A ocupação social da Vila das Juventudes

A ocupação social da Vila das Juventudes

Escola da Vila

03 de março de 2022 | 11h23

Por Pablo Soares Damaceno, direção da Vila das Juventudes

Você é aquilo que ninguém vê.

Uma coleção de histórias, memórias, dores, delícias, pecados, bondades, tragédias, sucessos, sentimentos e pensamentos.

Se definir é limitar, você é um eterno parênteses em aberto… enquanto sua eternidade durar.

Machado de Assis

Esse texto do grande Machado de Assis talvez tenha o objetivo de descrever uma pessoa, e não necessariamente uma organização. Mas, sinceramente, não vejo diferença nenhuma entre ambos e, por isso, parto da mesma definição para descrever uma Escola ou qualquer outro lugar com todas as suas histórias e particularidades, o que muitos chamam de cultura, algo que vai se moldando ao longo do tempo.

Complexidade e diversas nuances, fatores que estão presentes no nosso dia a dia, e que, nos últimos anos, se fizeram mais evidentes devido a uma pandemia mundial, talvez nunca antes imaginada por esta sociedade moderna. Mas, mesmo assim, o olhar de preparação do ser humano é sempre para um mundo cheio de novidades e com uma leitura de possíveis acontecimentos sempre na espera do improvável. Se prestarmos atenção, é para isso que educamos nossos jovens, buscamos construir um conjunto de habilidades e competências que possibilitem que tenham ferramentas para o novo e, na maioria das vezes, inesperado.

Mas isso é fácil?

Em seu livro, Artistas do invisível: O processo social e o profissional de desenvolvimento, Alan Kaplan, logo no prefácio, traz uma reflexão muito importante para esse momento, ao descrever um pouco o seu trabalho no mundo do social, mundo este que engloba tranquilamente diversos outros, entre eles, o político, o econômico, o tecnológico e o científico. Onde tudo isso interage, permeia e se completa. Ele mencionou dois treinamentos executados por ele para funcionários de uma grande multinacional em diferentes lugares do mundo. E como ele pôde classificar, os resultados desses oscilaram entre “bem-sucedido” e “intratável”. Com isso, ele constatou: “o social não se deixa manipular de uma forma simples”.

Mesmo com objetivos finais comuns, grupos diferentes necessitam de tratos diversos. O social não é uma equação tão exata assim, e isso que é o mais desafiador e apaixonante nesse tipo de relação.

Minha chegada à Escola da Vila está atrelada a um momento de ocupação; ocupação de um novo espaço e a necessidade de criação de uma cultura em relação a esse local.

No momento, a palavra em foco é “Ocupação”, algo que, dentro de uma definição simples, poderia ser “tomar posse” ou “preencher determinado espaço”. Pensando numa expansão do significado, poderia ser “apoderar-se de algo ou lugar”, e indo mais além, buscando referências nas últimas manifestações sociais onde tal palavra se fez presente, também podemos dizer que “ocupar é chamar atenção para situações sociais e urbanas”.

A problemática está lançada, temos um objetivo, que é ocupar, e temos os envolvidos.

Quatro grupos distintos em um mesmo espaço, ou seja, não temos como fugir da influência do social, assim como o fato percebido por Alan Kaplan.

O primeiro grupo oriundo de um mesmo bairro, o Butantã, conhecido pela maioria das pessoas como o bairro da maior universidade da América Latina; o bairro de um dos maiores, senão o maior instituto brasileiro no desenvolvimento de vacinas, que é homônimo do bairro. Alunos e alunas vindos da unidade Morumbi, uma unidade muito peculiar, a única com Ensino Médio até então e, por isso, a sensação de que um início neste local significaria a manutenção ao longo de toda a sua vida escolar. Famílias vindas da Granja Viana, que aceitaram o desafio de também contribuir nesse ato de ocupação, mesmo com diversos desafios logísticos, como, por exemplo, sair mais cedo de casa.

E o quarto grupo, pessoas novas que não têm uma relação cultural com as antigas unidades, mas, assim como todos os outros, acreditam no projeto pedagógico da Vila. Talvez, em um primeiro momento, eu também possa me colocar nesse grupo e nesse contexto, em relação ao grupo, me refiro àqueles que estão chegando. Quando falo contexto, me refiro à diversidade, palavra muito utilizada no momento e também pode ser muito explorada na minha apresentação, mas isso será um assunto futuro…

Por agora, penso num ambiente diverso. E como eu me classifico nesse ambiente?

Químico e Pedagogo. Professor e Rapper.

Nascido e criado na periferia de São Paulo, mais precisamente no bairro do Capão Redondo, mas, desde cedo, aprendi a navegar em diversas outras regiões, muitas delas com uma renda per capita quase cinco vezes à do meu bairro de origem.

Ou seja, me classifico como alguém que flutua pelas exatas e pelas humanidades, pela educação formal e pela contestação das artes, pela periferia e pelo centro urbano.

Nisso tudo, eu acredito que posso contribuir muito para avançarmos juntos neste momento. Onde existem diversas possibilidades dentro de um processo que não tem uma receita única, e sim um mundo a ser explorado.

E isso é a Escola da Vila, uma escola que busca estimular a vontade de aprender e que tem como missão garantir que crianças, jovens e adultos trilhem jornadas de construção de conhecimento plenas de significados. Não existe uma receita direta pela qual deve se enxergar o mundo, cada estudante vai construir a sua.

Segundo Donald Schon, “o âmbito social não está ligado à solução de problemas claros e bem delimitados pela aplicação de teorias e técnicas derivadas do conhecimento científico. Pelo contrário, a tendência é que nos encontremos não com problemas, simplesmente, mas sim com situações confusas e indeterminadas.”

E onde nós, “vilanos”, nos colocamos nisso?

Seguindo a lógica do mundo moderno e da busca pelo protagonismo em nossos alunos e alunas, podemos pensar que: “Você é tanto líder como seguidor”, isso serve para todos aqueles que querem influenciar de alguma maneira a sua realidade, por isso a Vila das Juventudes é um grande laboratório na busca por tudo isso. Todos nós, educadores do local, somos os mediadores na construção de novas percepções e conhecimentos, sendo assim, só posso dizer: muito prazer e seja bem-vindo.

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