Uma reflexão sobre o binômio Teatro e Educação

Uma reflexão sobre o binômio Teatro e Educação

Comunicação PlayPen Bilingual School

21 de março de 2019 | 08h23

Por Santiago Almeida*

Recentemente, ao ser indagado sobre qual seria o fator que justifica o ensino do teatro na escola regular, vi-me diante de um dilema que me fez pensar. A questão pode parecer simples, já que faz parte do senso comum a ideia de que o teatro é essencialmente uma forma de entretenimento, o que justificaria a necessidade de uma explicação para o seu uso em sala de aula. Essa ideia, como afirma Ingrid Koudela em seu livro Jogos Teatrais [1], estaria relacionada à abordagem “contextualista” do ensino do teatro, quando o teatro é usado como meio de se alcançar objetivos extrateatrais, auxiliando os alunos na assimilação e desenvolvimento de outras competências.

Mesmo que a afirmação acima não esteja por completo equivocada (já que o estudo e a prática teatral exigem sim dos seus praticantes o uso de diversas habilidades), há, porém, outra maneira de encarar o ensino do teatro. Essa sim é a que mais se aproxima do trabalho que busco fazer na escola onde leciono atualmente como Professor de Teatro do Ensino Fundamental: trata-se da abordagem “essencialista”, a que inclui o teatro no campo das competências que não necessitam de nenhuma justificativa. Dentro dessa perspectiva, o teatro é encarado como linguagem estética e como área de conhecimento específico. Depois de refletir sobre a minha própria prática teatral como ator, aluno e professor de teatro, percebi que a potência do teatro está exatamente nisso, no seu poder de criar reflexão, de promover o pensamento crítico, motivo pelo qual essa discussão se faz tão importante quando o assunto é educação.

Ao observar que muitos dos procedimentos utilizados pelo teatro contemporâneo são também utilizados em processos pedagógicos para o estudo do teatro, o Prof. Dr. Florian Vassen, da Universidade de Hannover (Alemanha), traz à luz uma reflexão importante sobre a influência mútua que existe entre o binômio teatro e pedagogia. Ao se utilizar de prerrogativas do teatro contemporâneo, como a fragmentação de papéis e a multimedialidade, a pedagogia do teatro acaba recebendo influência direta desse meio. Vassen, porém, destaca que o inverso também ocorre, já que “a pedagogia do teatro por meio de sua ligação específica com elementos estéticos, socioculturais e pedagógicos” [2] promove uma nova práxis teatral, dando origem a outras experiências na ciência do teatro. Esse movimento quase fluido entre uma esfera e outra é o gancho para uma discussão que interessa diretamente àqueles cujo ofício é o ensino da arte dramática. Se é possível pensar o ensino de teatro em sala de aula como uma experiência estética, é também possível pensar em pedagogia do teatro como parte integrante do próprio teatro.

Entretanto, de que se trata essa experiência estética que acontece dentro da sala de aula? Quais são suas potencialidades, tanto no campo pedagógico como no campo teatral? Ao pensar em teatro na escola essencialmente como experiência estética que envolve um grupo de indivíduos, é possível ter em mente uma prática teatral que está a serviço de um exercício coletivo: trata-se de encarar o teatro como acontecimento em grupo, como a arte do encontro, terreno fértil não só para o trabalho artístico, mas também para o trabalho relacional. Nesse sentido, o que Florian chama de “potencial supra-artístico” do teatro está diretamente relacionado a esse poder de coletivização do teatro, alcançado no momento em que a sua prática atinge a esfera social.

A partir dessa reflexão e ao observar a minha própria prática em sala de aula com certo distanciamento, consegui entender de maneira mais clara a relação entre teatro e pedagogia, entre a experiência da prática dramatúrgica e o desenvolvimento de uma inteligência coletiva. A experiência do teatro vivenciada coletivamente dá vazão a uma outra realidade, permeada por outra consciência de tempo que não diz respeito àquela a que todos estamos acostumados. Trata-se, portanto, de um processo que busca romper as barreiras do cotidiano, abrindo novos túneis de acesso ao pensamento e propondo outro ponto de vista com relação ao mundo e às relações que nele acontecem. Daí a afirmação de Vassen de que “o teatro pode servir como fundamento para a descoberta da realidade social e como modelo de ação e conhecimento sobre a sociedade”.

Por entender, pois, o processo teatral dentro da sala de aula também como uma manifestação estética de cunho experiencial (cujas extensões de ação alcançam a esfera social), torna-se viável a compreensão de que de fato a pedagogia do teatro e o próprio teatro estão em um movimento de constante afetação mútua. Não seriam os grandes mestres do teatro, como Stanislavski, Meyerhold, Brecht, Grotovski e Barba, também pedagogos? Não seriam suas práticas pedagógicas as responsáveis por criar novos modos de se fazer e de se pensar o teatro? Sob esse ponto de vista, essas questões começam a ficar mais bem entendidas. Assim como Heiner Muller afirma que seu drama nasce do espaço entre o palco e o espectador, colocando-o em um papel de coparticipação do processo teatral, é possível observar que no teatro contemporâneo, cada vez mais, o espectador é convidado a fazer parte do espetáculo, tornando-se coprodutor e dando a ele a dimensão de um acontecimento. Esse conhecimento específico que o processo teatral proporciona por meio da participação e da experiência social resulta no que Vassen chama de “duplicidade entre prática e estética, entre jogador e o papel”. Essa duplicidade é que torna o ensino de teatro na escola um novo campo de formação do sujeito social, possibilitando um distanciamento entre si e seu próprio meio.

Entretanto, é preciso saber que não compete ao ensino do teatro a função de transmitir aos indivíduos participantes desse processo a aquisição de habilidades pedagógicas, o que resultaria na redução do teatro a seu caráter meramente funcional, já que são de difícil mensuração os efeitos dessa pedagogia.

Dentro desse processo que coloca o coletivo como agente e provocador do acontecimento estético, a figura do professor de teatro entra em discussão. O professor, nesse contexto, é apontado por Vassen como o grande articulador, cujo papel principal está em observar e mediar a experiência estética, abandonando o tom professoral para tirar os jogadores da posição de meros receptores de informação, promovendo autonomia para o pensamento crítico.

* Santiago Almeida é jornalista, ator e professor de Teatro da PlayPen Bilingual Education.

[1] KOUDELA, Ingrid. Jogos Teatrais. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006.

[2] VASSEN, Florian. Teatro +- pedagogia do teatro: correspondências entre teatro e pedagogia do teatro. Trad. de Ingrid Domien Koudela.

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