proposta pedagógica estampada em arquitetura e natureza

Proposta pedagógica estampada em arquitetura e natureza

06 Setembro 2016 | 12h10

No ano em que se celebra os 25 anos da Escola Projeto Vida, os alunos da Unidade de Educação Infantil ganham um novo espaço: a Casa de Vidro. A arquitetura sustentável e inteligente do projeto teve assinatura da arquiteta Adriana Zanetti, inspirada pelas conversas, ideias e conceitos pedagógicos discutidos com as fundadoras e diretoras da Projeto Vida, Mônica Padroni, Silvia Elayne e Lêda Cruz.

Há 25 anos, Adriana desenvolve projetos de arquitetura para a escola. “Muito do nosso conceito se traduz na estética que adotamos, por exemplo, essa ideia de usar o trabalho das crianças nos azulejos de vidro, os trabalhos estampados em adesivos na porta dos banheiros, e em muitos outros lugares. Isso tudo Adriana planejou em consonância com a proposta da escola. Ao mesmo tempo em que influencia a escola ela também é influenciada”, diz Mônica, diretora da Educação Infantil.

O belo flamboyant de 200 anos, que agora protege a Casa de Vidro sempre foi uma questão importante, como conta Mônica: “O desafio era integrar o flamboyant ao projeto arquitetônico para que ele pudesse dar o aconchego que sempre deu. Efetivamente ele abraçava aquele lugar, ele sombreava. A Adriana pensou todo o projeto integrando o flamboyant, fazendo ali uma pracinha ao pé da árvore”.

Para conhecer mais detalhes sobre esse curioso projeto de arquitetura sustentável, dias antes da sua inauguração, dentro da própria Casa, a Projeto Vida conversou com a sua criadora, a arquiteta Adriana Zanetti.

Como nasceu a ideia deste projeto?

A ideia nasceu a partir da necessidade por um espaço maior para refeitório e depois para atender às necessidades da escola integrada (período complementar ao pedagógico), aulas variadas e balé. Agora temos um refeitório e uma sala multiuso.

De que maneira o “ecossistema Projeto Vida” influenciou a sua criação?

O fato de ter paredes de vidro foi por conta do patrimônio histórico, para evitar o problema de o novo espaço concorrer com o Casarão (a Unidade de Educação Infantil fica no antigo Sítio Santa Luzia e abriga um casarão em taipa de pilão, de 200 anos, tombado como patrimônio arquitetônico da cidade de São Paulo). Nós quisemos aproximar o novo espaço da natureza e deixar o patrimônio como elemento em destaque. Ele foi desenvolvido todo com estrutura metálica, com mesas retráteis, porque você pode ter também um espaço para eventos.

Como integrou uma estrutura como a Casa de Vidro entre tantas árvores?

A ideia é realmente integrar porque quando você encontra uma escola com espaço verde você quer preservar esse espaço. Nós mantivemos todas as árvores. Temos esse flamboyant de quase 200 anos – idade aproximada do Casarão, é uma árvore adulta, antiga. Temos um ipê que está no caminho para a Casa, que mantivemos, e uma outra árvore nós transplantamos.

Quais cuidados precisaram ter?

Para respeitar o flamboyant, que tem raízes com 70 cm de altura, optamos por não baixar o terreno. A raiz dessa árvore é tão grande que a dimensão dela é a mesma que a extensão da copa. O raio da copa é o raio da raiz, é assim que a árvore se “equilibra”. Foi um “jogo de xadrez” para poder fazer essa fundação, sem mexer nas raízes.

Como isso foi possível?

A partir das raízes que estavam expostas, foram construídas as fundações do refeitório e, por isso, é que o projeto foi feito em L, para evitarmos machucar as raízes. Colocamos um piso drenante, feito de pedriscos e unidos por uma resina. Quando a água cai nesse chão ela perpassa direto o piso. É super-resistente e indicado para rampas, porque também é aderente. Usamos o piso drenante em todo o entorno do novo espaço.

O que há de mais curioso na Casa de Vidro?

Tem um pinheiro que surge do chão do novo espaço e cresce para o alto. O projeto se adaptou à árvore, mais uma vez. Para não entrar água no espaço pelo furo que fizemos na estrutura, para a árvore poder existir, prendemos uma placa na parte superior do pinheiro. Quando o pinheiro se movimenta com o vento a placa também se movimenta, aí a chuva não entra. Isso é chamado chapéu chinês.

Temos também o eco-telhado, que é constituído por uma estrutura de drenagem, coberto com uma manta, depois colocamos terra e grama por cima. A estrutura toda, ao mesmo tempo em que drena a água, também filtra. A água é captada por um sistema com capacidade para armazenar 600 litros. Outra vantagem em termos um teto assim é o conforto térmico e acústico. O eco-telhado diminui em quase 5 graus a temperatura interna.

Com tantas paredes de vidro, os pássaros não podem se machucar?

Existe um problema mundial ligado aos acidentes com pássaros, em prédios e estruturas com vidros e espelhos. Eles não percebem que as estruturas são barreiras para o voo e se chocam com elas. A escola fez um trabalho com os alunos do 1º ano, lendo os textos e pedindo que as crianças desenhassem pássaros; depois esses desenhos foram transformados em adesivos e aplicados nos vidros. Para a porta que divide os dois ambientes, os alunos do G4 colheram folhas para serem aplicadas nessa porta. Esse também é um despertar para a natureza.

Estamos em uma escola, precisamos falar de ciência. Quais “ciências” foram utilizadas para criar o projeto?

(risos) Tem a física, a arquitetura, mas é pura química porque você mistura materiais; a história pela antiguidade do espaço, a linguagem porque existe a linguagem visual, você pode sentir o espaço “pesado” ou “leve”. A arquitetura também envolve um aspecto psicológico porque tem a ver com o bem-estar.

Como a arquitetura pode estimular a aprendizagem, ou aumentar o apetite, no caso do novo espaço?

(risos) A arquitetura pensa o ser humano no espaço, como ele vai se sentir, o que facilita sua organização. Em um espaço bem organizado e desenvolvido a pessoa se sente à vontade. As sócias me pediram para ter em conta o conceito de Reggio Emilia (região italiana de escolas exemplares de Educação Infantil) quando fosse pensar nos trabalhos para a escola. As crianças vão levar “essa arquitetura” para o resto da vida. Ouvi de um aluno que o que ele mais gostou do novo espaço foi do pinheiro dentro do refeitório.

Como é fazer projetos de arquitetura para uma escola tão especial quanto a Projeto Vida?

É dar atenção para o aluno e entender como ele está no espaço, como ele se sente, o seu aprendizado, isso é muito gratificante.

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