Como alfabetizamos na Escola da Vila?

Escola da Vila

14 de abril de 2021 | 13h20

Por Miruna Kayano, coordenadora pedagógica do F1

Na Vila, vocês usam cartilha? Não.

Na Vila, vocês ensinam o alfabeto? Não.

Na Vila, vocês mostram as sílabas e os fonemas? Também não.

Mas, então, como alfabetizamos na Escola da Vila?

Usando materiais preparados e considerando espaços de decisão dos alunos? Sim.

Trazendo palavras significativas, como os nomes próprios, e com eles analisando elementos importantes como sons conhecidos e letras? Sim.

Repensando a todo momento as intervenções dos professores para que ajudem os alunos a refletir sobre as relações sonoras de nosso sistema de escrita? Também, também sim.

Mesmo após mais de 30 anos da publicação da pesquisa conhecida como “Psicogênese da linguagem escrita” que mudou para muitos a forma de entender a alfabetização, ainda é comum que na Escola da Vila, e em outras tantas instituições que decidiram considerar essa nova perspectiva, seja necessário reafirmar nossa convicção de que sim é possível que os alunos aprendam a escrever convencionalmente sem com isso recorrer ao ensino isolado de letras, sílabas e fonemas. Mas, ao mesmo tempo, destacando a todo momento que não se trata de uma aprendizagem espontânea ou apenas baseada no não corrigir ou deixar escrever livremente.

Na Escola da Vila, alfabetizamos considerando pilares importantes para o trabalho com a alfabetização, como a importância de condições didáticas adequadas ao ensino e aprendizagem, a variedade de situações que fomentam escritas e leituras contextualizadas, e a consideração a todo momento dos processos individuais de cada criança, mas se há um pilar que merece uma consideração central é a valorização das INTERVENÇÕES do professor, pensadas de forma cuidadosa, seja individualmente ao olhar para cada aluno, seja coletivamente, ao discutirmos em equipes séries quais aspectos do trabalho podem ter um avanço a partir das intervenções docentes.

Alfabetizar considerando o que os alunos pensam e sabem sobre o sistema de escrita não é sinônimo de deixá-los como sujeitos solitários diante de seus saberes, como por vezes se divulga erroneamente a respeito da alfabetização “sem cartilha”. Nossa forma de compreender a alfabetização busca que as crianças tenham consciência de seus próprios conhecimentos e façam uso deles a cada momento, mas também que, por meio de intervenções do professor, repensem o que sabem e acessem novos saberes, ou seja, que aprendam mais e melhor.

Um aluno que pensa que para escrever MORANGO é preciso começar com a letra O começa a colocar esse saber em dúvida ao participar de situações de roda nas quais analisa com professora e colegas, por exemplo, como pode diferenciar o nome da sua colega MONIQUE, de seu amigo MARCELO. Outra criança que sempre que precisa ler o nome dos amigos observa somente as partes iniciais das palavras precisa buscar outro recurso quando a professora apresenta CAROLINA e CARLOS, e com isso consegue progressivamente compreender que a leitura envolve observar outras partes das palavras.

As professoras alfabetizadoras da Escola da Vila estão a todo momento observando os processos de escrita e leitura de seus alunos em busca de novas perguntas e novas propostas que permitam que as crianças tragam seus saberes, mas que também comecem a ter de acionar novas relações, e com isso avançar em sua forma de escrever. Essas são as intervenções que constituem o coração do trabalho alfabetizador e que são foco constante de conversa, discussão e reflexão, pois permitem, quando bem planejadas, que nossas crianças avancem, sempre.

Alfabetizar não precisa de cartilha, não precisa de letras isoladas, não requer materiais padronizados a todos, requer conhecimento didático, conhecimento linguístico, conhecimento específico que na Escola da Vila valorizamos, organizamos, sistematizamos e repensamos de forma constante, considerando sempre que a maior meta é que todos os alunos aprendam a escrever, mas não só as palavras ditadas por outro, mas as palavras que desejam verdadeiramente expressar. Saber como escrever, para nós, caminha de forma profunda com saber o que escrever, da forma como se deseja, escolhendo palavras não por simples ou complexas, não por sílabas que conheço e as que desconheço, mas sim por aquilo que desejo comunicar. Essa é a verdadeira alfabetização.


A Vila está de portas abertas para todos e todas que desejem conhecê-la melhor. Venha fazer parte de nossa comunidade escolar!

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