Sou leitor… Tenho os meus direitos!

Sou leitor… Tenho os meus direitos!

Natalie Valezi

18 Novembro 2015 | 08h34

Autora: Cíntia Mendes

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2011 – desenvolvida pelo Instituto Pró-Livro e maior referência sobre o comportamento do leitor brasileiro – apontou que os professores e os pais são os principais responsáveis por incentivar o gosto pela leitura.

Quando perguntado para os entrevistados “Qual é a pessoa que mais influenciou ou incentivou o seu gosto pela leitura?” o professor foi citado por 45% dos leitores, enquanto a mãe e o pai foram citados por 43% e 17%, respectivamente.

O incentivo à leitura, no entanto, mais do que tarefa de professores e pais, é uma responsabilidade social. Colocar-se neste papel é tarefa fundamental e que deve ser compartilhada por todos ou, pelo menos, por todos àqueles que clamam por mudanças na estrutura social de nosso país, uma vez que todo mediador de leitura é um agente de transformação social em potencial, pois “Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias.” (Vargas Llosa)

É importante destacar que o incentivo ao gosto pela leitura e a busca pelo desenvolvimento de um leitor mais crítico perante o texto já vem sendo uma preocupação constante em escolas por todo o país e que não são poucas as iniciativas que buscam expandir e aprofundar o relacionamento leitor-texto. Então, o que faltam nestas iniciativas? Falta, de fato, alguma coisa? Ou o baixo índice de leitura no Brasil é culpa dos próprios “não leitores”, incapazes de se render ao prazer de um bom livro?

Daniel Pennac, no livro Como um romance narra de forma singular esta “luta” pela formação de leitores no âmbito escolar, descrevendo a angústia dos professores, bem como a dos pais e a dos próprios alunos, atores em um sistema de ações avaliativas que, muitas vezes, sufocam o prazer da leitura. Afinal, como lembra Pennac (1993, p.121), “Não se força uma curiosidade, se desperta.”.

direitos do leitor

Há uma necessidade urgente de dar voz ao aluno, fazendo com que ele se reconheça nos textos lidos e, principalmente, sem que sejam apontadas as respostas certas frente às suas próprias interpretações. Uma vez que a leitura é sempre um encontro único entre livro e leitor, não existe a resposta certa. E também não existe o livro certo, como muitos parecem crer. A preocupação de que o leitor leia, mas também de que leia o “livro certo”, muitas vezes afasta para sempre aquele que poderia ter sido um leitor voraz.

Muitas vezes, para o leitor iniciante – de 0 a 100 anos – ler qualquer coisa é uma tarefa extremamente árdua. E, por que não dizer, uma verdadeira batalha. Sendo uma batalha, cada indivíduo sabe quais batalhas deve escolher para lutar! Muitas vezes o livro com a história mais banal é o mais adorado entre as crianças. O Best Seller que causa alergia literária nos críticos é a história que arrebata os jovens corações e cativa àquela alma leitora que esteve olhando pela fechadura durante todo esse tempo. Todo e qualquer livro é porta de entrada para a leitura e, não importa o tipo de chave utilizada, desde que a porta esteja aberta.

O receio dos mediadores de leitura de estar fazendo algo errado deve ser afastado, pois como explica Pennac (1993, p.122): “A partir do momento em que esses adolescentes estejam reconciliados com os livros, eles vão percorrer voluntariamente o caminho que vai do romance ao autor, do autor à sua época e da história lida a seus múltiplos sentidos.”.

Muitas vezes os profissionais envolvidos direta ou indiretamente com os livros e a leitura sentem-se incapazes de modificar um cenário de não-leitura, uma vez que a composição deste cenário se dá por diversos fatores. Um bibliotecário pode ressentir-se de assumir esta responsabilidade por uma crença de que os professores tem que contribuir mais com a alfabetização e o letramento. Os professores, por sua vez, podem sentir-se esgotados ao verem seus esforços invalidados nas atitudes dos pais. Os pais, entretanto, podem estar confusos sobre qual caminho é o mais certo a ser seguido, uma vez que muitos deles também não são leitores e não tiveram pais leitores.  Os pais dos pais em questão creditam à falta de bibliotecas ou a deficiência delas e de seus bibliotecários a sua aversão aos livros. E no meio tempo levado para ler este parágrafo…

– Pelo menos um pai falou para o filho parar de ler história em quadrinhos e ler algo bom;

– Pelo menos dois professores falaram para os alunos qual livro seria a leitura obrigatória do semestre;

– E pelo menos três bibliotecários falaram para um usuário parar de “bagunçar” as estantes.

São muitas as transformações necessárias para a mudança do cenário atual, pois a construção da visão sobre o papel do livro e da leitura no Brasil se deu ao longo de vários séculos, no entanto, é preciso começar de algum ponto, como cita Paulo Freire apud SILVA:

Eu sei que a prática educativa não muda radicalmente antes que radicalmente mude a sociedade mesma como um todo, antes que a gente transforme as estruturas da sociedade. Mas sei também que não posso é esperar pela mudança radical da sociedade para depois então mudar a educação. (2005: p.83)

REFERÊNCIAS:

FAILLA, Zoara (Org.). Retratos da leitura no Brasil 3. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012. 344 p.

PENNAC, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. 167 p.

SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura escolar: a questão de suas finalidades. In: SILVA, Ezequiel Theodoro da. Elementos de Pedagogia da Leitura. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 79-121. (Texto e Linguagem).