A Educação Infantil e a formação de mentes curiosas

A Educação Infantil e a formação de mentes curiosas

Escola da Vila

14 de agosto de 2020 | 14h17

 

Por Andrea Polo, coordenadora da  Educação Infantil

Sempre gostei de observar os processos de construção de repertório durante a brincadeira das crianças: como tomam decisões, argumentam entre si com paixão pelas próprias ideias… Definem as diferentes formas que encontram para sustentar o grande castelo de blocos que decidiram construir… Quantas tentativas são capazes de manter até desistirem de seus projetos? Mudarem de assunto?

Enquanto brincam, suas mentes não separam esses desafios entre questões conceituais, motoras e emocionais, todos são vivenciados ao mesmo tempo. O que vemos são as diferentes e curiosas ferramentas que cada um possui para ajustar suas demandas individuais ao enredo coletivo.

Ferramentas que, com o passar do tempo, podem ser cada vez mais usadas, ou ficarem guardadas no fundo de uma caixa até não servirem mais para nada! Só o tempo dirá.

Em casa ou na escola, basta ter uma criança ou um grupo brincando para que eu me aproxime e comece a observar e acrescentar àquele momento algumas perguntas ou ações para provocá-las intencionalmente.

Quando minha filha era pequena, ela questionava:

  • Por que vocês me perguntam tanto?

Na época, com 4 anos, ávida para conhecer o funcionamento das coisas e os porquês de tudo, ela também perguntava muito, mas em geral eu devolvia seus questionamentos com outra pergunta porque me interessava em “provocar” seus pensamentos e perceber até onde poderia chegar a partir de suas próprias hipóteses.

Uma brincadeira nos acompanhou durante muitos anos, e acredito que tenha ficado cada vez mais desafiadora porque os adultos da casa proporcionaram condições para que se sentisse suficientemente capaz para investigar e resolver problemas.

Quando ela retirava as roupas de suas bonecas para trocar a calça pela saia, a fralda pelo vestido, se deparava com algumas impossibilidades: tamanhos e formas diferentes, rigidez das peças que tentava encaixar, e obviamente procurava um adulto para fazer mais força que ela e assim vesti-las com novos modelitos. Nem sempre os resultados agradavam, e assim passamos a discutir as maneiras que tinha para obter outras roupas para trocar suas bonecas:

  • Tenho que ter panos! Não posso deixar minhas bonecas sem roupa, mas eu não gosto de vesti-las com a roupa das outras. Algumas ficam apertadas, outras ficam largas, e isso não está bom!

Ofereci alguns retalhos disponíveis em casa e perguntei como faria para tornar aqueles panos roupas para suas bonecas?

  • Agora eu preciso de tesoura e cola!  Foi o que ela me respondeu!

Providenciei uma tesoura sem ponta e um tubo de cola, sem a menor preocupação de ensiná-la a costurar, até porque esse não é o meu forte! Queria mesmo acompanhar seu processo criativo, seus problemas e daí pra frente aproveitar para fazer mais perguntas e ajudá-la a perceber o quanto poderia ser apaixonante ter projetos de criação de roupas para suas bonecas, se assim desejasse.

Dia após dia, durante muito tempo, observei orgulhosa o tamanho da dedicação e de seu prazer ao brincar de costurar, fazer roupas de inverno, verão, esportes… Todo o tipo de necessidade vivida nos enredos de suas brincadeiras era resolvido com a seguinte frase:

  • Espera aí que eu vou fazer a roupa para esta aventura!

Em poucos minutos, voltava com alguns tecidos amarrados pelo corpo da boneca comemorando:

  • Agora já podemos continuar! E a brincadeira ganhava ares de comemoração!

Nunca deixamos faltar retalhos, barbantes, fitas adesivas e, depois, com a conquista de mais habilidade, agulhas sem ponta, linhas e tesouras mais afiadas.

Às vezes, estávamos na cozinha, preparando a comida, lá vinha ela bravíssima porque não conseguia fazer a manga do casaco de frio!

  • O que eu faço aqui? Esta manga não ficou igual à outra.
  • Vou te mostrar uma ferramenta incrível que faz a gente ajustar melhor o tamanho das coisas!

Ofereci minha fita métrica como presente para as novas possibilidades de ajuste, quando ouvi:

  • Que legal! Essa é uma régua mole?

Por muito tempo a fita métrica foi chamada de régua mole aqui em casa!

Hoje, com vinte anos, talvez minha filha não se lembre da quantidade de perguntas que me fez sobre costuras, talvez ela nem imagine o tempo que passou construindo projetos com tecidos, papelões, latas e tudo o que a instigava a pesquisar diferentes possibilidades para brincar!

Posso afirmar que muitas de suas experiências deram errado, deixando-a bastante frustrada porque nem sempre possuía mais do tecido que havia cortado “errado” e que não serviria pra mais nada! Ela encontrava meios de tornar aqueles pedacinhos de pano reutilizáveis para adereços que fariam a composição de pequenas partes de uma nova peça e afirmava:

  • Esse não deu certo, era pra ser uma camiseta, agora virou uma flor, porque só dá pra ser flor!

Por vezes, esses comentários vinham acompanhados de choro e um incômodo enorme por não ter conseguido fazer o que estava imaginando, afinal o campo das ideias caminha a passos diferentes das reais possibilidades daquilo que mãozinhas de crianças de 4 anos conseguem executar, mas seu prazer em trabalhar naqueles projetos era maior do que a tristeza de ter perdido um pedaço de seus tão amados tecidos!

Nosso papel, de quem acompanhava o processo, era de acolher as dúvidas e ajudá-la a ajustar suas expectativas sem desistir. Eu poderia substituir o exemplo da relação que minha filha construiu com os retalhos, botões e linhas por papelões, água, terra, culinária, dinossauros, plantas, tintas, porque, na verdade, estou falando de experiências significativas e não dos objetos em si!

Então, pensando no que podemos oferecer na escola e considerando as diferentes experiências vividas por cada família, pergunto:

  • O que valeria a pena que nossas crianças aprendessem na Educação Infantil para construírem posturas cada vez mais curiosas diante da vida?

Quando chegam à escola, este pode ser o primeiro lugar de convívio social com pessoas diferentes daquelas da casa (irmãos, avós, familiares em geral). Na escola começam a entender realmente o que significa esperar a vez para conseguir um espaço para usar o escorregador, dividir os baldinhos de areia e a atenção da professora e dos colegas. Dentro da escola, um microcosmo social, com todos os seus percalços, se apresenta para seu pequeno bebê! A diferença é que os desafios e apoios são acompanhados por pessoas qualificadas para continuar desafiando, perguntando, provocando e apoiando as buscas coletivas e individuais por resolver problemas.

Nas diferentes propostas cotidianas para brincar, dialogar com as várias linguagens expressivas entendemos que, além do conteúdo em si, as crianças devem aprender a aprender e assim a pensar, compreender e conviver com os outros.

A construção de mentes curiosas não se dá apenas numa etapa da escolaridade, mas é na Educação Infantil, pelas características da faixa etária que observamos e fomentamos grandes descobertas.

Na escola ou em casa, as crianças precisam ser ouvidas por adultos comprometidos e interessados em suas ricas teorias sobre o funcionamento das “coisas”.

Antes de responder, devolvemos outras perguntas. Fazemos sugestões a partir da observação de uma brincadeira: “E se a gente construísse uma ponte para estes carrinhos?

Pensamos juntos nos materiais que vamos usar, ainda que saibamos todas as respostas! Não entregamos todos os materiais para construir a ponte, esperamos que a criança tente, enfrente problemas e possa resolvê-los.

Diante das desistências, incentivamos a continuidade, nos colocamos à disposição para ajudar, oferecemos novas condições para continuarem seus projetos.

Observamos o que apaixona as crianças, mostramos interesse verdadeiro por essa paixão, pesquisamos juntos, nos permitimos enquanto adultos nos encantar pela dúvida que ocupa seus pensamentos. Com elas, arriscamos possibilidades, muito mais do que soluções. Podemos investigar por muito tempo um assunto, sem ter uma solução.

Até porque, muitas vezes, o processo é mais curioso do que o resultado final!

Para quem ficou curioso para conhecer o percurso de investigações e criações da minha filha, num tempo que não costumávamos tirar tantas fotos, até que consegui registrar um pouquinho:

(sandálias de fitas coloridas) 4 anos/2004

coleção de vestidos para festa 2004

acessórios para as bonecas (2006)


Texto inspirado na leitura dos livros:

  • Guía para criar hijos curiosos: Ideas para encender la chispa del aprendizaje en casa. De Melina Furman.
  • Jardim de Infância para a vida toda – por uma aprendizagem criativa, mão na massa e relevante para todos. De Mitchel Resnick.

Conheça a proposta pedagógica da Escola da Vila.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: