Nada é só branco e preto

Nada é só branco e preto

Colégio Peretz

27 Outubro 2015 | 11h06

Nós X eles;  mal X bem;  céu X inferno; rico X pobre;  sagrado X profano;  razão X emoção

Por Ernesto M. Honigsberg

Nós, seres humanos, temos uma tendência a tentar encaixar todos os conceitos, tudo que vemos e sentimos em um dualismo simplista, em uma antítese que pouco representa a realidade. A partir desse pensamento – tão enraizado em nossas cabeças – surge a incapacidade de um homem enxergar seu semelhante como tal, mas como alguém (ou até algo) completamente diferente de si. Por não ter nenhuma identificação consigo, o outro não merece nenhuma empatia ou ajuda de sua parte. Esse pensamento é reproduzido irresponsavelmente por governos, principalmente em períodos conflituosos, e também pela  mídia em geral, o que faz as pessoas se acostumem a esse padrão simplista, e passem a classificar toda sua realidade dessa maneira.

A propagação e a banalização desse pensamento é a “mãe”, não só de todos os preconceitos que já ouvimos, mas também de todos os genocídios que aconteceram, acontecem e possivelmente ainda acontecerão: “Nós, cidadãos de bem da Alemanha, devemos nos unir contra essa minoria parasita que são os judeus”. “Nós, turcos devemos nos unir para derrotar esses armênios, que não respeitam nosso império e nossa religião”. “Nós, os sul-africanos civilizados devemos nos unir contra esses selvagens de cor e isolá-los”. Esses foram discursos comuns em momentos da História quando a intolerância atingiu proporções absurdas. Porém, o mais assustador foi ver em 2014, após todos esses episódios, um candidato à Presidência do Brasil dizer em rede nacional: “Nós devemos nos unir e combater essa minoria que são os homossexuais, isso é anti-natural”.

 

Em 1996, Gregory Stanton presidente da ONG “Genocide Watch” apresentou um documento chamado The 8 Stages of Genocide (“Os 8 Estágios do Genocídio”), que sugere que todos os genocídios ocorrem em oito fases:

  • 1. Classificação – Indivíduos são classificados em nós e eles;
  • 2. Simbolização -“Eles” passam a receber símbolos e nomes, normalmente odiosos;
  • 3. Desumanização – “Eles” passam a ser comparados a vermes, insetos ou animais, o que ajuda o homem a superar a sua repulsa natural pelo assassinato. Mídia exerce grande influência nessa parte ;
  • 4. Organização – Genocídio começa a ser organizado, geralmente pelo Estado;
  • 5. Polarização – Propagandas de ódio aparecem com cada vez mais força;  surgem leis que proíbem casamentos mistos e interação racial;
  • 6. Preparação – “Eles” passam a ser confinados em guetos, campos de concentração, entre outros. O genocídio já está praticamente “pronto”;
  • 7. Extermínio – Cruel extermínio em massa;
  • 8. Negação – Genocidas tentam encobertar provas e negam sua responsabilidade no acontecimento, muitas vezes atribuindo-a às próprias vítimas.

A própria ONG propõe que, para a primeira etapa, “Classificação”, e por consequência, todas as outras sejam evitadas, devem ser estimuladas políticas de integração étnica, social e religiosa.

Mas de que forma isso deve acontecer? É aí que entra a necessidade da disseminação do ideal de alteridade, de enxergar o outro ser humano como seu semelhante, mas ao mesmo tempo respeitar suas diferenças em relação a si. Além disso, é essencial a conscientização de que o problema do seu semelhante também é seu problema, da mesma forma que o seu também deve ser preocupação dele.

Vemos, porém, que esses ideais ainda estão muito longe da realidade atual, seja no Brasil ou no resto mundo. Índios sendo desapropriados de suas terras para a construção de usinas hidrelétricas; leis que proíbem, por exemplo, o uso de burca na França; imigrantes foragidos de guerras sendo considerados “ilegais” na Europa; estão entre tantas outras provas de que o homem ainda é muito egoísta, e que não sabe respeitar o outro.

Ninguém é só judeu, árabe, brasileiro, índio ou o que quer que seja, as pessoas são dotadas de personalidades complexas, além de gostos e características individuais, ninguém pode ser reduzido a uma coisa só, senão estaremos caminhando de volta para a primeira etapa de um genocídio.

Apenas com uma mudança de atitude, altruísmo e identificação ao próximo, pode-se enxergar um futuro mais justo e igualitário para todos. Não podemos nos omitir frente a tanta injustiça, desigualdade e egocentrismo, que hoje vigoram, devemos nos levantar e buscar mudanças no nosso mundo. O passado não pode mais ser alterado, mas é muito importante que aprendamos com ele para saber o que modificar no presente, com o objetivo de fazer do futuro um tempo melhor.

Nada é tão simples quanto preto x branco; ter isso em mente é o primeiro passo para a transformação.

“Não há um único ser humano que possa ser explicado como a soma de dois ou três elementos (…) a vida não oscila simplesmente entre dois pólos, tais como o corpo e o espírito, o santo e o libertino, mas entre mil, entre inumeráveis pólos.” Herman Hesse – O Lobo da Estepe.

Ernesto Mifano Honigsberg, 18 anos, estudante do 3º ano do Ensino Médio do Colégio I.L Peretz