Como a escola pode dialogar com as JUVENTUDES?

Escola da Vila

06 de outubro de 2021 | 11h55

Por Fermín Damirdjian, Orientador Educacional do Ensino Médio da Escola da Vila

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Não é de hoje que a instituição escolar se preocupa em saber qual a melhor forma de acessar os jovens para levar adiante suas propostas pedagógicas. Em forte diálogo com a psicologia, não faltam linhas pedagógicas que se debruçam sobre os processos de aprendizagem que entram em ação quando alguém está aprendendo. O construtivismo, como já é muito bem sabido, é uma delas, talvez a que tenha maior disseminação e histórico. As instituições que tomam como base essa linha precisam inevitavelmente contemplar matizes individuais no ritmo de aprendizagem, os desafios que estariam na medida exata para cada um, e oferecer propostas que façam sentido para os jovens.

Vamos nos deter sobre este último aspecto, talvez o mais central de todos – afinal, se as propostas tiverem sentido, os alunos se envolvem, se engajam e, de fato, aprendem. Um exemplo tosco, mas que pode ajudar a entender: um aluno pode precisar decorar os nomes das capitais da Região Sudeste do Brasil ou pode aprender sobre as diferenças que existem entre o papel econômico e político de cada uma delas. A contextualização pode oferecer mais elementos para dar maior identidade a esses nomes, além de carregar uma articulação de saberes mais completos.

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Tal contextualização pode ainda ter elementos pessoais. Com um pouco mais de liberdade, um aluno que ama o futebol poderia explicar a predominância de equipes de determinadas capitais no cenário esportivo, mediante explicações econômicas, históricas e políticas, dentro de parâmetros exigidos na proposta didática. O produto final desse trabalho poderia ser um seminário com mapas, times, fluxos dos jogadores para essas equipes mais abastadas, movimentação econômica dos campeonatos, frequência de público, etc.

Se, nas propostas escolares, ele encontrar respostas para anseios próprios, cria-se uma relação com o conhecimento e com os estudos que pode ser nada mais e nada menos que saudável. Ou seja: o conhecimento se prestaria a motivações pessoais. Diante de parâmetros procedimentais, tais como rigor no grau de sofisticação do trabalho, formalidade na escrita e na oralidade, organização geral de um texto, estrutura de um ensaio escrito, clareza na comunicação de um recurso audiovisual, o aluno se deparará com uma equação precisa entre o tensionamento inevitável de desenvolver e comunicar uma tese e o envolvimento e a motivação para levá-la adiante como um produto acadêmico.

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Eis que chegamos a um ponto importante: o que nos vem à cabeça com o termo acadêmico? Ou mesmo com a palavra escolar? Rigor, provas, salas de aula, lousa, um professor de pé e alunos todos olhando para ele. Também pensamos em notas, boletins, grade horária. Há algo de muito sólido nessas imagens. E de fato assim a escola moderna se originou e se propagou rapidamente nos últimos dois séculos – talvez bem menos do que isso. Um tempo muito, muito curto para a história da humanidade. E temos isso como um formato consagrado.

De fato, muitas escolas têm todos esses elementos e ao mesmo tempo perseguem propostas que façam sentido aos alunos. Uma coexistência híbrida, podemos dizer. Afinal, porque escolher a nota 6,0 como referência de corte, se para alguns estudantes esse corte poderia ser um 8,0 e para outros um 4,0? Essa própria escala numérica já vem carregada de uma valorização cultural. Todos sabemos disso. Que outra maneira haveria de avaliar? Afinal, pode-se encontrar um jovem muito esforçado e envolvido que tenha uma nota mais baixa do que outro que tirou uma nota alta, sem ter tanta atitude e engajamento. Como lidar com essa uniformidade proposta pelo ensino? Que ajustes são necessários para que a instituição escolar se aproxime dos jovens de hoje?

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Não é fácil sanar essas questões, mas é inevitável que nos perguntemos quem é esse jovem. E, aqui, estamos diante de uma questão capciosa: não existe uma juventude, mas muitas. Podemos até encontrar alguns pontos universais, mas certamente estaremos tentados a simplificar algo difícil de fechar com uma definição – e isso é muito incômodo. A uniformização é sempre mais clara. Ela tornou nossa leitura de mundo mais palatável e previsível. Quando pensamos que “as coisas são assim”, fechamos questão em cima de um fenômeno qualquer. Talvez por isso a humanidade tenha caído em formato tão simplificador de uma instituição que se propõe nada menos do que a formar pessoas. Afinal, um dos interesses iniciais do modelo europeu de ensino, propagado da Indochina à América espanhola, era uniformizar os cidadãos colonizados. Muita coisa ocorreu nos últimos duzentos anos, como bem sabemos: o capitalismo industrial demandou alto conhecimento tecnológico e as escolas também se prestaram a isso, e muitos outros fatores foram surgindo e reconfigurando a população escolar.

Que traços gerais sobre nossos jovens podemos ter hoje? Muitos apontariam o imediatismo como uma característica importante. Acredito eu que esse deve ter sido um fator apontado por todas as gerações nos últimos cem anos, em relação aos jovens com os quais se convive. O andamento da medida e da percepção de tempo está belamente pensada no documentário “Quanto tempo o tempo tem?” (2015, 1h15), da diretora carioca Adriana Dutra.

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Mas precisamos ir para além disso. E para avançar no conhecimento que a escola pode ter sobre suas crianças e jovens é preciso de uma estrutura que permita contemplar diversidades. Não é preciso destruir totalmente o formato convencional, pois muitos estudantes operam muito bem dentro dele. Mas é preciso ir além desse esqueleto conhecido e oferecer outros recursos concretos – novas medidas de tempo, configurações de espaço, alterar os instrumentos avaliativos e os formatos de aula – justamente para dialogar com os jovens e ouvir, mediante atividades escolares, quais os contextos que podem trazer sentido a essa prática escolar. Poderemos entendê-los na medida em que identificarmos em suas próprias produções onde é que eles demonstram esse engajamento.

Fundamental retomar um ponto pelo qual passamos: não há aprendizagem sem um grau de tensão. Não se trata de uma acomodação infinita da escola àquilo que simplesmente se encaixa no paladar de um jovem, mas de buscar a produção escolar engajada e produtiva. Não confundir com “divertida”. Busca-se mais o interessante, do que o divertido. Este é necessário para a vida, mas a escola persegue muito mais as construções que elaboram linguagens e habilidades diversas, oferecendo oportunidade para um profundo crescimento pessoal. Certamente não é com uma estrutura uniforme e rígida que vai se encontrar o diálogo produtivo com as diversas juventudes que temos diante de nós e com as quais temos o dever moral de dar-lhes condições para habitar e construir um mundo melhor do que este que estamos oferecendo.

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