Dentro e fora da Vila

Escola da Vila

09 de junho de 2021 | 15h48

Por Fermín Damirdjian, orientação educacional do Ensino Médio e Susane Lancman, direção do Ensino Médio

Uma característica comum das escolas é que são rodeadas por muros, com muitas paredes que delimitam os espaços das salas de aula. Essas, em grande parte do tempo, estão fechadas, com horários específicos para abrir e encerrar suas atividades. A relação entre os seres dos diferentes submundos das salas de aula é mínima. É possível até que se deseje que não haja qualquer interferência externa que perturbe o ambiente interno. Geralmente, entra na sala de aula um só professor ou professora e um mesmo determinado grupo de estudantes; forasteiros não são bem-vindos, bem como enredo e tramas que dispersem a atenção para outros assuntos que não sejam o alvo da ação educativa. Os muros são a última e fundamental proteção contra as interferências externas.

Pode parecer uma descrição caricata, mas infelizmente não é. O mundo real muitas vezes fica fora da escola, e dentro é o mundo escolarizado onde é possível transformar questões reais de leitura a absurdos escritos desprovidos de sentido, como “vovô viu a uva”; em que as grandes questões relacionadas ao meio ambiente, a construção de identidade e as pandemias não têm espaço, não estão nos livros didáticos, nas apostilas – não são conteúdos escolares, enfim.

No livro Redes ou Paredes (2012), a antropóloga Paula Sibilia aponta para a trajetória histórica da instituição escolar na era moderna. Estruturada de modo a atender aos anseios das nações cuja cultura e presença política eram hegemônicas no século XIX, a sua estrutura uniformizadora e massiva se vê, hoje, diante de transformações urgentes e inevitáveis, tanto em seus recursos didáticos como em seus propósitos. Um dos fatores apontados no livro como propulsores dessa urgência de transformação seria a permeabilidade dos tradicionais muros que demarcam o espaço físico da escola. Sabemos da potência das redes que a tecnologia permite traçar. Ofertas de satisfações variadas e imediatas, essa teia oferece aos estudantes uma ampla gama de estímulos que competem ferozmente com um formato que, muitas vezes, torna-se anacrônico.

Para além do que podem vir a desvirtuar um formato apenas discursivo e uniformizante, as redes e a transposição de paredes podem, no entanto, oferecer construtos que contribuem para a formação de cidadãos propositivos e capazes de estabelecer vínculos sociais pautados pelo respeito mútuo, passando pelo desenvolvimento de competências previstas em necessidades transformadoras apontadas, como bem sabemos, em referências teóricas contemporâneas.

Não temos dúvida da importância de quebrar os muros da escola, historicamente fechados de forma hermética, para fazer entrar o mundo externo com convidados que tragam a realidade, contribuindo para reflexão e para a construção de conhecimento, o que também possibilita que os alunos e as alunas percebam o inverso, a escola está fora dos muros. Além disso, não temos dúvida da importância de quebrar os muros para que os assuntos que mobilizam nossos jovens fora da escola adentrem as salas de aula, afinal os interesses deles nos interessam.

Assim, vale a pena conhecer alguns trabalhos de nossos alunos e alunas do Ensino Médio da Escola da Vila, os quais ilustram estas situações:

Entender o funcionamento do cérebro no que se refere à saúde mental diante dos inúmeros adoecimentos psíquicos é de extrema importância, portanto relacionar o tema com o estudo da química faz sentido, o que é possível perceber no site com os trabalhos dos alunos e das alunas.

site

Discutir questões relacionadas a nossa sociedade de consumo é instigante, o que pode se ver na atividade de compartilhamento do percurso das investigações, as quais fazem parte do Itinerário Formativo.

Refletir sobre a identidade das juventudes sendo um jovem é excitante, o que pode ser percebido no Podpá!, podcast dos alunos e das alunas do Ensino Médio, episódio 13.

podpa

Estudar ética observando as atitudes tomadas pela população em contexto de pandemia também se torna muito estimulante, o que pode ser escutado no episódio 1 do Podpá!

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Pesquisar sobre cinema em relação a diferentes aspectos também é encantador e necessário, afinal nossos jovens são consumidores vorazes da sétima arte, portanto precisam entender mais e melhor sobre o assunto.

Em relação à presença de convidados no Ensino Médio da Vila, as situações são inúmeras: começamos o ano com uma aula de abertura com nosso ex-aluno Jonas Lessa, gestor ambiental e empreendedor socioambiental da empresa Retalhar, uma empresa que aplica a economia circular para promover um mundo mais consciente e colaborativo. Sucesso não é mais sobre ser a melhor empresa do mundo, e sim a melhor empresa para o mundo.

Em março, tivemos a convidada Maria Rita Borba, estudiosa em resoluções de conflito e política ambiental, que abordou os conflitos que estão ocorrendo em dois países do sudeste asiático: Myanmar e Tailândia. Os estudantes puderam ouvir sobre projetos de desenvolvimento nacional e relações internacionais, temas abordados em aulas de geografia a partir da realidade brasileira no século XX.

Na unidade curricular “Comportamento Animal”, a convidada foi Bruna Rezende, bióloga formada na Universidade de São Paulo, atualmente mestranda no Instituto de Psicologia da USP, envolvida com a área da etologia em que estuda a aprendizagem social dos macacos-prego. Já Alexander Turra, oceanógrafo, professor doutor da USP, pai da Vila, aprofundou com os alunos e as alunas a questão do “lixo nos mares”, um dos temas de estudo da unidade curricular “Engenharia de Produto e Materiais”.

Por fim, vale destacar na SAD – Semana de Atividades Diversificadas – a presença de mais de 30 convidados, ex-alunos e ex-alunas, contando seus percursos pós-Vila, além de professores de diferentes universidades fazendo oficinas e palestras sobre diversos temas, mães e pais que contribuem com suas expertises no nosso projeto pedagógico. A todos e a todas, nosso MUITO obrigada.

O Ensino Médio carrega a parte mais densa da tradição propedêutica – aquela que determina que a função primordial de um segmento escolar é apenas a preparação para o seguinte. Estando no fim da escolaridade básica e antecedendo a universidade, os 150 anos da escola moderna pisam forte na cultura intramuros: cultivar os alunos e as alunas para avançar academicamente.

Ao mesmo tempo, nos últimos anos, os exames externos vêm se modificando. Muitos deles, por exemplo, incluem entrevistas pessoais – e não como um adereço a mais no formato convencional, mas como ponto de partida. No entanto, como toda transformação, o antigo e o novo convivem, e o rankeamento e seleção a partir de provas tem seu quinhão ainda forte em nossa cultura. Por isso, a Vila tem o desafio de não ignorar esses que foram os pilares da escola moderna, mas, ao mesmo, porém, vê sua responsabilidade em incorporar os anseios dos estudantes em seu curriculum e também em seu formato. Isso significa flexibilizar os tempos de pesquisa, as formas de avaliação, os conteúdos a serem abordados, a forma das aulas, o uso do espaço físico.

A escola precisa sair para a rua, e o mundo precisa adentrar em seu território.

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