A Equidade e a Matemática

A Equidade e a Matemática

Cris Marangon

21 Junho 2018 | 15h14

As capacidades matemáticas fazem parte da evolução da espécie humana e, portanto, todos os seres humanos são capazes de aprender conteúdos matemáticos em altos níveis

por Ya Jen Chang*

Na sociedade, temos a percepção de que certas áreas do conhecimento exigem um nível de inteligência maior do que outras. A Matemática, por exemplo, é uma das áreas em que essa percepção de status é mais fortemente destacada. Os sistemas educacionais promovem a ideia de que os sujeitos rápidos em Matemática são mais inteligentes. No entanto, pesquisadores apontam que todos os seres humanos são capazes de aprender conteúdos matemáticos de altos níveis.

Na realidade, as capacidades matemáticas fazem parte da evolução da espécie humana e são, portanto, herdadas em nossa composição genética. Segundo Marcus du Sautoy, professor titular de Matemática na Universidade de Oxford (Reino Unido), o motivo por trás do trauma de muitos alunos está, em grande medida, na má qualidade do ensino de Matemática nas escolas em todo o mundo.

Integrado aos princípios do Ensino para Equidade**, as Mentalidades Matemáticas, de Jo Boaler, da Universidade de Stanford (EUA), trazem um novo olhar para a Matemática quando estabelece que ela deve ser ensinada como uma disciplina aberta, criativa, visual e não apenas um conjunto de procedimentos a serem memorizados.

Nos últimos anos, Jo Boaler tem revolucionado os estudos na área ao questionar, pesquisar e propor reflexões profundas sobre o ensino da disciplina. Seus estudos levam a discussão para outro patamar quando afirma que todos são capazes de aprender Matemática em altos níveis, independentemente de gênero, classe social e etnia.

Ela desfaz mitos sobre a habilidade matemática em relação à velocidade e também discorre sobre o importante papel dos erros para o processo de aprendizagem. Estabelecendo vínculos entre o processo de aprendizado e a Neurociência, Jo Boaler mostra evidências consistentes de como a educação matemática e as grades curriculares transmitiram mensagens equivocadas nas últimas décadas à população.

Uma pesquisa recente mostra que, das cinco áreas do cérebro ativadas quando estamos em contato com a Matemática, duas são visuais. Em função disso, sem os elementos visuais, estamos utilizando apenas 60% da capacidade cerebral. É como se estivéssemos limitando a população a dirigir a 60 km/h numa estrada preparada para 100km/h. Talvez esse seja um dos motivos pelo qual poucos chegam ao destino final do seu percurso educacional com as habilidades matemáticas esperadas.

Material traduzido e disponível

Acreditando no potencial de mudança acerca desses paradigmas de ensino da Matemática, colocamos nossos esforços em dar aos professores brasileiros acesso ao trabalho, em primeira mão, da professora Jo Boaler. Em setembro de 2017, lançamos o livro “Mentalidades Matemáticas: estimulando o potencial dos estudantes por meio da matemática criativa, das mensagens inspiradoras e do ensino inovador”, em parceria com a Editora Penso. Essa obra é um best seller nos Estados Unidos e já foi traduzido para mais de 15 idiomas.

Entendendo a importância da teoria na prática, escolhemos trazer ao Brasil seu segundo livro – Mentalidades Matemáticas na sala de aula: Ensino Fundamental. Nele, Jo Boaler desafia os tradicionais livros didáticos voltados aos exercícios de habilidades específicas, propondo uma Matemática com abordagem aberta, criativa e visual, focadas em ideias fundamentais da disciplina.

Para possibilitar o acesso gratuito a materiais de referência, em parceria com a Fundação Itaú Social, traduzimos todo o conteúdo do portal Youcubed (www.youcubed.org) que, até o momento, teve mais de 25 milhões de acessos. Nesse site, é possível encontrar recursos materiais tanto para aqueles que desejam estudar a fundamentação teórica das Mentalidades Matemáticas, quanto para professores que querem experimentar essas práticas em suas salas de aula.

Assim como a professora Jo Boaler, o Instituto Sidarta acredita no potencial humano e na capacidade de aprendizagem de todos. Esperamos, com essas ações, trazer aos professores brasileiros ferramentas eficazes para resgatar o propósito do ensino da Matemática e, com isso, apoiar todos os alunos brasileiros a aprenderem Matemática em níveis mais altos.

*Ya Jen Chang é presidente do Instituto Sidarta

**A adaptação de Complex Instruction em inglês para a expressão em português “Ensino para Equidade” nasceu da interpretação do que Rachel entende ser a essência da proposta com o Trabalho em Grupo para Salas Heterogêneas para a promoção da equidade.