A potência do brincar na Educação Infantil

A potência do brincar na Educação Infantil

Cris Marangon

05 Setembro 2018 | 15h23

por Priscila Okino*

Faça um exercício: resgate suas memórias vividas em um quintal. Pode ter sido um quintal grande, com chão de terra batida, ou pequeno, com ladrilhos por toda parte. Pode ter sido a varanda de um apartamento ou a praça na frente de casa. Lembrou? Agora, reflita: o que há em comum entre todos os quintais possíveis na vida das pessoas? Certamente, é a experiência de brincar. Mais do que um espaço da casa, o quintal era o lugar em que aconteciam as descobertas. Onde os projetos mais secretos encontravam matéria para serem concretizados. Era também o lugar de convivência com os outros e com o ar livre. E era o lugar onde mais se aprendia sobre a vida.

Não é possível pensar a Primeira Infância isolada do brincar. Mas, muitas vezes, o brincar assume papel secundário nas práticas das escolas. Ele aparece sem garantia nenhuma de qualidade de tempo e espaço. Escolarizado em brincadeiras empobrecidas de essência e significado. Espremido entre uma gama de atividades fragmentadas. Dirigido ao extremo, sem respeito às singularidades de cada criança. Enlatado e plastificado. E, com isso, desaparece com o potencial criativo da criança.

Por acreditar no potencial do brincar, por entendê-lo como algo muito maior do que atividades segmentadas e incluídas em alguns espaços da rotina e por saber que ele é a forma de a criança estar no mundo e interagir com ele, a proposta “Quintal” se tornou tão importante dentro do projeto pedagógico do Sidarta.

Por um quintal maior que o mundo

Como é brincar com crianças de outras idades? Como é interagir com o espaço? Quais são as possibilidades que ele apresenta? O que posso investigar com esses materiais? Como escolher o que fazer? Pensando nessas e em outras questões que o quintal permite explorar, o Sidarta reorganizou sua proposta de Educação Infantil.

No “Quintal” daqui, o brincar é a palavra de ordem. Ele é garantido como direito da criança. Como condição para que ela se desenvolva integralmente. É entendido como característica principal das peculiaridades do aprendizado da infância.

Ele amplia o convívio das crianças com pares de idades variadas, adultos de diferentes formações e com as famílias. Nele, a criança escolhe do que vai brincar. Tem a chance de experimentar mais de uma vez e de observar antes de ter coragem de se lançar a um desafio. Tem a oportunidade de reviver o que aprendeu em outros momentos, de recontar histórias, de criar a sua própria.

As crianças da Educação Infantil do Sidarta ficam na escola em período integral (das 8h às 16h). Todos os dias, à tarde, elas vão para o “Quintal” e formam um grande grupo multisseriado – de 3 a 5 anos. A grande e variada área externa da escola é o cenário principal do “Quintal”, que não é definido por um local fixo, podendo acontecer no parque da Educação Infantil, na horta, no parque dos maiores, na área do bambuzal, no bosque ou em outras áreas externas.

O uso de diferentes ambientes, sobretudo dos ambientes externos, tem estado cada vez mais entre as recomendações das redes e instituições que defendem a qualidade da Primeira Infância. É comprovado que as crianças aprendem muito melhor fora das quatro paredes, em lugares que possam interagir com o ambiente, percebendo-o e experimentando diferentes formas de ação.

Essa interação, além de ser mais rica para o desenvolvimento de competências e habilidades, é também muito importante para o aprendizado do cuidado com o ambiente. Desenvolver esse conceito de “Quintal”, que não se restringe a um único lugar, é um caminho para desenvolver a mesma relação harmônica com outros ambientes para além dos muros da escola.

Tudo isso é resultado do amadurecimento de uma série de reflexões que nós, do Sidarta, estamos desenvolvendo nos últimos anos sobre a importância da qualidade da Primeira Infância.

*Priscila Okino, coordenadora da Educação Infantil do Sidarta, em Cotia (SP)