O currículo como canal de política educacional
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O currículo como canal de política educacional

"O currículo é uma das grandes vias de entrada massiva e institucionalizada das políticas educacionais no sistema educacional. Aí reside sua força para mudar a vida de milhões de alunos em cada país", afirmam Alejandra Cardini e Belén Sanchez

Todos Pela Educação

14 de março de 2019 | 08h19

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Desde a formação dos sistemas educacionais, o currículo é um dos canais privilegiados de comunicação entre a política e as práticas educacionais. Junto com os sistemas de formação de docentes, os regimes acadêmicos e os livros de texto, o currículo é uma das grandes vias de entrada massiva e institucionalizada das políticas educacionais no sistema educacional (Rivas, 2015). Aí reside sua força para mudar a vida de milhões de alunos em cada país.

Segundo Rivas (2015), o currículo e outros canais de política educacional podem ser transformados em dispositivos comuns à orientação definida para obter resultados concretos. Isso faz deles forças poderosas:

(…) podem criar cidadãos patriotas, converter crianças a determinada religião ou encantá-los com o universo das ciências; podem manipular as consciências ou gerar nelas capacidades de reflexão crítica e compromisso com a justiça social. Os dispositivos de política educacional podem transformar vidas de forma massiva e sistêmica (Rivas, 2015, p. 321).

Tedesco, Opertti e Amadio (2013, p. 2), desde o IBE-Unesco [9], são convincentes na hora de evocar o potencial do instrumento curricular:

(…) o currículo pode ser considerado um instrumento que permite dar conteúdo e coerência ao conjunto da política educacional. O currículo deixa de ser apenas um amontoado de planos, programas e disciplinas para transformar-se no produto de processos de acordos políticos e sociais sobre o que, para que e como educar no contexto do projeto de sociedade que se deseja construir. Os consensos ao redor do currículo se erguem como marco de referência possível para colocar o bem-estar global e o protagonismo dos estudantes como eixos centrais do sistema educacional, repensar a relação desses últimos com os imaginários de sociedade desejada, fortalecer a relação entre política educacional e reforma curricular e responder eficazmente às expectativas e demandas dos jovens e da sociedade.

Dessa forma, o currículo contém um vasto potencial regulador que não se limita unicamente à seleção e sequencialização de conteúdos a ensinar, mas que se estende aos valores e princípios que uma sociedade quer imprimir em seus estudantes e às formas e condições do ensino e a aprendizagem em classe. Também entendemos que dentro da arquitetura dos sistemas educacionais, o currículo habilita e condiciona diversas formas de transitar pela escolaridade por parte dos estudantes: configurações com diferentes pesos relativos em componentes comuns e diversos, ou esquemas de maior e menor possibilidade de opções habilitarão diferentes tipos de trajetórias de estudos. Nesse sentido, de acordo com Tedesco, Opertti e Amadio (2013, p. 19):

(…) a proposta curricular encara o desafio de garantir que cada estudante seja o protagonista de suas aprendizagens, reconhecendo que todas e todos somos especiais –noção atual da educação inclusiva. Esse reconhecimento requer uma maior personalização da proposta educacional, o que implica ativar o potencial de aprendizagem de cada estudante, respeitando seus ritmos de progresso, por um lado, e focando mais a atenção no bem-estar dos e das estudantes, abarcando aspectos emocionais e sociais além dos cognitivos, por outro.

Assim, pesquisar o currículo do nível secundário e, mais especificamente, sua configuração com relação à arquitetura do nível em cada país e os esquemas de seleção associados às diferentes formas de transitar pelo currículo por parte dos jovens permitirá conhecer a resposta de distintas sociedades ao desafio crescente de preparar os jovens para o exercício pleno da vida adulta, tanto em termos da continuidade dos estudos quanto da inclusão no mundo do trabalho e do exercício da cidadania.

Não podemos esquecer que esta análise deve ser complementada com estudos sobre os resultados, as condições e os desafios associados à implantação de diversos modelos curriculares.

[9] Escritório Internacional de Educação (International Bureau of Education), UNESCO.


*Este artigo faz parte da publicação “Modelos curriculares para o Ensino Médio: desafios e respostas em 11 sistema educacionais”, de Alejandra Cardini, doutora em Educação pela Universidade de San Andrés (Udesa), na Argentina, e Belén Sanchez, mestre em Educação e -Desenvolvimento Internacional pelo Instituto da Universidade de Londres, na Inglaterra. A tradução e publicação da obra é uma parceria do Itaú BBA, Todos Pela Educação e Centro de Implantação de Políticas Públicas para Equidade e Crescimento (CIPPEC – Argentina).

O livro faz discussões sobre a importância dos currículos escolares e traz resultados de estudos sobre a formação técnico-profissional realizados em diversos países. Em um momento em que se discute a implementação de uma nova lógica para a trajetória escolar no Ensino Médio, a análise comparativa dos sistemas de ensino de Argentina, Austrália, Colômbia, Coreia do Sul, Equador, Finlândia, França, Inglaterra, Japão, Ontário (Canadá) e Suíça podem contribuir para a reflexão sobre o tema no Brasil.

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