Desliguem seus celulares, a sessão dos sonhos vai começar!

Desliguem seus celulares, a sessão dos sonhos vai começar!

Fernanda Tambelini

09 de setembro de 2019 | 14h16

Psicóloga e psicanalista, a doutora Julieta Jerusalinsk faz um convite-apelo para nos abrirmos para encontros verdadeiros, especialmente com nossos filhos. Ouvi-la falar em uma palestra para pais e mães de crianças de 0 a 14 anos sobre intoxicações eletrônicas, tema de seu mais recente livro, gera um misto de esperança e preocupação. As famílias da Projeto Vida tiveram a oportunidade de refletir com ela sobre uma pauta presente na vida de todos nós: como as informações são transmitidas aos pequenos e como nos relacionamos uns com os outros em tempos de internet móvel. 

Pesquisadora da infância, do brincar e dos efeitos da tecnologia sobre o desenvolvimento, Julieta recebe em seu consultório pacientes que não conseguem ainda conversar, mas repetem palavras e frases desconexas de jogos eletrônicos – muitas vezes, em inglês. As famílias chegam preocupadas com possíveis diagnósticos, entretanto, a especialista afirma tratar-se muito mais das experiências vividas do que de doenças, transtornos ou outras condições. Essas crianças não tiveram a oportunidade de se conectar verdadeiramente com as pessoas ao seu redor e utilizar a linguagem para se representar.

Na contemporaneidade, a tecnologia permite estarmos próximos de quem está fisicamente longe e possibilita reencontros, o que é fascinante. Não pretende-se, assim, demonizá-la, mas refletir sobre os custos que ela traz à vida e à sociedade atual. O problema é permitirmos que os eletrônicos nos deixem perto de quem está longe e longe de quem está perto. Outro desafio é a mistura dos tempos de trabalho e de descanso acarretada pela conectividade. Iludidos com o benefício de poder trabalhar em casa, muitas vezes, não conseguimos nos desconectar do trabalho e ter um tempo de descanso e conexão verdadeira com a família e os amigos.

Que atire o primeiro celular quem nunca respondeu mensagens durante o jantar ou enquanto tentava brincar com os filhos. É aqui que Julieta faz o convite: desligue seu celular, que a sessão de sonhos começa! Conversar é se abrir para o encontro, viver as cenas comuns do cotidiano para valer, compartilhar o que realmente nos interessa. Regular nosso próprio uso dos gadgets eletrônicos é fundamental para permitir essa abertura. “Não queiramos regular nas crianças o que não conseguimos regular em nós”, alerta Julieta, que orienta como determinar tempo e momentos adequados para os filhos usarem celulares, tablets e outras telas. “Não temos que pensar simplesmente em quanto tempo deixamos ou não que usem o celular. Precisamos pensar no lugar do que o eletrônico está, o que está substituindo”

Pausas necessárias

A enorme quantidade de informações disponíveis na internet e a velocidade em que somos expostos a textos e imagens gera efeitos negativos em nós, tanto individual quanto coletivamente. Temos a sensação de que estamos sempre em defasagem. Esse bombardeamento de dados não permite as pausas necessárias para fazermos relações têmporo-espaciais, indispensáveis na formação de nossa subjetividade. A Psicologia explica que as pausas são necessárias para elaborarmos as vivências e transformá-las em experiências de vida. Ou seja, precisamos de tempo para sonhar! A ideia de sermos produtivos o tempo todo nos leva a um alto grau de saturação e à falta de entusiasmo e vontade de fazer até mesmo as coisas que antes nos agradavam.

Ao mesmo tempo, a sociedade está cada vez mais performática, individualista e intolerante às crianças, que passam a ser responsabilidade exclusiva dos pais. Afinal, cuidar de criança dá trabalho e exige presença. Envolver filhos pequenos em um jantar no restaurante é mais difícil do que entretê-los com jogos eletrônicos, mas também pode ser bem mais gratificante. Assim como adolescentes vivem uma fase frágil e podem facilmente se afastar da complexidade da vida com os eletrônicos. É preciso encarar a realidade com nossos sonhos e, para os adultos, é uma oportunidade para evocarmos nossa própria infância e adolescência, para nos conectarmos aos nossos filhos e seus sonhos. 

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