A gente aprende a gostar de ler?

A gente aprende a gostar de ler?

Escola da Vila

18 de maio de 2022 | 11h43

Como será que se dá o gosto pela leitura? É possível aprender a gostar de ler? Veja: não aprender a ler, mas aprender a gostar de ler? Vamos começar pensando sobre essa ideia de gostar ou não gostar de ler. Já sabemos que ler é verbo transitivo. Ou seja, a gente gosta de ler algo, a gente não gosta de ler outro algo. Além do algo, tem o como: a gente gosta de ler em determinadas circunstâncias e não em outras. Quando alunos adolescentes nos dizem “eu não gosto de ler”, costumamos devolver o problema: “você não gosta de ler o quê?”, ou ainda, de maneira um pouco provocativa, respondemos: “eu também não: não gosto de ler ficção científica, não gosto de ler quando tenho pouco tempo…”.

Vamos nos ater um pouco mais à questão do prazer. Na ideia de gostar de ler está contida a ideia de ter prazer pela leitura: como seria uma leitura por prazer? Onde encontramos prazer no contato com os livros? Se for apenas nas leituras fáceis, fluidas, descompromissadas, a escola fica de fora? Na escola, lemos por obrigação e fora da escola lemos por prazer? Não acreditamos que seja assim, primeiro porque na escola cabem muitas leituras; mas principalmente porque o prazer se encontra em muitos lugares, inclusive no desafio, no inesperado, no conflituoso.

 

De qualquer forma – feitos os preâmbulos – acreditamos que sim, a gente aprende a gostar de ler. E se a gente aprende, faz parte do papel da escola ensinar. Talvez a melhor palavra não seja ensinar – afinal, não nos parece muito razoável a pretensão de ensinar o gosto a alguém. A palavra melhor talvez seja favorecer. Como a escola pode favorecer a apreciação pela leitura e pela literatura? Para começar a responder essa questão, é necessário assumir que o foco das aulas de Língua Portuguesa e Literatura no ensino básico não é propriamente a literatura em si, mas a formação do leitor: queremos formar leitores de literatura, pessoas capazes de selecionar obras, comentá-las, apreciar a arte de escritores, emocionar-se, estabelecer relações entre livros e entre a vida e os livros…

A escola pode favorecer isso de diversas formas. Na Vila, desde muito pequenas as crianças participam de rodas de biblioteca e discussões literárias. Selecionam obras, refletem sobre suas escolhas, as recomendam para colegas, leem sozinhos e leem acompanhados. Quando lemos juntos, compartilhamos experiências, interpretações, afetos; apreciamos e compreendemos coletivamente as construções formais, nos envolvemos com personagens e nos encantamos com a linguagem bem trabalhada em um parágrafo. Ensinamos a gostar de ler, por exemplo, quando em uma discussão literária uma turma de 6º ano percebe que o início do conto “A mão do macaco” parece um roteiro de filme, com saltos no tempo e cortes de câmera. Ou quando em uma turma de 7º ano, nos emocionamos juntos com o destino trágico de Nemecsek em Os meninos da rua Paulo. Ou ainda quando um grupo do 9º ano finalmente se dá conta de que a queda de Édipo acontece em um único dia na peça de Sófocles. Falamos sobre livros, lemos boas obras, aprofundamos interpretações. Tudo isso ensina a gostar de ler.

Na adolescência essa relação com os livros pode ficar estremecida: o mundo externo é muito interessante e as novidades trazidas pela crescente liberdade podem fazer os livros ficarem um pouco de lado. Faz parte, apesar de não ser regra. E a escola faz o quê, para além de insistir, dar oportunidades, e – por que não? – obrigar a ler? Nessa etapa da vida, as relações entre os pares é fundamental. É preciso, então, promover encontros entre os estudantes, protagonizados por eles, de forma que possam ser estabelecidas redes e pontes e que as identidades, inclusive como leitores, possam ser constituídas. Além disso, é preciso que a escola autorize o não gostar, sem moralismos. Os leitores podem, em muitas ocasiões, abandonar livros que não agradam, refletir sobre isso, mudar as escolhas e ajustar seus percursos.

Na Vila, a literatura está presente em muitos momentos, em diferentes instâncias: as rodas de biblioteca, o Vilalê – clube de leitura do Fundamental 2 e do Ensino Médio -, os clubes de leitura formados no Engajavila a partir de temas definidos pelos próprios estudantes, o Festival de Poesia, a Vila Literária, as discussões literárias cotidianas em sala de aula… São todas iniciativas que visam à formação de uma comunidade de leitores na escola e, se tudo der certo, ajudam cada um dos estudantes a enxergar ler como verbo transitivo e a se conhecer como leitores, fazendo suas escolhas, ajustando seu percurso e percebendo, afinal, o que gostam de ler, o que não gostam, em que circunstâncias preferem cada leitura.

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