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Sobre a BNCC: uma carta aberta de professores para professores e governos

"Chamamos nossos colegas e pares profissionais ao compromisso: vamos estudar a Base Nacional Comum Curricular e cobrar apoio", afirmam Ademir Almagro, Janaina Barros, Mara Mansani e Willmann Costa 

Todos Pela Educação

08 de dezembro de 2017 | 10h11

João Bittar/MEC

Esta foi uma semana de importantes avanços para a Educação brasileira. A terceira versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi discutida pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) revisada à luz das contribuições colhidas nas audiências públicas. A imprensa tem noticiado o tema e os chamados especialistas em Educação estão dando suas opiniões, assim como os políticos e acadêmicos, que também têm se posicionado publicamente. Nesse contexto, achamos fundamental trazer ao debate algumas reflexões que nós, professores e gestores escolares, temos feito sobre o nosso papel neste processo.

A BNCC, documento inédito no Brasil, tem o objetivo de garantir a equidade, isto é, o acesso igualitário à aprendizagem, e de elevar as expectativas que temos sobre o que os nossos alunos e alunas são capazes de aprender e o que nós, profissionais da Educação, somos capazes de ensinar. Ela aponta direitos. E, para isso, seu documento define os conhecimentos, as habilidades e as competências essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo da Educação Básica, em escolas públicas e particulares de todo o país.

Esse momento histórico na Educação brasileira, porém, vem carregado de dúvidas, alguns medos e polêmicas. O que é natural. Afinal, além da complexidade do tema, há o ineditismo da ação. Esta é a primeira vez que se tenta construir uma base curricular única para o todo o Brasil que pode ter, de fato, impacto em várias outras políticas públicas também de grande relevância, como a formação inicial e continuada de professores, a revisão dos materiais didáticos e a infraestrutura das escolas.

A Base Nacional deve apontar o caminho do diálogo e da tolerância e, ao apontar direitos, deve também nos chamar à responsabilidade

Ao longo de todo o processo de construção da BNCC, as contribuições – inclusive dos educadores – foram fundamentais para avanços importantes em torno das expectativas de aprendizagem para cada etapa e ajudaram o documento a evoluir também, por exemplo, na ênfase dada ao desenvolvimento integral dos nossos estudantes.

Na pauta das discussões, está também em disputa o tom da narrativa e o que ele poderia sinalizar. Não se trata de jogo de palavras, mas do impacto que a escolha de cada uma delas no texto da BNCC pode apontar sobre o Brasil que queremos ajudar a construir a partir da Educação que daremos à nossa população.

Considerado o contexto atual, acreditamos ser importante que o documento aponte para um País capaz de formar cidadãos articulados para a tolerância e a divergência. Por isso, a BNCC não deve ser congelada pela opinião de nenhum dos lados que disputam agora a sua narrativa – ou estaria a ideia do direito individual que é comum às pautas desses diferentes grupos, anulada em si.

O documento deve apontar o caminho do diálogo e da tolerância e, ao apontar direitos, deve também nos chamar à responsabilidade. Como professores, vivemos na pele os resultados de uma profissão há muito desvalorizada e sem o prestígio social. Mas sabemos também da importância de uma prática profissional que precisa ser revista diante do compromisso com a garantia da aprendizagem de todos os alunos.

Nós, professores e gestores escolares, precisamos agora estudar o documento em profundidade, entendê-lo à luz do conhecimento do qual somos os principais detentores – o da prática da sala de aula, o do contato direto com quem vai ser realmente impactado por ela, nossos alunos e nossas alunas.

Que contribuições podemos dar considerando cada um deles neste processo? Quais os caminhos e sugestões de melhoria queremos apontar na construção dos currículos a partir da Base e na revisão do que será necessário melhorar nas escolas para a sua implementação? Como o nosso trabalho estará comprometido com essa transformação? É preciso que nós, professores, façamos a nossa parte para ajudar a Educação Pública a avançar em qualidade e equidade. Não é possível seguirmos paralisados pelo medo da mudança. Contribuímos para garantir a qualidade até aqui e agora precisamos avançar neste compromisso para os próximos passos. Queremos ser parte, num futuro oxalá próximo, de uma Educação que seja realmente a solução para o Brasil, ideia esta que corre há muito nas análises que todos nós fazemos cotidianamente.

Refletir e revisar nossas práticas a partir também da escuta ativa e da compreensão das histórias de vida, das necessidades, dos anseios e dos jeitos de aprender de cada um dos nossos alunos será etapa fundamental na construção dos currículos nos estados e municípios e, sobretudo, na revisão do nosso planejamento pedagógico e acompanhamento de seus resultados.

É nosso direito, sim, discutir agora como as classes superlotadas, a nossa formação deficitária e a falta de apoio material e infraestrutura – para citar apenas alguns dos desafios que enfrentamos – vão impactar diretamente a aplicabilidade da BNCC em nossas escolas e salas de aula.

Queremos, sim, o compromisso de nossos governos e seus representantes nas secretarias de Educação de que a BNCC não virá sozinha. Precisaremos de apoio e condições para levá-la à realidade nas escolas e salas de aula com seriedade e compromisso. Para isso, precisamos continuar sendo ouvidos, considerados como parte fundamental do processo. A realidade das escolas e salas de aula é de conhecimento profundo dos profissionais que nelas atuam diariamente. Não existirá transformação positiva no ensino se o diálogo amplo que tem sido a tônica deste processo para a BNCC não for também, agora, uma premissa nos estados e municípios. Seguir contribuindo, além de ter todo o apoio necessário à implementação, é o que queremos.

Por isso, chamamos nossos colegas e pares profissionais a este compromisso em todo o Brasil: vamos estudar o documento e cobrar apoio! E, com isso, não vamos abrir mão nunca de nos implicar também como parte na responsabilidade por uma Educação que há muito pede por mais qualidade para todos e todas.

Conheça os docentes que assinam esse artigo:

Ademir Almagro é professor há mais de 25 anos e leciona História. Atualmente é coordenador pedagógico na EMEB Professora Hebe de Almeida Leite Cardoso, na cidade de Novo Horizonte, São Paulo.

Janaina Barros é pedagoga e atua como coordenadora pedagógica na rede pública de ensino no município de Seabra, Bahia.

Mara Mansani é professora alfabetizadora há 30 anos nas redes estadual e municipais no Estado de São Paulo.

Willmann Costa é professor de Língua Portuguesa e Literatura na rede pública de ensino no Estado do Rio de Janeiro. Está há cinco anos também como gestor escolar no Colégio Estadual Chico Anysio.

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