Dia 21 de março – Dia Mundial da Infância. Qual o significado desta data para a Educação Infantil? 

Dia 21 de março – Dia Mundial da Infância. Qual o significado desta data para a Educação Infantil? 

Escola da Vila

23 de março de 2022 | 12h44

Por Andréa Polo, coordenação da Educação Infantil da Vila e Viviane Rei, orientação da Educação Infantil da Vila.

 

O Dia Mundial da Infância nos faz refletir sobre diferentes representações sobre as “possíveis infâncias” que se constituem a partir das condições de vida das crianças ao redor do mundo. Infâncias, no plural, porque o tempo da infância por si só é plural! Tempo de inventar, perguntar, criar significados, sonhar e desejar, receber cuidados, alimentação e aprender a ser!

A escola de Educação Infantil deve se constituir como uma instituição guardiã dessa etapa tão importante da vida das crianças e através de suas ações ajudar mães e pais a entenderem e participarem intensamente das conquistas e descobertas advindas de um mundo de possibilidades e experiências fora do núcleo familiar.

Aprender a conviver com as diferenças, fazer amigos, entender que o mundo não gira em torno das próprias vontades, apropriar-se de conhecimentos acumulados pela humanidade e lidar com as frustrações presentes no convívio coletivo são fortes frentes para o trabalho realizado por profissionais capacitados, que estudam e refletem sobre as didáticas específicas, assim como as colocam em prática desde a chegada da criança nos diferentes espaços educativos: tanto o berçário da creche quanto a escola de Educação Infantil, que acolhem crianças de zero a seis anos, devem construir sentido para suas aprendizagens a partir de propostas significativas, dentro de processos interativos.

Educar e cuidar são verbos que conjugamos juntos. Na Educação Infantil, não há “valoração” diferente, ou não deveria haver, para uma troca de fraldas ou uma situação de leitura. A intencionalidade construída nas duas situações dá para as crianças a ideia de que podem ser convocadas de diferentes maneiras a interagir entre si e com os adultos responsáveis. A forma como uma troca de fraldas é encaminhada revela muito sobre confiança, intimidade, respeito, comunicação e oferece para a criança possibilidades de interação e condução do processo. Professores da primeira infância compreendem cada momento da rotina como oportunidades intencionalmente educativas. A escola é um micromundo que deve sustentar nas práticas cotidianas e na cultura institucional o direito a uma educação para que todos e todas tenham um caminho aberto à alegria, ao prazer, a celebração, ao bem-estar, à confiança, à proteção, à autoestima, ao ensino, à aprendizagem, ao compartilhamento e à comunicação. Da mesma maneira, a leitura de um livro para bebês coloca em jogo a crença de que mesmo não tendo construído linguagem verbal, desde tão pequeninos, dão conta de se comunicar de diversas formas e atribuir significados absolutamente particulares para essa situação.

Foi pensando numa Educação de relevância para nossas crianças que, em 2017, foi homologado pelo Ministério da Educação a Base Nacional Curricular Comum (BNCC)–, um documento que alicerça os direitos de aprendizagem primordiais que cada estudante brasileiro deve receber. Nele, torna-se visível para todas as instituições educativas, públicas ou privadas, direitos de aprendizagem e capacidades a serem desenvolvidas pelas crianças da Educação Infantil: físicas, cognitivas, ética, estética, afetiva, de relações interpessoais, de inserção social e as especificações de cada uma:

CONVIVER com outras crianças e pessoas adultas, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas.

BRINCAR cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais.

PARTICIPAR ativamente, com pessoas adultas e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador ou educadora quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando.

EXPLORAR movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia.

EXPRESSAR, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens.

CONHECER-SE e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas na instituição escolar e em seu contexto familiar e comunitário.[1]

Para que esses direitos se tornem efetivamente parte do trabalho da Educação Infantil, é preciso formar educadores que entendam que as crianças têm modos próprios de pensar, de se relacionar umas com as outras e validá-los, dando-lhes a autoria de pensamento necessária para construírem confiança e autonomia em seus percursos, que tornem visíveis suas investigações e conhecimentos construídos. É importante que esses educadores e essas educadoras, longe de modismos, estejam dispostos a olhar para as crianças de maneira plural, como sujeitos potentes, ricos em possibilidades e produtoras de cultura.

Em nossa sociedade, há uma ideia equivocada sobre os saberes empíricos das crianças. Adultos devem “ensinar tudo” o tempo todo? Quanto mais observamos seus modos de explicar o mundo, mostrar suas diferentes formas de expressão e linguagem, mais nos aproximamos do que professores comprometidos com a primeira infância devem saber: desde sempre as crianças são pessoas, e não é que virão a ser quando tiverem mais idade.

Estudos indicam que enquanto olhávamos apenas para uma educação vertical – de adulto para criança – perdíamos a oportunidade de promover ações que envolvessem e favorecessem a interação entre pares, ou seja, a professora deixaria de ser o centro e passaria a promover situações de aprendizagem partilhadas, numa rotina que evidenciasse os saberes de cada um.

Por mais conhecimento que o adulto tenha, há coisas que só uma criança vai saber ensinar para outra, e valorizar essas ações faz parte de nosso trabalho na Escola da Vila.

Para que todas as crianças se comprometam com os saberes do grupo, temos estudado e pensado bastante nas relações que o conhecimento partilhado instaura e possibilita: os grupos multietários, ao contrário do que se supõe, não oferecem de forma alguma qualquer risco para a segurança dos menores. Crianças tendem a se interessar muito pelas mais novas quando colocadas em contato frequente, e o contrário também acontece. Observamos que podem desenvolver um senso de cuidado e proteção mútuo. Também nos mostram a possibilidade de realizar algo essencial para a socialização: ensinar aprendizados já adquiridos. Entre diferentes idades e possibilidades, reforçam para si mesmas o que estão ensinando e quem aprende tem a oportunidade de fazer isso com uma figura que não é adulta. Algo de grande relevância também está na importância de aprender a trabalhar em grupo e confiar nos outros.

Grupo é… grupo

A cada encontro: imprevisível

A cada interrupção da rotina algo inusitado.

A cada elemento novo: surpresas.

A cada elemento já parecidamente conhecido: aspectos desconhecidos.

A cada encontro: um novo parto, novo compromisso fazendo história.

A cada conflito: rompimento do estabelecido para a construção da mudança.

A cada emoção: faceta insuspeitável.

A cada encontro: descobrimento de terras não desbravadas.

Grupo é grupo!

(FREIRE, Madalena, 2002, p.30)

 

Enquanto tudo isso acontece, as professoras participam, ora como observadoras atentas, ora fazendo perguntas que ajudam as crianças a se posicionarem frente aos problemas que precisam resolver. A educação continua sendo um campo em construção que compartilha, como qualquer outro campo científico, certezas situadas historicamente e validação provisória. A postura de pesquisadores e pesquisadoras com olhar sensível para o conhecimento de cada criança permeia ações para chegarmos até onde planejamos, mas é impossível não dar espaço para o acaso e para a surpresa! Quanto mais conhecemos abordagens didático-científicas e nos aprofundamos em nossos conhecimentos, mais podemos nos encantar pelos saberes das crianças e, com muita segurança, torná-los parte inalienável de nosso currículo.

Como educadores/pesquisadores e educadoras/pesquisadoras das infâncias, nosso papel é oferecer às crianças o direito a uma educação que as faça sentir prazer pela magia que produzem as linguagens, as artes e as ciências, direito à construção de uma cultura que nos brinda com um modo de comunicação baseado na troca mútua, na compreensão, na cumplicidade compartilhada e um contato emocional que resulte fortalecedor. Nosso grande desejo hoje é que todas as instituições de ensino e todos os adultos e as adultas responsáveis pela criação de crianças possam oferecer a elas a possibilidade de observar, apreciar, descobrir, explorar, produzir, criar, construir, imaginar, sonhar, fantasiar e transformar.


[1] Direitos de aprendizagem e desenvolvimento na Educação Infantil – Trecho extraído da BNCC

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