“Nem le Carré escaparia.”

“Nem le Carré escaparia.”

Cesar Pazinatto

18 de março de 2016 | 15h07

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Mapeamento online de metáforas e intertextos no romance “Os Espiões”, de Luis Fernando Veríssimo

O romance “Os Espiões” é o primeiro título em língua portuguesa a ser lido no 1º ano do Ensino Médio na See-Saw Panamby Educação Bilíngue. Ao mesmo tempo em que demanda dos estudantes a compreensão de metáforas e intertextos, esse romance brasileiro contemporâneo abre caminho para a leitura programada para o segundo bimestre – o clássico A metamorfose, de Franz Kafka.

Passeando por nomes como o nosso Machado de Assis e Dostoievski, a narrativa de Verissimo bebe da fonte da mitologia grega para problematizar a noção de literatura “de verdade” e prestar uma homenagem rasgada ao potencial transformador do texto literário.

O protagonista é um editor frustrado que, em suas manhãs de ressaca, seria capaz de recusar a publicação de Tolstói, Cervantes, Flaubert, Proust e até mesmo de sua grande paixão: John le Carré. Já na primeira página, o romance assenta-se sob uma pequena, mas poderosa, constelação de referências literárias, ou seja, de intertextos.

Logo no início da leitura, portanto, os estudantes percebem que – sem o conhecimento dos intertextos – eles “perdem a piada”, ou seja, não conseguem usufruir integralmente das brincadeiras propostas por Verissimo.

As primeiras rodas de leitura compartilhada trouxeram queixas como: “imagino que ele deva estar dizendo algo engraçado, mas não consigo achar graça”. A partir daí, foi proposto a turma que fizesse o mapeamento dos intertextos presentes no primeiro capítulo. Nesse dia, trabalhando em pequenos grupos e com consulta à internet, “Os Espiões” teve a sua segunda chance.

Esse trabalho foi sistematizado através de uma atividade de mapeamento não só de intertextos, mas também de metáforas. Isso porque vínhamos trabalhando com a linguagem figurada nas aulas de análise e reflexão sobre a língua. Na plataforma EDMODO (www.edmodo.com), a professora disponibilizou um modelo para esse mapeamento, que deveria conter: a transcrição literal do intertexto; uma pesquisa sobre o intertexto a partir de uma fonte confiável e uma explicação de autoria sobre o efeito de sentido do intertexto para a construção da narrativa. Em outras palavras, a descrição do papel do intertexto na trama.

Procedimento similar foi proposto para o mapeamento de metáforas, que previa: a transcrição literal da metáfora e sua classe de palavra; uma pesquisa que ilustrasse a imagem sobre a qual a metáfora fora construída e, como no estudo dos intertextos, uma explicação de autoria sobre o efeito da metáfora na construção da narrativa.

O trabalho em uma plataforma online como o EDMODO permite à professora monitorar e comentar a produção dos estudantes no momento em que ela acontece, voltar a elas e compartilhar com o grupo todo as investigações feitas. Aos estudantes, a plataforma permite o envio de sucessivas versões, até que se chegue ao produto final desejado, além da realização de pesquisa online com a mediação da professora.

Finalmente, esse trabalho está permeado pela noção de que a intertextualidade é parte da natureza dos textos – “mosaicos de citações”. Essa “descoberta” permite ao estudante compreender como e por que os textos desvelam seus sentidos ao leitor experiente. Após a leitura, a ideia é editar coletivamente o verbete da Wikipedia sobre “Os Espiões”, hoje limitado a uma frase. Afinal, uma sinopse que dê conta de apresentar a trama de Verissimo será pontuada por numerosos hiperlinks, em outras palavras, por numerosos intertextos. Nem le Carré escapará.

Phaedra de Athayde (professora de Língua Portuguesa do Ensino Médio)

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