Cenários de aprendizagem: um restaurante na sala de aula!

Cenários de aprendizagem: um restaurante na sala de aula!

Fernanda Tambelini

13 Setembro 2018 | 15h21

O texto abaixo é uma síntese do trabalho apresentado em agosto pela professora Simone  Pereira Maciel Vieira e pela coordenadora Carolina Adele Sandroni, da Educação Infantil da Escola Projeto Vida, no 21º Seminário de Educação Infantil – As bases e a base na Educação Infantil: reflexões pedagógicas.
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Sabemos que desde pequenas as crianças estão atentas a tudo e buscam compreender o mundo à sua volta. Reconhecer isso não é o suficiente, é preciso oportunizar experiências de aprendizagem significativas em que possam atuar realmente como protagonistas. Elas têm potencial para direcionar o nosso olhar para onde devemos focar, respeitando-as e criando espaços onde possam experimentar, descobrir, conhecer, reconhecer, criar, recriar… Relataremos um pouco do que vivenciamos com as crianças do grupo 4, no primeiro semestre de 2018, na Escola Projeto Vida.

Eu, professora da sala, organizava diariamente espaços com diferentes propostas como leitura, desenho, carrinhos, faz-de-conta, entre outros. Num certo dia, havia organizado numa grande mesa elementos da natureza e kits de cozinha para incrementar a brincadeira. Na mesa, era notória a união de todas as crianças pelo mesmo interesse, suas falas e envolvimento convidaram colegas que estavam em outras experimentações. De repente, estavam todas reunidas no mesmo espaço com os afazeres típicos das brincadeiras de faz-de-conta: cozinhar, brincar e comer comidinhas.

Observando toda essa cena, deslumbrei-me com a ideia de transformar toda a sala da turma num cenário como o de uma casa completa, com seus cômodos demarcados e caracterizados por suas funções. Afinal, a brincadeira transformou o grupo numa grande família que cozinhava e cuidava uns dos outros. Para ampliar essa oferta, organizei de maneira que na cozinha faziam e serviam refeições, na sala tinham uma biblioteca e sofás para que pudessem se acomodar, conversar e ler. Havia um lavabo com espelho para se arrumar e perceber a própria imagem e um lugar para descansar e dormir definido pelas crianças como quarto. Assim aconteceu nosso faz de conta, num cenário que remontava a uma casa de verdade, com seus cômodos e funções.

Nas rodas de conversa durante a semana, comentávamos sobre a brincadeira e as crianças mostravam-se muito envolvidas, sugeriam ajustes e afazeres, evidenciando que o faz-de-conta deveria permanecer em nossas propostas.

Criamos, então, ao longo do semestre e por decisão das crianças, outros cenários: o de um hospital que contava com sala de espera, senha, pré-atendimento e conversa com médico; o de um pet shop com banho, tosa, venda de roupinhas e produtos alimentícios e veterinários para cães, gatos e outros animais, incluindo a visita e permanência – por alguns dias – de um porquinho da índia; o de um supermercado com magazine, cestas para compras, sacolas, tabloides, caixa e um restaurante.

Restaurante “de verdade”
Para colocar uma lente de aumento na natureza deste trabalho, destacamos aqui nosso restaurante, como um representante de todos os outros cenários. Levantamos com as crianças elementos sobre a organização e os detalhes de um restaurante e observamos quantos conhecimentos elas traziam de suas experiências sociais reais. Sabiam que, ao chegar a esse tipo de estabelecimento, muitas vezes alguém é responsável por receber as famílias e dizer onde podem se sentar. Sabiam que havia a possibilidade de ter que esperar antes de poderem sentar-se à mesa. Sabiam que as mesas estavam sempre organizadas com capricho e carinho, com toalhas limpas e flores para enfeitar, que existe um cardápio dizendo que aquele lugar oferece refeições e bebidas, que as coisas têm preços e que a respectiva conta deve a ser paga ao final.

A conversa e o levantamento desses conhecimentos mostraram como aquele grupo de crianças com aproximadamente 4 anos está atento à própria vivência e aos acontecimentos e comportamentos sociais que acontecem na vida cotidiana.

Assim que decidimos o que teríamos em nosso restaurante, arrecadamos materiais na escola e organizamos a sala pensando em tudo aquilo que haviam sugerido: mesas com toalhas, pratos e flores, espaço para espera, revisteiro com revistas sobre gastronomia, cozinha com panelas. Confeccionamos alguns alimentos com massa para artesanato e solicitamos ajuda das crianças do 1º ano para escrever nosso cardápio.

O restaurante não permaneceu do mesmo jeito ao longo de sua estada no grupo 4 enquanto cenário de aprendizagem e investigação. Trocamos brinquedos e utensílios de faz-de-conta por ferramentas reais e visitas de grupos que vinham para brincar de cozinha por oficinas de culinária com receitas reais. Apropriamo-nos de conhecimentos que ultrapassaram aqueles pensados quando começamos a brincar por prazer sem outras intenções mais aprofundadas, justamente por termos construído essa brincadeira juntos.

No caixa, trocamos os papéis por um notebook de verdade, no qual podíamos escrever nossos nomes e anotar nosso consumo. Usamos uma calculadora para registrar os números e acrescentamos dinheirinho para pensar nos valores cobrados e em quanto pagamos.

Aprendizagem significativa

Recebemos visitas de crianças de outras salas que vinham para conhecer nosso restaurante, para brincar nele e também para serem servidos de nossas experiências gastronômicas como: bolinho de carne assada feito em parceria com a mãe do Vitor (cozinheira profissional), nosso bolo cremoso de fubá feito para a festa junina, uma receita de Waffle feita em parceria com a professora de inglês e tantas outras possibilidades que se apresentavam para o grupo em contextos especiais ou até como contornos do cotidiano (como a roda diária de frutas, por exemplo).

Com o passar do tempo, os pais perceberam que em saídas da família para restaurantes as crianças passaram a observar e fazer perguntas, a notar diferentes tipos de estabelecimentos e trouxeram essa observação para a sala. Nosso espaço, que antes servia uma comida natural e contemporânea brasileira, passou a ter um canto reservado para comida japonesa. Depois de conversas e pesquisas, a turma fez – com massa para artesanato – uma variedade de sushis e sashimis servidos em pratos típicos japoneses, numa mesa mais baixa, como nos restaurantes mais tradicionais. Os novos elementos passaram a fazer parte do cardápio e da concorrida reserva do restaurante.

Entre dias de brincadeira, pesquisa e experiências práticas, nas supervisões com a coordenação, mostrei-me insegura com a longevidade da brincadeira, afinal… Como um grupo pode brincar de restaurante (ou outro cenário) o ano todo e ainda aprender tudo o que tem de aprender?

Paramos para olhar e analisar nosso percurso algumas vezes ao longo do semestre e fizemos o exercício de analisar o quadro de “Objetivos de Aprendizagem” estabelecidos para o grupo 4. Listamos os cenários que tinham sido organizados e vivenciados pelo grupo e pudemos identificar as aprendizagens previstas que tinham sido degustadas e aprofundadas em cada cenário. Algumas aprendizagens foram construídas em mais de uma situação, tanto nos cenários quanto na rotina cotidiana da escola, e a experiência nos mostra o quanto a brincadeira promove aprendizagens!