Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia.

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia.

Escola da Vila

28 de abril de 2021 | 10h17

Por Susane Lancman, direção do Ensino Médio da Escola da Vila

“Eu já estou acostumado”, acordei pensando na frase dita por um aluno no dia anterior. Ele se referia a já estar acostumado com esta nova vida de isolamento social. Fiquei muda diante da declaração. Por um lado, senti um alívio em saber que ele se acostumou e não sofria, por outro fiquei aflita em saber que ele se acostumou com uma situação tão inóspita.

De súbito me veio a frase da escritora Marina Colasanti: “A gente se acostuma, mas não devia”. Era isso que eu precisava dizer para o nosso caro aluno e para muitos outros que dizem estar acostumados a este “novo normal”. Peço licença à autora para entremear parte do texto dela com inspirações provenientes de declarações de estudantes colhidas neste um ano de pandemia. A cada trecho de Marina é possível sentir um soco no estômago, um beliscão bem dado nos anestesiados, um chacoalhão nos sonolentos, uma pancada nos distraídos, um convite à reflexão. Uma tentativa de nos tirar da inércia.

“A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.”

Acostumei a não ver meus amigos e amigas, a não encontrar com ninguém. E, porque não encontro, logo me acostumei a não abraçar. E, por não abraçar, logo não beijo e não toco. E, por não tocar, não tenho vontade de falar nem de olhar. E, à medida que me acostumei, esqueço o vínculo, esqueço o outro, me esqueço.

“A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.”

Acostumei a olhar meus colegas pela tela em quadrados bem delimitados. A ver fotos fixas, sempre as mesmas. A reconhecer ícones de macaco, cachorro, Shrek ou qualquer outro personagem ou animal e relacionar a cada um de meus colegas. A olhar e não ver, porque todos parecem sempre iguais.

“A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.”

Acostumei a ligar a televisão e ouvir sobre os mortos. E, aceitando os mortos, aceitei que não tem jeito de reduzir a mortalidade. E, aceitando a mortalidade, não sei se acredito no poder da ciência. E, não acreditando na ciência, não acredito no homem nem no valor da vida.

“A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar-condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.”

Acostumei às aulas no Meet. Os microfones fechados e algumas câmaras abertas. A mãozinha falsa levantada e muitas vezes esquecida de abaixar. A voz do professor, alta ou baixa demais. A pergunta repetitiva “está aparecendo o PPT?”. O chat com comentários e às vezes vazio. Me acostumei a não ter risinhos, não ter piadas, não ter interrupções, não ter uma bagunça sequer.

“A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E, se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai deixando de mandar mensagem para um amigo, não lê o que foi enviado, desrespeita um combinado, sente que todos os dias são iguais. Se tem uma lição para fazer, dá um google e se satisfaz com a primeira resposta. Se dá fome, clica em um aplicativo qualquer, de um lugar qualquer e um qualquer traz a comida. Se tem um encontro familiar, escapa para o quarto com a desculpa de muita lição e se isola do isolamento.

“A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.”

A gente se acostuma e não devemos.

Como contribuir para que nossos meninos e meninas sejam resilientes, mas não passivos? O que fazer para que mesmo que cada um esteja isolado em sua casa não se sinta solitário? Como refletir sobre o momento inóspito que estamos vivendo sem nos sentirmos amortecidos? Como sofrer e ter gana de agir, apesar da exaustão?

Não é possível se acostumar. Há muito por fazer. Há muito para mudar no presente. Há muito a sonhar pelo futuro. Há muita necessidade de todas e todos, e de cada um.


Para conhecer o texto na íntegra de Marina Colasanti, entre aqui:

Jornal do Brasil. Revista de Domingo. Rio de Janeiro, 24 setembro de 1972. pág. 10. 

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