Falência só do Ensino Médio?

Falência só do Ensino Médio?

Escola da Vila

10 Setembro 2018 | 14h26

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Por Sonia Barreira, direção geral da Escola da Vila

É falsa a ideia de que os resultados fracos do Ensino Médio se devem apenas aos problemas desta etapa da escolaridade, e isso é evidente para quem atua em instituição escolar. Olhando os números da última avaliação da educação básica (SAEB) divulgados dia 30/8/2018, aparentemente o Fundamental melhorou e o Ensino Médio piorou.

Como é do conhecimento de qualquer educador, os programas escolares estão organizados por série, ou seja, a cada idade corresponde um dado programa curricular. Teoricamente há progressão nessas propostas, garantindo que os alunos tenham acesso a conteúdos mais complexos a cada ano que passa. No entanto, não há propriamente um uso das ciências de base que ajudem a definir o que cada etapa do desenvolvimento cognitivo pode elaborar e aprender.

Então como as escolas definem o que ensinar? Até recentemente, e ainda hoje, os conteúdos são distribuídos de acordo com o que aparecem nos livros didáticos. Mas como as editoras distribuem os conteúdos nos livros didáticos? O fizeram de acordo com a tradição escolar. E de onde vem essa tradição? Não se sabe. Os sistemas de ensino, nascidos mais tarde, também seguiram a lógica definida pelos livros didáticos, com algumas pequenas alterações. É claro que as escolas fizeram seus ajustes, mas são raros. Vale ressaltar que alguns livros didáticos se modernizaram depois dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998), mas não alteraram substancialmente a sequência dos conteúdos pelas séries escolares.

Hoje, há iniciativas conhecidas para sanar esse problema por meio da Base Nacional Comum Curricular. Aparentemente, isso seria um dos maiores empecilhos para se ter uma educação de qualidade no país. Associada a essas mudanças, prometem-se novos programas de formação de professores, novas maneiras de praticar as avaliações nacionais e mudanças nos vestibulares!

No entanto, ainda que tudo isso dê certo e funcione perfeitamente bem (difícil de acreditar) o fato de a Base estar também organizada por expectativas de aprendizagem por série (idade) faz com que um problema central permaneça inalterado.

Na prática, essas definições não estão diretamente vinculadas à capacidade dos alunos aprenderem, isto é, não seguem a “lógica da aprendizagem”. Essas definições foram realizadas tendo por critério a lógica dos conteúdos. Nem sempre essas duas lógicas estão sintonizadas. Há assim uma organização dos conteúdos que nem sempre facilita a aprendizagem, ao contrário, muitas vezes são responsáveis pelo surgimento de obstáculos cognitivos que impedem a compreensão dos aprendizes.

Por outro lado, os alunos, seres humanos singulares e distintos uns dos outros, vêm de experiências pessoais igualmente distintas e chegam à escola com maior ou menor capacidade de aprender certos conteúdos. Não é apenas porque o professor não sabe ensinar que o aluno não aprende, às vezes, lhe falta conhecimentos ou experiências anteriores que facilitariam seu processo.

Mas as escolas estão organizadas para o ensino padronizado. Se na quarta série ensinam-se frações, é nesse momento que o aluno precisa aprender. Se não aprende, o único mecanismo que a instituição escolar tem para lidar com essas defasagens é a reprovação. Refazer um ano e ter novamente contato com as noções que envolvem as frações não torna o aluno apto a aprender, porque ele novamente começa o mesmo processo, sem os conceitos ou experiências anteriores necessários.

Quando o aluno não é reprovado, segue para o ano seguinte para aprender um novo conteúdo, sem que ninguém mais vá dedicar-se a ensinar-lhe frações já que está na hora de aprender novo conteúdo. E, então, ele prossegue na vida escolar, às vezes reprovado, outras vezes não, mas sem saber um conteúdo que envolve conceitos determinantes para que possa compreender os novos conteúdos que vêm pela frente.

Quando chega ao Ensino Médio e vai para a avaliação nacional, fracassa não porque seu professor não sabia ensinar, mas porque o sistema pedagógico no qual está inserido prescreve aprendizagens específicas num dado tempo e momento e não prevê mecanismos eficientes para aqueles que não seguem a par e passo com os demais. Infelizmente não se trata da minoria, e por essa razão, ao avaliarmos nosso Ensino Médio, concluímos rapidamente que o problema está situado apenas nessa etapa.

Evidentemente não negamos que o Ensino Médio tem sérios problemas e necessita mudanças, assim como é preciso valorizar a profissão docente, aumentar os salários e garantir tempo para o trabalho coletivo. Mas, enquanto a instituição escolar não romper com a lógica do tempo igual para todos aprenderem o mesmo e se organizar para o atendimento à diversidade, continuaremos produzindo o fracasso da escola desde as séries iniciais!