Profissão professor: quando formação docente e realidade escolar não dialogam
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Profissão professor: quando formação docente e realidade escolar não dialogam

Para especialistas, mudança passa por melhores estágios e valorização da carreira

Todos Pela Educação

14 Fevereiro 2018 | 11h10

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Formar com qualidade professores para as redes públicas de ensino é um dos grandes gargalos da Educação brasileira. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), aproximadamente 24% dos docentes do sistema público não tinham formação superior em 2015. Esse patamar está muito longe da meta 15 do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê a universalização da Educação Superior dos profissionais que ensinam as crianças e jovens brasileiros em seis anos.

E essa é apenas uma parte do problema. Ter o diploma não significa que os outros 76% receberam instrução adequada para saber como ensinar – é o diz Adilson Dalben, Coordenador da licenciatura em Matemática da Faculdade SESI-SP de Educação. “Quando o professor sai da faculdade, ele não está preparado para a realidade da escola. Mas mesmo assim ele tem que dar conta”, explica. Como chegamos a esse ponto?


Razões históricas
Na análise de Elba de Sá Barretto, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas (FCC), uma das causas é que o aumento de docentes licenciados aconteceu de forma acelerada e precária. “Muitas instituições que estão formando os professores não desenvolvem pesquisa e a formação fica com muitas lacunas, sem a produção de conhecimento novo”, afirma.

Elba considera ainda que há uma histórica diferença de concepção entre a maneira que se formam os professores do Ensino Fundamental 1, do Ensino Fundamental 2 e do Ensino Médio. Em Pedagogia, que forma professores da Educação Infantil e Anos Iniciais, há instrução mais generalista e pouco aprofundada no conteúdo, mas tem conhecimento das questões pedagógicas da escola. Por outro lado, as Licenciaturas em áreas específicas têm foco no conteúdo e deixa a desejar no que diz respeito a como ensinar. “A formação dos docentes dos Anos Finais e do Ensino Médio em geral não valorizam questões complexas da formação humana, de como os alunos aprendem e quais alternativas podem ser utilizadas para melhorar esse processo”, explica.

Esse problema crônico, segundo a pesquisadora, vem do despreparo para lidar com a universalização do Ensino Básico. A partir dos anos 1980, o Brasil passou a expandir o acesso aos Ensinos Fundamental e Médio, aumentando a demanda por professores que passaram a lecionar à uma população maior e diversa.

Para corrigir esse descompasso entre os currículos de Pedagogia e das Licenciaturas, os professores dos Ensinos Fundamental 2 e do Médio devem receber instruções mais sólidas quanto à compreensão da função social da escola e as alternativas de abordagem para o aprendizado dos alunos efetivamente aconteça. “Sem trabalhar as formas de como ensinar (metodologias de ensino), os docentes acabam por repetir as abordagens didáticas que receberam quando estavam nas carteiras da Escola básica”, afirma.


Praticar para aprender
Além das questões de equilíbrio entre didática e conteúdo, a formação inadequada dos professores está intimamente ligada ao estágio. “A prática como componente curricular significa que todas as disciplinas da graduação devem estar voltadas para o que acontece no ambiente escolar”, afirma Elba. “Mas quando analisamos os estágios, percebemos que a maioria é apenas formal, modelos que os futuros professores pouco aproveitam”, critica. Para a especialista, aprofundar as relações das instituições formadoras com as redes de ensino é super importante. “Devemos ter práticas para que a formação docente realmente responda às necessidades da escola, formatos e que o graduando possa acompanhar os desafios reais do dia a dia escolar”, afirma.   

Diante dessa perspectiva, de não apenas licenciar professores, mas formá-los aptos para ensinar, a proposta da Faculdade Sesi-SP de Educação tem postado em formatos interessantes. Adilson Dalben explica quais os caminhos da instituição para um sólido programa de residência pedagógica. Além de licenciados por área de conhecimentos (os alunos de ciências da natureza poderão lecionar química, física e biologia, por exemplo), os estudantes também praticam a docência desde o início do curso e discutem experiências entre pequenos grupos e com orientadores. “São feitos estudos de casos em que os alunos analisam suas experiências reais. Assim, o futuro docente não trabalha com hipóteses que serão observadas um dia, mas sim reflete sobre os problemas ainda na universidade para saber ensinar e colaborar para a aprendizagem”, explica.


Para mudar a licenciatura: valorização e apoio
Se não faltam críticas ao estado atual da formação dos professores, já há indícios do que precisamos fazer para melhorar essa situação. Para Adilson, o primeiro passo é anterior à entrada de alunos nas licenciaturas. “Tem muita gente que quer ser professor, mas desiste. Isso se deve à representação que a mídia e todo o contexto escolar fazem dos educadores. Valorizar a carreira passa por questões salariais e condições de trabalho”, diz.

O especialista ressalta ainda a importância da iniciação à docência, dentre quais ele destaca o Programa Institucional de Iniciação à Docência (Pibid). Nele, alunos de licenciatura recebem bolsas de estágio para atuar em escolas públicas com objetivo de aproximar os futuros professores com a rede pública. Apesar desse depoimento positivo, o Programa foi interrompido e não tem previsão de retorno.

Como terceira iniciativa, Adilson destaca também as políticas públicas de bolsas de estudos para graduação em Licenciaturas. “Quem quer ser professor, muitas vezes não tem condições de se sustentar na faculdade e desistem porque precisam trabalhar. Nesse sentido, é importante garantir bolsas de estudos para que o aluno conclua o processo de formação. Além de não ser tão caro, penso que isso seria um grande avanço para realidade brasileira”, explica.

Já Elba considera que a integração entre as ações não podem ser deixada de lado. “Atitudes isoladas não são eficientes. É necessário ter uma efetiva aproximação entre instituição formadora e Escola. As soluções devem ser amadurecidas e refletidas diante da realidade das escolas”, afirma.