Professor, o século 21 chegou até você?
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Professor, o século 21 chegou até você?

"A escola do século 21 pede docentes que se interessem por seus estudantes – sem exceção – e estejam abertos a aprender como ouvi-los, considerando quem são, como aprendem, quais são suas paixões, como veem, sentem e pensam seus projetos de futuro", afirma Simone André

Todos Pela Educação

14 Novembro 2018 | 08h30

Por Simone André*

Estamos todos imersos na complexidade que o século 21 nos impôs, com avanços tecnológicos revolucionando todos os aspectos da nossa vida e produzindo rupturas na forma como trabalhamos, nos relacionamos, exercemos cidadania e aprendemos. Esse mundo volátil, complexo e ambíguo democratizou soluções e também problemas, fazendo com que as pessoas e sociedades contemporâneas vivam de forma mais radical o desafio de coexistir. Estamos expostos à diferença e ao diferente em dimensão planetária e, ao mesmo tempo, protegidos por bolhas virtuais criadas por algoritmos que simulam um mundo que supostamente pensa como nós. Nesse contexto, nós educadores somos provocados a refletir sobre uma questão central: Qual é a Educação necessária para o século 21 e como preparar crianças e jovens para esse novo tempo?  

O convite aqui é não nos deixar iludir pelas fórmulas do passado em que atitudes duras e simples pareciam responder a essa questão. A imagem mais comum da sala de aula do século 20 são os alunos enfileirados, atentos às aulas durante horas. Essa fórmula não foi suficiente para gerar equidade – o direito à Educação de qualidade para todos – e afastou da escola aqueles que não se adaptam a esse sonho ideal de estudante. São os 40,8% dos jovens que não concluem o Ensino Médio até os 19 anos.

Mais que isso, aquela fórmula não é suficiente para preparar pessoas para os desafios do século 21, que requer resiliência para crescer em condições adversas; apreciar o novo e a diferença; fazer escolhas consistentes com quem são e o futuro que querem construir; capacidade para reinventar o trabalho na sociedade da inovação.  

Para começar nossa reflexão sobre a Educação necessária, precisamos falar sobre a sala de aula do século 21, onde a Educação de fato acontece. A ênfase está nas relações entre os estudantes, o professor e o conhecimento. O que a ciência da Educação, somada aos pesquisadores de áreas afins à Educação – como a psicologia, a economia, o design –, revelam sobre a sala de aula do século 21 é algo que os professores e os gestores escolares sabem, mas, talvez, esqueçam sob densas camadas de soluções duras, simples e ineficazes.

Vamos a essas descobertas. Uma sala de aula gera aprendizagem, equidade e condições para os estudantes realizarem seus projetos de vida quando oferece um currículo de qualidade. Nele, os alunos veem a si e aos colegas como competentes para aprender com seus pares, engajados em tarefas que os provoquem a buscar soluções colaborativas aos problemas. Eles estão em times, pensando e agindo concretamente sobre problemas reais, que exigem pesquisa e aplicação de conhecimento. Os professores medeiam o aprendizado entre pares, instigando o pensamento autoral e ampliando o conhecimento em construção, com uso de diferentes tecnologias. Além de mediador, o professor inspira os estudantes criando espaços protegidos para aprenderem com o erro. Com o engajamento dos estudantes na aula, o tempo que ainda hoje é gasto para controlar a disciplina passa a ser usado para ensinar e aprender.

Vemos com clareza que a Educação necessária para o século 21 tem como ponto de virada a formação do professor. Não estamos falando de um professor ideal, sem preconceitos ou falhas. Mas de docentes que se interessem por seus estudantes – sem exceção – e estejam abertos a aprender como ouvi-los, considerando quem são, como aprendem, quais são suas paixões, como veem, sentem e pensam seus projetos de futuro.

*Simone André é psicanalista e educadora. Atua como gerente-executiva de Educação no Instituto Ayrton Senna.