Ser uma escola contra o racismo basta?

Ser uma escola contra o racismo basta?

Escola da Vila

01 de julho de 2020 | 09h56

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

 

“Uma educação que não questiona o racismo vai reproduzir o racismo estrutural”

Silvio Almeida

Em nossos 40 anos de escola pautamos nossas escolhas na consolidação de um projeto educacional voltado para a formação cidadã ampla, crítica e defensora da diversidade e da igualdade entre os seres humanos como princípio fundamental para o exercício pleno da cidadania e construção de uma jornada de vida comprometida em fazer um mundo melhor para a coletividade.

Vivemos em momento histórico, no qual está em pauta como vamos sustentar a construção desse grande coletivo que chamamos de humanidade diante do que estamos vivendo, o que faz com que tenhamos que repensar os rumos e as escolhas de nosso pacto civilizatório.

As escolas, como instituições responsáveis pela educação das novas gerações e espaços de intenso convívio para crianças e jovens, devem se posicionar sobre como seus projetos se responsabilizam pela experiência cotidiana que desenvolva sensibilidade social e a defesa inequívoca da diminuição de desigualdades.

Sem dúvida alguma, a questão da luta contra o racismo se coloca como central para que possamos viver em um mundo mais justo para cada um e para todos. É isso que está em jogo, e, enquanto houver tamanha desigualdade, não estaremos bem.

Como disse a psicanalista Ilana Katz, em recente conversa com famílias da Vila: “Como sociedade, não dá pra discutir, vivemos muito, muito mal e muito precariamente. Vivemos mundos curtos e violentos, vivemos sob uma cruel divisão de classes, sob racismo, capacitismo, machismo. Vivemos de maneiras tão excludentes que precisamos criar processos que chamamos de inclusão que se referem a possibilidade de humanos viverem em alteridade”.

A luta antirracista deve compor o projeto curricular das escolas. Para além de discussões aqui e acolá, descoladas de um propósito formativo, deve comparecer em múltiplas frentes, processos e cotidianos – é no que acreditamos.

É preciso que confrontemos os parâmetros que estruturam a sociedade contemporânea e que possamos formar estudantes que, por meio de conhecimento histórico e cultural, possam questionar o que gera o racismo e como ele surge e se sustenta em nossa sociedade.

Na Vila, consideramos urgente enfrentar o que nos coloca o momento: não basta às escolas serem contra o racismo, o desafio é mais amplo e bastante mais profundo. Citando a filósofa e professora Angela Davis, “numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.

Temos muito a fazer. A começar por nos perguntar sobre o que significa transpor uma firme posição contra o racismo à prática educacional e curricular na escola, ou uma nova pergunta: o que é ser uma escola antirracista?

É assumir a responsabilidade de questionar constantemente suas práticas.

É incluir a temática antirracista na organização curricular em todos os segmentos.

É gerar adesão aos temas que destaquem o papel do negro na formação da cultura e na comunidade científica, em estudos, produções e debates.

É garantir políticas afirmativas para que a diversidade esteja presente na escola.

É ter negras e negros em diferentes postos na organização escolar: funcionários, professores e gestores, com uma política institucional definida para ampliar representatividade.

É ter intencionalidade na escuta do gesto, do não dito, do olhar que realmente observa as crianças e jovens na construção de sua subjetividade, em especial às crianças negras que nos fazem enxergar muitos dos processos de racialização.

É ter atenção ao convívio e ações individuais que deem voz aos alunos e alunas na defesa dos direitos humanos.

Nesse contexto, temos orgulho de ter há dois anos o Projeto Ampliar, nossa política de ampliação da diversidade na escola, para que mais estudantes negros ou negras oriundos de famílias de baixa renda estudem na Vila com subsídio de apoiadores e da própria escola.

Sabemos que embora o Ampliar seja uma ação importante, ela ainda é modesta e insuficiente. Este tema está em nossas preocupações, com atenção e intuito de fazê-lo crescer nos próximos anos.

Iniciativas em nosso Ensino Médio, como o Coletivo Preto, fundado em 2017 por alunas e alunos, ainda que encontre flutuações esperadas em organizações estudantis, tem o apoio incondicional da escola. Para fortalecê-lo, teremos a SAD[1] Preta, ao mesmo tempo um manifesto da juventude da Vila e oportunidade para reacender a organização de nossos alunos e alunas afrodescendentes, com o engajamento do coletivo, sobretudo pela relevância do papel de todos e todas na luta antirracista.

E no que diz respeito à formação de professores, trouxemos o professor Silvio Almeida em dois momentos nos últimos anos, por meio do Centro de Formação da Vila, com o intuito de mobilização e conscientização de nossa equipe interna dada a centralidade do tema para nossa instituição. Precisamos promover mais formações como essa para ampliar nossa reflexão e avançar com ações propositivas em nosso projeto.

Entendemos que cada escola e todas as escolas têm a responsabilidade ética de agir para banir todas as formas de discriminação em seu ambiente e nos entornos educativos dos quais fazem parte.

Enfim, defendemos que à escola compete ser antirracista, esse é o seu compromisso inegociável para com a construção de uma sociedade mais ética e efetivamente de direitos comuns.


[1] SAD – Semana de Atividades Diversificadas é uma organização de atividades integradas em torno de uma temática, com ações com estudantes, professoras e professores, convidadas e convidados.

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