Conto em que surge um conflito psicológico

Conto em que surge um conflito psicológico

priscilladahan

13 Abril 2016 | 11h48

Os alunos do 9ºano, a partir da foto, elaboraram um Conto em que surge um conflito psicológico, um clímax e o desfecho que se marca pela solução ou pela revelação. Na narrativa deve haver uma predominância de sentimentos, de sensações e de uma reflexão sobre a memória dos fatos através de uma linguagem figurada em que há uma busca de sentidos.
Professora Sonia Maria Gouvea Lemos
Confira o conto dos alunos: Karina Shafferman e David Borger
Mimetismo
O tempo despiu minha personalidade. A penumbra do meu quarto me traz um imenso prazer. Acho que sempre fui tímida. Pensava que a observação era uma qualidade. Acreditava que ser quieta e discreta eram características ideais. Por isso, não atraí atenção ou fui chamativa demais. Em todas as fotos, principalmente nesta sobre a antiga cômoda que fora de minha avó, aparentava estar ocultada pela silhueta daqueles ao meu redor. Talvez, essa fosse a única imagem em que aparecesse acompanhada de seres humanos. A ausência de pessoas me transportava a uma felicidade plena.
Construí uma personalidade intoleravelmente serena, insuportavelmente pacata. Ergui uma grande muralha ao redor da minha consciência, para que ela jamais escapasse do meu controle, da minha gerência. Sou o resultado da minha agonia, da minha aflição e do medo de me expor ao mundo.
Fiquei imóvel e perplexa, inaceitavelmente plácida, ao passo que minha essência foi sugada para fora de mim. Não compreendo como permiti que isso acontecesse. Tornei-me uma ignorante, alienada, desprezível.
O meu talento foi ofuscado pelo brilho de mais fortes. Outros tornaram-se líderes e eu desperdicei meu dom. Preferi manter-me à sombra de protagonistas e não emiti minha própria luz. Contentava-me com o mínimo, não conheci meu verdadeiro potencial e, infelizmente, não pude explorar o sabor da dedicação.
Na escola, aguardava ansiosamente pelo dia da prova para terminá-la, rapidamente, e estar livre para analisar o comportamento alheio. Acho que era invisível, ninguém nunca sentiu minha falta.
Hoje, no leito de morte, continuo solitária, porque, afinal, passei minha vida inteira despercebida, camuflando-me de todos. Estou ciente de que não posso me esconder da morte ou alterar minhas atitudes, mas, meu último desejo, em meio ao meu suspiro final, é…
Karina Shafferman – 9º B

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Um dia pavoroso
Hoje vi crianças jogando futebol na rua e, ao ver o retrato de minha infância, percebo que há muito tempo não via crianças brincando na rua, talvez a última vez fora em minha juventude com meus amigos.
Ainda estava no primário, com seis ou sete anos. A tarde de verão era abafada e radiante como meu espírito e me chamava para uma partida de futebol. Todos foram aproveitar nossos dias de descanso, tanto meninos como meninas. Lembro-me até do cheiro de chuva no asfalto de que tanto gostava. Prestes a terminar o jogo, a bola foi isolada.
O barulho de uma janela se quebrando quebrou também minha felicidade. Meu vizinho era um homem de respeito, mas com uma seriedade ímpar. Preservava sua casa como uma família. Quando o vi aparecer, tomei outra forma: sentimentos de medo, vergonha, remorso, resumidos a um congelante frio na barriga.
Comunicou o ocorrido a nossos pais, e como já fizera anteriormente não delatou as meninas que jogavam conosco. Ele tinha uma afeição maior por elas que não sei explicar até hoje.
Minha bola, que estava na sala da casa, pedia socorro para que eu a buscasse, pedido que não pude atender. Uma chuva trovejou meus momentos de alegria. O cheiro do asfalto havia se dispersado, queria voltar para casa, mas meus pais ainda discutiam. Porém meu maior medo era perder minha bola.
Diferente do que pensei, ele devolveu a bola, mas com seu tradicional olhar sério. Dormi com a consciência pesada, mas feliz, sem saber o que aconteceria como consequência. Não sei como, mas até hoje guardei memórias de um dia tão pavoroso numa colorida infância.
David Borger – 9º A

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