Corda no quintal: desafios e descobertas da infância

Corda no quintal: desafios e descobertas da infância

Cris Marangon

18 Outubro 2018 | 17h02

por Rita Galante

A equipe de Artes do Sidarta começou o ano com um convite bem instigante: mergulhar no universo de possibilidades que os quintais oferecem. Sim, isso mesmo, lembra-se daquele quintal da infância? Aquele lugar especial onde a brincadeira corria solta? Onde era possível experimentar os mais diversos gostos, cheiros, esconderijos e brincadeiras?

Com a provocação inspirada pelo poeta Manoel de Barros (1916-2014), começamos 2018 buscando um quintal que fosse maior que o mundo. A intenção era que as crianças vivenciassem um lugar onde as artes estivessem vivas e pulsantes e fossem instigadoras. Um lugar que atravessasse a experiência do brincar e que contasse com educadoras atentas ao brincar com objetivo, com descoberta, despertando e estimulando habilidades e – por que não? – a ampliação delas.

Do que vamos brincar?

Começamos com as seguintes questões no nosso grupo de professores: Quem são essas crianças? Que corpos são esses que habitam esse quintal? Quais experiências eles já vivenciaram? Quais são seus medos? Qual suas relações com o espaço? Concluímos que seria natural iniciar as investigações pelo espaço, que constitui um dos elementos mais importantes para a concretização da dança. Por esse motivo, fazia todo o sentido pensar na relação espacial do corpo com o quintal.

Ao refletir sobre as diversas brincadeiras tradicionais vivenciadas nos quintais da infância, as brincadeiras “Balança Caixão” e pular corda eram algumas que sempre eram lembradas. Eu mesma amava aquela sensação de vai e vem que o Balança Caixão despertava no meu corpo. A relação espacial mudava totalmente pelo simples fato de experimentar esse movimento deitada. Era uma nova maneira de olhar o mundo, uma perspectiva inédita.

Balança caixão, balança você!

Com essas lembranças de infância, tracei a seguinte linha de raciocínio: uma vez que desenvolvemos a consciência corporal ampliada do centro para as extremidades, se o corpo sente o movimento de parábola no seu centro, ou seja, na coordenação motora ampla, quando ele precisar solicitar essa habilidade na coordenação motora fina, será mais fácil acessá-la.

Minha grande curiosidade era investigar se o Balança Caixão poderia auxiliar o pular e o bater corda; se a coordenação motora, de fato, iria se desenvolver e se aprimoraria do centro para as extremidades. Será que, ao sentir o movimento de parábola no corpo inteiro, a criança despertaria um entendimento ampliado para as extremidades posteriormente?

Assim, começaram as pesquisas… Foram muitos quintais brincando de Balança Caixão. Tecidos fortes foram abertos na grama da escola. Cada criança deitava no tecido e duas professoras – uma em cada ponta do tecido – suspendiam e a balançavam no ar. Logo após vivenciarem no corpo o movimento de parábola, era pedido que elas rolassem pelo chão para finalizar a atividade. O último rolamento no chão completava o movimento de círculo no corpo inteiro, na coordenação motora ampla.

Quem rola tem maior estabilidade de movimento e controle de equilíbrio, além de reorganizar constantemente os espaços corporais que são perdidos ao longo dos anos por tensões musculares.

A corda também é brinquedo

Depois das vivências com o Balança Caixão, levamos a corda para o quintal. Primeiro, ela foi usada para que as crianças explorassem os níveis espaciais. Ora ela estava bem próxima ao chão, e o desafio era que rastejassem ou rolassem de um lado para outro. Em outros momentos, estava um pouco mais alta, o que despertava a vontade de pular, engatinhar ou ainda descobrir novas técnicas para se deslocar pelo espaço no nível médio.

Quando a corda assumia maior altura, foi possível observar como exploravam todas as ações propostas anteriormente e criavam muitas outras novas. Imitavam bichos ao som das músicas cantadas – que foram aprendidas e também criadas ao mesmo tempo em que brincavam. Após as crianças explorarem os níveis espaciais com a corda, avançamos para uma nova proposta: pular e bater. Mas esse é outro capítulo que eu conto no próximo post de blog.

* Rita Galante é professora de dança do Colégio Sidarta, em Cotia (SP)