Eleições: qual o papel dos educadores e da escola?

Eleições: qual o papel dos educadores e da escola?

Escola da Vila

28 Setembro 2018 | 08h46

.

 

Sonia Barreira, diretora geral da Escola da Vila, coordenou a elaboração deste texto, que foi escrito a muitas mãos por membros da equipe técnica de F2 e EM

 

O assunto “Eleições” invade a escola por todos os lados possíveis: nas aulas, no recreio, na entrada e saída. Os pais comentam entre si, procurando conhecer um pouco mais sobre a família dos amigos de seus filhos; os alunos questionam os professores em busca de pistas sobre seus votos; os professores debatem suas tendências na sala dos professores; todos comentam, analisam, fazem suas predições sobre o futuro!

A escola é parte da sociedade e, como tal, repercute fortemente seus temas, polêmicas, preocupações. Atualmente, com as inevitáveis narrativas construídas nas redes sociais há, além do posicionamento sobre os fatos da realidade, uma análise diária sobre as representações dessa mesma realidade que proliferam no Twitter, Instagram e Facebook. Fake news, pós-verdade, mentiras completas, e tudo o mais misturado com notícias, análises, opiniões, interpretações variadas.

Mas qual o papel da escola contemporânea nesse processo? O que deve fazer para responder, adequadamente, a seu propósito maior: formar os novos membros da sociedade, cidadãos participativos e críticos? Deve conduzir, interferir, mediar ou ignorar a questão política? Em outros termos, política é algo a ser ensinado na escola?

Para o famigerado movimento “Escola sem Partido” – professores que acolhem essa demanda, de preparar os alunos para a vida política, o fazem acima de tudo para fazer proselitismo político ou a famosa “doutrinação”. Para os adeptos dessa proposta, o ideal é a “neutralidade”. Os professores deveriam se ater a fatos e informações, nada mais. Ou, no máximo, expor – sem posicionar-se ou promover debates, as várias visões sobre um dado tema.

Mas as escolas que enfrentam o desafio de formar cidadãos críticos, analíticos, autônomos e implicados sabem que não basta informar. Não restringimos nosso papel social a um repositório de materiais. Não nos vemos como um banco de dados neutro e impessoal. Não entendemos que a missão da escola se restringe a transmitir conteúdos, fatos, informações. É necessário favorecer a capacidade de pensar, discernir e dialogar. Para nós, o professor deve se implicar, ser ele próprio um ator reflexivo, questionador e crítico dos processos que ensina. Em outros termos, não se pode pretender que os alunos tenham autonomia intelectual se o professor não puder igualmente exercer a sua autonomia.

O professor deve ensinar ao aluno que a neutralidade não existe integralmente, pois qualquer recorte de fatos e conceitos é realizado a partir de uma visão de mundo, de interpretações e representações conceituais complexas, as quais, querendo ou não, revelam ideologias, posicionamentos políticos, crenças e convicções pessoais e profissionais.

Poderíamos pensar, por exemplo, em debates que não necessariamente se atenham às ciências humanas, alvos frequentes de críticos do suposto dogmatismo, e olhar para as ciências naturais. O que pode ser melhor para nosso país como matriz energética? A energia nuclear, hidrelétrica ou eólica? E o que podemos pensar sobre a exploração de reservas de petróleo? Devem ser feitas com alguma regulação estatal? A delegação de setores na cadeia extrativa pode ser mais produtiva para a economia do país e para o meio ambiente? São questões que envolvem conhecimento técnico, sem dúvida, mas que são inseparáveis da realidade política e econômica do nosso país. Seria um equívoco pedagógico promover um debate entre os alunos, subsidiados com o devido material teórico para alimentar a discussão? Seria preciso, necessariamente, chegar a um consenso nesse debate?

Outro exemplo interessante da neutralidade impraticável, valeria perguntar, no caso da colonização, deveríamos mostrar os dois lados? Do colonizador e do colonizado? Sem nenhuma validação desta ou daquela visão histórica? E no caso no nazismo? Deveríamos fazer o mesmo?

Se a neutralidade é questionável, como evitar, então, o que hoje tantos temem, a famosa doutrinação? Como minimizar, como querem alguns, a influência da visão de mundo dos educadores, na construção de pontos de vista por parte dos estudantes?

Seria importante lembrarmo-nos – antes de mais nada, de nossa própria adolescência e juventude, possivelmente cercados de posições antagônicas, na família, escola, amigos, como pudemos adquirir a capacidade de pensar por nós mesmos? Qual o papel dos nossos professores, colegas e familiares nesse processo? E aqueles adultos que conhecemos que reproduzem pensamentos alheios, que se agarram a dogmas e verdades incontestáveis, que não alteram sua maneira de pensar nem contra evidências indiscutíveis? Qual teria sido a influência de seus colegas?

A autonomia não pode se instaurar a partir de proibições ou regulamentações estritas sobre a atuação do professor. O pensamento crítico não pode ser construído a partir da imposição de regras de condutas, e um currículo fechado, inflexível, repleto de verdades incontestáveis.

É óbvio que a propaganda política partidária não deve encontrar espaço na sala de aula, mas o posicionamento individual não precisa ser escondido, mesmo porque, em qualquer equipe pedagógica, sempre há diferenças e os alunos podem e devem lidar com a diversidade de pontos de vista. O professor precisa mostrar, a partir de ações concretas, que ele mesmo é um ser social, implicado, reflexivo, que assume posições, faz autocríticas e busca uma sociedade melhor.

É preciso apostar no diálogo, no debate e, acima de tudo, na capacidade dos jovens de duvidar, relacionar, comparar e PENSAR por si mesmos. Portanto, cabe à escola a formação política ampla – aquela que promove o entendimento por parte do aluno, do funcionamento da democracia; aquela que promove a implicação no que se refere a questões que afetam seu país, a população de um modo geral, a cidade onde vive, a escola que frequenta. Uma formação que estimula o posicionamento, e não a alienação. Queremos jovens que se sintam capazes e que entendam que se importar, querer agir, estar implicados são ações políticas! E que disponham de ferramentas para fazê-lo com fundamento e respeito à diversidade de opiniões.

Em nosso projeto pedagógico, essa formação política tem espaço em ações regulares, tais como as práticas de assembleias de classe que visam facilitar uma vivência e reflexão sobre os valores democráticos e a vida coletiva. Nas aulas diárias, nas quais a equipe procura tratar, sempre que possível, a relação dos conteúdos disciplinares com acontecimentos relevantes fora da escola. E no currículo tal como é proposto, que busca constantemente a reflexão, a construção de hipóteses e a intervenção na realidade por parte dos alunos. Há também iniciativas importantes dos próprios alunos que se reúnem e formam coletivos de debate (Coletivo Preto, Coletivo Feminista, Coletivo Cultural, Grêmio), nos quais aprendem a colocar sua voz, expressar ideias e realizar ações coletivas que efetivamente buscam mudanças no núcleo social no qual vivem.

Projetos que contam com a adesão espontânea dos alunos de Fundamental 2 e Ensino Médio também ampliam a capacidade de nossos jovens de conhecerem outras realidades e buscarem, juntos, intervenções propositivas, tais como o Vilativa e o Grupo de Direitos Humanos.

Em épocas de eleição há também eventos ou situações pontuais: a discussão entre candidatos de diferentes partidos; palestras que ajudam a compreender como são feitas as pesquisas de opinião que determinam a tendência dos votos; eventuais simulações de eleições; comparação de manchetes de jornais sobre a mesma notícia; entrevistas com autoridades; leitura e comparação entre as propostas de governo, entre outras ações pedagógicas.

Com tudo isso, pretendemos enfrentar a nossa responsabilidade educativa, nesse tema tão relevante quanto espinhoso!

Por outro lado, há certos valores que precisam ser defendidos por aqueles que escolheram a tarefa de educar: o respeito ao outro, o combate ao preconceito, o apreço à liberdade de opinião, a justiça, a defesa da vida, etc. E essa escolha nos obriga a combater, sem sombra de dúvidas, ideias que se opõem a esses valores. Não há, para um educador comprometido, como manter-se neutro nesse campo!