Muito além do ouro

Muito além do ouro

priscilladahan

26 Agosto 2016 | 10h01

Chegando ao final dos Jogos Rio 2016, uma pergunta que ainda ecoa é se o tal legado olímpico realmente existe, e qual a sua dimensão e abrangência? Durante todo o período de organização dos jogos o que não faltou foram polêmicas, casos de corrupção, obras inacabadas e um clima de incerteza pairando no ar. No momento seguinte a abertura, as polêmicas foram substituídas por uma onda de otimismo, patriotismo e orgulho. Mas o que esta inconstância de pensamentos e opiniões tem a ver com o legado?

Paralelamente aos objetivos do evento que são a convivência pacífica entre os países e a atuação esportiva dentro dos valores olímpicos, vimos nas últimas décadas o desdobramento de uma preocupação ligada à infraestrutura criada para os jogos, principalmente na cidade sede, no caso o Rio de Janeiro. Somando-se a esta questão temos a supervalorização do quadro de medalhas, como indicativo sócio-político desde o final da guerra fria, onde atualmente a China trocou de lugar com a União Soviética na disputa com os Estados Unidos pelas medalhas de ouro, e simbolicamente, pelo título de maior potência mundial. Adiciona-se também o enorme crescimento da influência da participação dos patrocinadores e empresas esportivas nas instituições que organizam o evento e diretamente na carreira dos atletas, disputando o bilionário mercado esportivo global. Forma-se um panorama onde a essência dos jogos fica encoberta e em segundo plano, e onde o tal legado olímpico poderia estar associado ao lado humano, aos valores e atitudes que a todo momento saltam aos olhos e que não recebem a mesma atenção. Não se trata de desmerecer os medalhistas, os ícones e as super estrelas do esporte, mas de enxergar que esta é uma competição formada por campeões, pessoas que além de já ter sucesso na modalidade que atuam, doaram suas vidas a um objetivo e que servem de exemplo, merecem respeito e reconhecimento, independentemente da colocação, principalmente em países como o nosso, onde não há condição favorável para se viver do esporte.

Há muito conteúdo para ser trabalhado neste assunto em casa, na escola, e outros lugares, muito além do quadro de medalhas, das estruturas que impressionam ou dos desfiles de uniformes e marcas. Neste evento encontram-se histórias recheadas de humanidade e bons exemplos, destes que faltam ao nosso cotidiano. Antes dos valores olímpicos, pensemos nos valores humanos que estão representados ali, em qual outra situação você encontra representantes de quase todos os países da Terra trabalhando a convivência pacífica? Isso não quer dizer que haverá sempre abraços calorosos, tivemos exemplos de discórdia, como o atleta egípcio que se recusou a cumprimentar o israelense e foi banido dos jogos e alguns outros. É justamente este o ponto, o lado humano, imperfeito, este que nós mesmos temos que trabalhar a cada dia e tentar melhorar durante a vida toda.

Na antiguidade os atletas olímpicos não ganhavam nada além de reconhecimento, para o campeão, uma coroa de louros por se dedicar em representar seu país e compartilhar sua cultura com outros.

Que estes jogos possam nos fazer enxergar, junto ao legado sócio-político-estrutural, o legado humano, que no fim das contas, sempre foi a essência das Olimpíadas.

Professor Augusto Dutra Barreto Junior

 

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