ALTA ANSIEDADE – Velocidade imediata, local: fora de mim

ALTA ANSIEDADE – Velocidade imediata, local: fora de mim

17 Abril 2017 | 14h58

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VELOCIDADE IMEDIATA, LOCAL: FORA DE MIM

Por Renato Rocha Mendes

Ilustrações Fido Nesti

A tecnologia e a internet modificam velozmente a realidade. Essa transformação está no centro de uma parte relevante da produção cultural e científica dos nossos dias. Uma pergunta surge sob a perspectiva da psique humana: quais são os impactos dessa mudança no comportamento dos indivíduos que habitam as grandes cidades? A ansiedade surge como uma reação comportamental de características adaptativas a essa realidade em profunda transformação. Por volta de um terço da população adulta relata sofrer de ansiedade e aproximadamente um quinto sofre com problemas de transtornos de ansiedade.

O conceito de “modernidade líquida”, pensado por Zygmunt Bauman (1925-2017), emoldura um tipo de “realidade ansiosa”. É comum pessoas confundirem a ansiedade com transtornos de ansiedade sérios como as fobias, a síndrome do pânico, o transtorno de ansiedade generalizada, o transtorno obsessivo-compulsivo ou o transtorno de estresse pós-traumático.

A ansiedade pode ser reconhecida como uma emoção básica, ao lado da felicidade, tristeza ou raiva, e geralmente é desenvolvida nos seis primeiros meses de vida, segundo Daniel Freeman, psicólogo inglês e professor de psicologia clínica da Universidade de Oxford, em seu livro Ansiedade. Também pode ser estudada como parte de um mecanismo biológico ligado à sobrevivência da espécie. Ela pode ser mobilizadora, no sentido de fazer com que um indivíduo se mova em direção a algum objetivo concreto, como resolver um problema de ordem prática, ou em direção a algo subjetivo, como a mudança de um hábito. A ansiedade em grau elevado pode paralisar e assumir a forma de patologias, os transtornos de ansiedade. Enquanto objeto da psique humana, é complexa e multifacetada, suscetível a influências internas e externas.

Em entrevista em seu consultório em São Paulo, Pedro de Santi, psicanalista e professor de teoria psicanalítica na PUC-SP, especialista em estudos sobre o consumo, define a ansiedade como uma “inquietude”. “Somos seres vivos, vitalizados, e essa própria vitalidade gera uma inquietude. Uma palavra para descrever isso em inglês é uneasiness [quem usa isso é o filósofo Thomas Hobbes, 1588-1679], que quer dizer ‘eu nunca estou de boa’. O humano é ‘desassossegado’, nossa própria vitalidade, nossa própria pulsionalidade, lança a gente na urgência de encontrar objetos, coisas através das quais possamos veicular nossa energia. Então tem uma ansiedade de fundo que é do humano. Outra coisa é nosso ambiente, que superestimula, que nos superdemanda e aumenta essa ansiedade. Mas mesmo que o ambiente estivesse calmo eu não seria um monge zen, eu teria uma inquietude intrínseca, que não é do mal. Se consigo transformar essa ansiedade em projeto, em meta, isso é o que move minha vida.”

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O psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do Grupo de Dependência Tecnológica do Programa de Transtornos do Impulso na Faculdade de Medicina da USP, afirma que a ansiedade pode indicar que existe algo além de um desconforto. “De uma maneira geral, a percebemos como uma sensação difusa, sem contorno, de desconforto pessoal, de angústia. À medida que os sintomas de angústia ficam mais claros, identificamos o medo, a raiva, a tristeza. É como se a ansiedade aparecesse como uma pressão no peito, ou então no estômago, em que o indivíduo só sente que tem de seguir adiante, ele tem de fazer tudo cada vez mais rápido. No fundo, o que as pessoas chamam de ansiedade nada mais é do que a esquiva de sensações emocionais não compreensíveis, o que faz com que o indivíduo não preste atenção naquilo que sente.”

Daniel Freeman esclarece em seu livro que a palavra ansiedade tem sua raiz no grego angh e pode significar “apertar forte”, “estrangular”, “estar oprimido pelo sofrimento”, assim como “carga”, “fardo” e “problema”. Segundo o inglês, foi a partir da publicação de um artigo considerado inovador para a época, Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica intitulada ‘neurose de angústia’, de 1895, de autoria de Sigmund Freud (1856-1939), que a palavra ansiedade teve uma ascensão meteórica. Nele, Freud “isola” a ansiedade de outras formas de doenças nervosas.

FOMO E AS REDES SOCIAIS

A dependência de internet já é considerada um dos mais novos transtornos psiquiátricos deste século. Segundo Nabuco de Abreu, coautor com a doutora Kimberly Young (psicóloga precursora dos estudos sobre dependência desse tipo de ambiente) de uma obra técnica pioneira, Dependência de internet – Manual e guia de avaliação e tratamento, no mínimo 10% da população mundial sofre com esse transtorno. Foi em 1991 que o termo dependência por computador foi descrito pela primeira vez, quando indivíduos relataram ter limitada satisfação no contato com pessoas, colocando suas interações com os computadores mais atrativas. Muitas vezes, a internet pode ser uma forma para evitar problemas reais. Comumente o uso compulsivo da web tem origem em outros problemas emocionais ou situacionais.

Fomo, acrônimo para Fear of Missing Out, explica a angústia que as pessoas sentem por não conseguirem acompanhar o que está acontecendo nas redes sociais quando estão desconectadas. Nabuco de Abreu esclarece: “Isso faz com que muitas delas se conectem de forma excessiva, chequem as redes sociais de forma repetitiva, quase patológica. Nesse momento, a gente tem o mecanismo dopaminérgico: a dopamina está relacionada com a sensação de recompensa, de euforia, então quando você faz alguma coisa muito legal, que te dá prazer, você tem a dopamina sendo liberada. É aí que existe uma ansiedade subjacente, é necessário saber o que está acontecendo nas redes sociais, é o momento em que a pessoa se conecta e percebe que recebeu 50 likes, e isso alivia”.

De acordo com o psicólogo, “nosso cérebro tem a liberação da dopamina no momento em que existe a sensação de prazer, só que é muita dopamina, e algumas terminações são desligadas porque o cérebro entende que existe algum desequilíbrio. É como se na próxima situação a pessoa precisasse de mais carga para ter o mesmo prazer, então fica uma escalada quase inglória. Se você me pergunta por que uma pessoa tem ansiedade, não vou conseguir responder, mas existem vários sistemas que se entrecruzam criando essa dependência total das redes sociais”.

Distorções na percepção dos indivíduos são observadas quando é necessário que ele deixe sua personalidade digital e reingresse nas relações pessoais fora das redes, como relata Nabuco de Abreu: “Entra em cena a personalidade digital. Como o indivíduo não tem essa perspectiva do real, ele é mais afetivo, mais insubordinado, mais sexualizado, mas agressivo, porque os limites nas redes não são dados em tempo real. O que acontece muitas vezes é que certas pessoas ficam tão habituadas a esse estilo de ‘ser virtual’ que, quando vão para a vida real, não têm mais habilidade em se relacionar”.

VELOZ

Os reflexos de uma realidade invadida pela tecnologia e de um campo comunicacional cada vez mais acelerado e hiperconectado geram um tipo de comportamento imediatista, que cobra resultados cada vez mais rápidos, condicionando uma parte da população conectada. Esse comportamento marca as pessoas, os jovens da geração digital, nascidos entre 1990 e 2000, em particular.

A “urgência” é algo inato no ser humano, como explica o psicanalista Pedro de Santi: “Todo mundo quer tudo ao mesmo tempo agora, a gente nasce assim. O trabalho do amadurecimento é justamente perceber que, para ter, tem de esperar, tem de amadurecer, nunca vai ser do jeito que você quer. Todo o processo da criança entrar no mundo é aprender exatamente isso, a se frustrar e aprender que tem de esperar”. Para o especialista, a “tecnologia oferece muita coisa imediata. Tem o prazer imediato, tem a série, tem a droga, tem o jogo, tem a música, a gente está acostumado a ter tudo muito rápido, e isso também entra no mercado de saúde: ‘Eu não quero fazer análise por três anos, quero um remédio para agora’. A criança quer tudo. O que está dificultado? Tornar-se adulto. O mundo oferece muitas coisas rápidas, a gente não aprende que para quase tudo de importante é preciso tempo, um tempo de amadurecimento, tempo de cultivo. Então a tecnologia tem um papel de cultivar o infantilismo”.

Nabuco de Abreu alerta para o fato de os indivíduos e os jovens da geração digital rejeitarem a construção de valores porque isso demanda tempo. “Os antropólogos diziam que lá no passado você tinha de ser alguma coisa; depois você precisava ter; hoje, em função desse mecanismo biológico, você não precisa ser, nem ter, você precisa aparentar. Por isso, as pessoas fazem o possível e o impossível para passar ideias de coisas maravilhosas. É uma maneira que o cérebro encontra de tentar, no meio dessa multidão, achar ou ganhar o mínimo de atenção. Aí as pessoas perdem o contato com elas mesmas. Elas estão voltadas para fora. Então, quanto mais eu receber curtidas nas redes sociais, mais valor social passo a ter. É difícil você pegar pessoas que dizem que não entram nas redes sociais, ‘isso é suicídio’. Saber quem você é, para onde você vai, está em baixa.”

Como interagimos em uma realidade em que dependemos cada vez mais da tecnologia – tenha em consideração a internet das coisas –, não é simples diferenciar necessidade de dependência. Por uma vida menos angustiada, os indivíduos das grandes cidades tentam manter a ansiedade sob controle. Mas, em tempos de existência virtual e redes sociais, em contextos por vezes caóticos e marcados pela hipercomunicação e hiperconexão, essa tarefa se torna cada vez mais complexa.

Matéria publicada originalmente na edição de abril da Revista da Cultura:

http://www.livrariacultura.com.br/revistadacultura/reportagens/alta-ansiedade