Os espaços afetivos construídos no período de adaptação e acolhimento

Os espaços afetivos construídos no período de adaptação e acolhimento

Escola da Vila

16 de fevereiro de 2022 | 12h13

Por Andréa Polo, coordenação da Educação Infantil da Escola da vila

Vivemos intensamente as primeiras semanas na Vila das Infâncias, dias das grandes novidades, dos choros mais intensos e das despedidas mais comemoradas. Com observação para as singularidades, precisamos nos manter atentos e muito cuidadosos com um processo que, na realidade, não tem uma data específica para terminar. Varia de criança para criança e de família para família.

Por essa razão, penso que vale a pena compartilhar uma experiência vivida anos atrás, justamente neste período de início do ano, mas que, oportunamente, revela muito do desejo atemporal de construção de uma parceria consistente e segura entre escola e família.

No período de adaptação, durante muitas idas e vindas das crianças até seus familiares, acompanhei uma conversa entre pai e filho que mereceu ser registrada por muitos motivos: pela firmeza das palavras do pai levando o filho a confiar no espaço e nas pessoas da escola, pelo carinho exposto em gestos e, principalmente, pela convicção desse pai em relação a cada orientação dada ao filho. A mim, como expectadora, não restavam dúvidas de que havia sido feito um pacto entre eles e que, mesmo que o filho não fosse capaz de cumprir imediatamente os acordos travados ali, entre um choro, um abraço e um beijo, seu pai continuaria firme, acreditando na potência daquela conversa, tão íntima e ao mesmo tempo pública, na medida em que acontecia entre muitos olhares, inclusive o meu! Confesso que meus olhos se encheram de água várias vezes, assim como os do menino de quatro anos, mas o pai estava ali, com seu corpo todo voltado para amparar o filho, ao mesmo tempo em que depositava na professora toda confiança necessária para que seu pequeno também fizesse uma boa transição (da sua mão, tão conhecida e terna, para a da professora, de quem ainda se tem poucas garantias de que, mesmo diante dos imprevistos, tudo pode correr bem).

Jamais conseguiria descrever o que presenciei, porque meu envolvimento emocional era grande demais para retomar palavra por palavra, mas meu registro não tem a intenção de ser literal nos termos empregados pelo pai ou pelo filho, apenas gostaria de marcar minhas observações como educadora, particularmente envolvida na orientação de famílias e professoras, e completamente apaixonada por esses “espaços afetivos” que construímos em nossa Vila quando temos disponibilidade para olhar e ouvir detalhes, sem deixar que a pressa da resolução do conflito nos “atropele”. Em meio a tantas novidades, é mais do que esperado que as crianças tenham dúvidas quanto a esse novo ambiente chamado “escola”, mas os adultos, que também têm suas próprias questões quanto à adaptação de seus “filhotes”, precisam atuar como parceiros das professoras e dos professores! Nenhuma relação se constrói da noite para o dia. Damos um passo de cada vez em direção aos vínculos de confiança e entrega mútua e, para que esses pequenos passos se constituam numa longa caminhada, contamos com a escuta atenta de cada família em relação às orientações dadas pelos diferentes profissionais da escola.

Sabemos o tamanho das expectativas de cada família para que tudo corra bem no processo de adaptação à nova escola, ou simplesmente a uma nova rotina, ainda que seja na mesma escola! Desse modo, posso afirmar, com toda convicção, que, ainda que cada criança precise de tempos e tipos de apoio diferentes, o acolhimento permanece o mesmo, baseado nos requisitos afetivos mais delicados: escuta, confiança, proteção, conhecimento, firmeza e perseverança!

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