Entre margens

Entre margens

Escola da Vila

31 de março de 2021 | 10h41

 

Por Nilson Joaquim da Silva, professor do Ensino Médio da Escola da Vila

 

Entre o cá e o lá, o aqui e o aí, onde agora você está, há sempre a possibilidade — o sonho, o desejo, a esperança — de uma terceira margem… e uma canoa para buscar.

Assim, aparentemente, pensou Guimarães Rosa ao conceber a sua “terceira margem do rio”, síntese dialética entre teses e antíteses, hipotética tentativa de conciliação entre opostos inconciliáveis, ato de fé vislumbrando repensar distâncias, fronteiras, em um mundo que só consegue enxergar-se como de duas margens, um mundo de opostos, de binarismos, de obscurantismo, de falácias, desigualdade e desunião.

Na atual – neblinada – travessia em que estamos inseridos, juntos, unidos, tivemos que interromper – ou desviar – um pouquinho o fluxo das águas, mas isso não significa que a canoa deixou, de meio a meio, de navegar, de buscar…

Não sei se, em algum momento, Rosa sonhou ou anteviu algum tipo de sertaneja navegação virtual, soa estranho pensar num sertão, ou numa canoa, digitais, uma rosiana navegação mediada pela rede social, mas é o que temos para hoje, para o agora. Nada substitui a presença, o contato, o humano, todavia esse início híbrido, entre o presencial e o virtual — o que é real? o que é virtual? —, se propõe como tentativa de tornar um pouco mais leve — um pouco menos pesada — essa assustadora pandêmica travessia que, acreditamos — temos fé — não deverá durar muito.  As águas voltarão a se acalmar em breve, o rio retornará a seu curso habitual… e, se como dizia Riobaldo, “o sertão está dentro da gente”, conseguiremos retomar o prumo, o rumo, a presença e, quem sabe?, de forma melhor, mais amadurecida, mais humana e consciente do que somos, de nosso papel nisso tudo e dos porquês de estarmos aqui.

Entre o cá e o lá, o aqui e o aí, onde agora você está, há sempre a possibilidade — o sonho, o desejo, a esperança — de uma terceira margem… e uma canoa para buscar… Como também disse o Riobaldo rosiano: “Carece de ter coragem…”. E coragem, acredito, é o que não nos falta, não nos pode faltar…

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