Brincar, cuidar e aprender: o percurso de construção da autonomia.

Brincar, cuidar e aprender: o percurso de construção da autonomia.

Escola da Vila

07 de outubro de 2019 | 08h44

Por Andrea Polo, coordenação da Educação Infantil da Escola da Vila

“Está frio, venha colocar a blusa.”

“Que calor, vamos trocar de roupa.”

“Vou te dar comida na boca para não esfriar.”

“Está na hora de fazer xixi.”

“Caiu? Da próxima vez evite correr.”

Em determinados projetos escolares, as investigações, as dúvidas e as inquietações, tão pulsantes nas crianças pequenas, são respondidas com afirmativas únicas, vindas de adultos preparados para “não deixar que nada aconteça”. Diariamente, uma criança pode ser colocada em inúmeras situações nas quais seus sentidos primordiais sequer precisam ser acionados porque “alguém”, em geral, um adulto, já “entendeu” que precisa se antecipar e “resolver” o problema!

Não estamos falando dos bebês, mas de crianças que já falam ou expressam sensações de frio, calor, fome ou necessidades fisiológicas, mas nem sabem que “podem” sentir! Antes mesmo do calor aparecer, alguém já disse que está quente e já avaliou que todo o grupo deve tirar as blusas!

Se ensinar a pensar é apenas um “projeto” para os mais velhos, quando chegarem ao Ensino Fundamental, a Educação Infantil se tornará esvaziada de significado e tenderá apenas a atender às preocupações dos adultos: deixar os filhos e filhas num espaço onde são supridas as necessidades de cuidado para que possam trabalhar. Só isso não é suficiente para construir um espaço que atenda às necessidades de desenvolvimento da primeira infância.

A Educação Infantil deve cuidar e ensinar a pensar! Simples ações são nosso grande conteúdo de trabalho. Instauramos o problema para que as crianças se sintam instigadas e convocadas realmente a resolvê-los.

Pensar por si é trabalho duro! Não esperamos que nossas crianças de três anos de idade “se tornem” sujeitos que aprendam a fazer perguntas e questionem quando ficarem mais velhas. Ao entrar na escola, no tempo que permanecem conosco, devem ser convidadas diária e intencionalmente a resolver problemas, dos mais diversos, mas que fazem todo sentido nesse momento da vida.

Pensar em como ajudar uma amiga a carregar uma caixa pesada para iniciar uma brincadeira, fazer perguntas sobre o processo de produção de uma receita culinária, guardar os brinquedos que usou e os que não usou garante para as crianças a saída da zona de conforto da casa – lugar de funcionamento mais ou menos estável, com as mesmas pessoas, em geral mais adultos do que iguais, que se colocam à disposição para ajudar, mesmo que essas ajudas se sobreponham às necessidades de aprender por si, errando e tentando muitas vezes.

A escola, com a estabilidade da rotina, desestabiliza no necessário – naquilo que as crianças não podem “controlar”, num ambiente que provoca, tira do lugar intencionalmente.

Se alguém deseja o mesmo brinquedo do colega, deve ponderar, esperar a vez. Tentar consegui-lo é se arriscar e contar com as intervenções de adultos disponíveis para favorecer relações de respeito mútuo até que já tenham construído as “ferramentas” necessárias para balizar suas ações.

Durante toda a Educação Infantil, as crianças são colocadas em situações que as impulsionam a tentar. Não esperamos o “correto”, esperamos o possível e, nesse caso, o possível é compreendido e incentivado por cada educadora que pensa e planeja intervenções variadas não apenas para as sequências e os projetos para ensinar as relações matemáticas, linguísticas ou científicas. Tudo está interligado em forças de trabalho que impactam grandemente nossas escolhas didáticas e metodológicas.

A construção da autonomia revela-se como uma frente de aprendizagem importantíssima: não fazemos “por elas”, fazemos com elas! Esse fazer carregado de curiosas inquietações promove espaços para que algumas respostas e novas dúvidas sejam construídas num processo que credita às crianças autoria de pensamento, em tempos que muitos adultos estão se havendo com as dificuldades de não terem aprendido a pensar por si mesmos.


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