Nosso inglês não é nem americano nem britânico, é brasileiro!

Nosso inglês não é nem americano nem britânico, é brasileiro!

Escola da Vila

12 de agosto de 2021 | 09h13

Por Andreia Alves, professora de inglês do Fundamental 2

 

“Qual inglês você ensina: americano ou britânico?” Como professora de língua inglesa há mais de 20 anos, confesso que jamais passei um único ano sem ouvir essa pergunta, seja de estudantes ou de seus responsáveis, no entanto, essas duas opções não representam o inglês que circula na Escola da Vila. Então, que inglês é esse que ensinamos na escola?  Por que defendemos uma educação linguística voltada para a interculturalidade? Qual a importância dessa mudança para nossos alunos e alunas e para a qualidade do ensino que oferecemos na escola? O que quer dizer inglês como língua franca?

Um dicionário irá definir língua franca como uma língua de contato usada intencionalmente por pessoas provindas de diferentes culturas para que consigam comunicar-se umas com as outras. Contudo, pensar o ensino e a aprendizagem do inglês como língua franca vai muito além de compreender essa língua como instrumento para comunicação global.

Há alguns anos, a língua inglesa era ensinada como uma língua estrangeira e frequentemente optava-se  pelo ensino do inglês britânico ou americano, afinal, essas eram as opções de prestígio e credibilidade para qualquer escola ou material didático naquela época. Ao ensinar inglês como língua estrangeira, acreditava-se na importância do desenvolvimento de habilidades que fossem o mais próximo possível dos modelos nativos. Nessa proposta, um ensino de qualidade deveria focar-se na precisão e acuidade linguística para fazer do/da estudante um falante que deveria alcançar um modelo ideal de falante americano ou britânico.

Com o avanço dos tempos e das pesquisas, entendeu-se que enxergar falantes nativos como modelos a serem alcançados não era um caminho fecundo para o ensino e a aprendizagem da língua inglesa, além disso, percebeu-se a importância e a potencialidade de acolher e valorizar as diversas maneiras que falantes de diferentes nacionalidades fazem do inglês. Atualmente, a maioria dos falantes de língua inglesa não são nativos, e trazer para a escola essa língua que circula viva entre diferentes povos e espaços, sejam eles físicos ou virtuais, é preparar nossos alunos e alunas para o mundo real.  É inevitável e urgente entender e valorizar o inglês como uma língua de natureza híbrida e intercultural, logo, como uma língua franca!

A relevância e o impacto dessa mudança de abordagem do inglês como língua estrangeira para o inglês como língua franca nas salas de aula são gigantescos. Falar como um nativo será sempre um imaginário inalcançável em sua totalidade para nós brasileiros e constantemente esse aspecto leva aprendizes à vergonha de usar o inglês porque eles e elas não se sentem aptos o suficiente diante dessa língua que parece sempre distante e “incorreta”. Assim, defendemos e inserimos em nossa prática a concepção de inglês como língua franca, valorizando identidades diversas de usuários da língua ao redor do mundo. Atualmente, nossos alunos e alunas têm contato com o inglês falado na Índia, Turquia, Sri Lanka,  Coreia, Nigéria, Polônia, Inglaterra, Austrália e diversos outros países. Nossos cursos valorizam os sotaques e costumes de diferentes povos e priorizam a inteligibilidade nas produções e nas interações em inglês.

Acreditamos na importância de acolher a diferença e reforçar a ideia de que todas as variedades da língua inglesa devem ser aceitas e respeitadas em suas próprias especificidades. Isso implica perceber falantes não nativos como diversos, em vez de deficientes, e valorizar nas produções mais a comunicabilidade do que a precisão e acuidade linguística.

Assim, se queremos que nosso alunos e alunas se comuniquem na língua inglesa, combatendo medos e receios historicamente construídos ao seu redor, optamos na escola por valorizar suas identidades e empoderá-los para usar essa língua que não deve ser mais compreendida como estrangeira, mas, sim, língua de todos nós.

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