Das salas de aulas de Stanford para o Brasil

Das salas de aulas de Stanford para o Brasil

Cris Marangon

18 Maio 2018 | 17h00

Temos evidências baseadas em exames de critério externo que indicam fortemente que o Ensino para Equidade alavanca os alunos a níveis mais altos de aprendizagem

 por Ya Jen Chang*

Numa fria manhã em novembro de 2015, conhecemos a proposta do Ensino para Equidade** (Complex Instruction) pela professora Rachel Lotan, da Universidade de Stanford (Califórnia, nos Estados Unidos). Para entender a teoria na prática, ela nos levou para acompanhar a sala de aula do 7o ano do Ensino Fundamental da professora Laura Evans, em San Mateo. Após observarmos sua introdução à aula, ficamos completamente absortos na atividade complexa que ela entregou aos alunos de 13 anos.

No decorrer da aula, percebemos que o engajamento e a intensidade das discussões aumentavam à medida que eles envidavam todos os esforços, trabalhando colaborativamente para resolver a atividade. Ao longo da aula, percebemos que existiam vários elementos sendo orquestrados simultaneamente pela professora para levar os alunos a uma aprendizagem em maior profundidade.

Quando chegou ao fim, no corredor de entrada da escola, Rachel Lotan generosamente nos explicou a teoria que estava por trás do fenômeno. Para nós, era evidente a importância desse trabalho e a mudança que representava no paradigma educacional. O Ensino para Equidade tinha o potencial de gerar uma mudança profunda e abrangente nas dinâmicas de sala de aula e dar aos estudantes a chance de alcançar níveis mais elevados de aprendizagem.

O mesmo aconteceu na sala de aula de Ensino Fundamental II do professor Carlos Cabana, em uma escola pública de periferia. Alinhado à estratégia do Ensino para Equidade, ele fazia perguntas desafiadoras para os alunos que trabalhavam com autonomia em um ambiente acolhedor. Carlos enfatizou como o trabalho em grupo com delegação de autoridade promove aprendizagem consistente e aprofundada. Naquele momento, estávamos convencidos de que não só era possível, como necessário compartilhar esse conhecimento com professores de todo Brasil.

Desde então, engajamos a comunidade do Sidarta no processo de implementação, com a ajuda de nossos mentores Rachel Lotan e Carlos Cabana. O compromisso em entender as salas de aulas como ambientes sociais e mudar o papel dos professores no gerenciamento das dinâmicas sociais dos estudantes, com o pano de fundo do conteúdo programático das séries, tem sido o lema de nossa equipe diretiva. Aprendemos a olhar as salas de aula e as dinâmicas humanas através das lentes do status e a entender qual a profundidade que as interações precisam atingir para que o aprendizado seja alavancado a níveis mais altos.

Ensino para Equidade

Elizabeth Cohen e Rachel Lotan, ambas de Sociologia e Educação na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, criaram o Ensino para Equidade para salas de aula heterogêneas, que tem sido um componente central no Curso de Formação de Professores de Stanford. Trata-se de uma tecnologia educacional baseada na convicção de que todos os alunos podem aprender conteúdos de alta complexidade.

Para aqueles de nós que passaram muitos anos na escola tradicional, a afirmação de que é possível levar todos os alunos a desempenharem em níveis mais elevados pode parecer uma missão impossível. No entanto, pesquisas feitas nos últimos 30 anos provaram a eficácia dessa abordagem e que, de fato, é possível ensinar conteúdos de alta complexidade a todos os alunos, independentemente de contexto cultural, raça, condição socioeconômica, assim como faixas etárias.

A premissa é o entendimento de que as salas de aula são sistemas sociais. E, como tais, refletem a Teoria das Expectativas Sociais, que se aplica à sociedade como um todo e na qual um determinado status social é considerado melhor do que os outros. As crianças vivenciam essas estruturas sociais nos primeiros anos de vida e copiam esses padrões sociais de conduta desde muito cedo.

Esse comportamento baseado na hierarquia social é reproduzido nas escolas de diversas maneiras. Por exemplo: estudantes considerados pelos colegas e professores como bons na compreensão de texto, na redação e na aritmética são vistos como mais inteligentes. Quando essa percepção estreita da inteligência, vinculada a essas habilidades específicas, é tratada como o principal objetivo da escolarização, criamos salas de aula desiguais, nas quais apenas alguns alunos são alçados à excelência.

A equipe de nossa Escola de Aplicação, o Colégio Sidarta, pioneira na implementação do Ensino para Equidade no Brasil, dedica há 20 anos seu dia a dia para que as crianças alcancem níveis mais altos de desempenho. O Ensino para Equidade veio complementar o nosso trabalho pedagógico, ampliando o repertório de professores para que os alunos obtenham ganhos de aprendizagem no processo escolar.

Após os resultados iniciais positivos no primeiro ano de implantação no Colégio Sidarta, escolhemos levar esse trabalho para uma escola pública, a EE Henrique Dumont Villares, em São Paulo, para observar o impacto desse mesmo trabalho dentro de outro contexto. Ainda é cedo para chegarmos a conclusões definitivas acerca desse trabalho, pois estamos no início do processo. Mas, até o momento, temos evidências baseadas em exames de critério externo que indicam fortemente que o Ensino para Equidade alavanca os alunos a níveis mais altos de aprendizagem. Todos, de fato, ganham.

*Ya Jen Chang é presidente do Instituto Sidarta

**A adaptação de Complex Instruction em inglês para a expressão em português “Ensino para Equidade” nasceu da interpretação do que Rachel entende ser a essência da proposta com o Trabalho em Grupo para Salas Heterogêneas para a promoção da equidade.