O professor na coxia

O professor na coxia

Colégio Pentágono

31 de agosto de 2021 | 14h10

Bruno Alvarez* 

Duas vezes por semana, no penúltimo semestre do curso de Letras, eu tinha aulas com o mesmo professor de Literatura Brasileira: era – e ainda é, apesar de hoje já estar aposentado – um intelectual respeitadíssimo. Por quase quatro horas de aulas totalmente expositivas, o docente, sem o auxílio de qualquer outro recurso que não a sua própria voz e, às vezes, um livro em sua mão, falava do início ao fim.

Monótono? Muito pelo contrário: cultíssimo, ele cativava os jovens estudantes, que não raro saíam depois das onze horas da noite ainda refletindo sobre o que se apresentara momentos antes. Era um misto entre a admiração pela figura do professor e o gosto de se perceber aprendendo muito. E como aprendi naquele semestre.

Em toda a minha formação acadêmica, tive professores que adotavam esse mesmo expediente, com algumas poucas variações: ora expunham uma apresentação de slides, ora usavam a lousa, mas jamais deixavam de ocupar o lugar central da aula. Nem todos, claro, tinham a mesma desenvoltura daquele professor brilhante, mas, entre as quatro paredes da sala de aula, todos eles se colocavam como protagonistas. É justamente essa a configuração tradicional dos ambientes educacionais de um modo geral: as aulas expositivas sempre foram regra. 

No entanto, há um movimento crescente e salutar – especialmente no ensino básico – que vai na direção de colocar essa metodologia em xeque, de forma a complementá-la ou mesmo substituí-la. Ainda que as chamadas metodologias ativas tenham raízes distantes (John Dewey, por exemplo, elaborava um discurso alinhado a elas já na primeira metade do século XX), parece evidente que estamos vivendo o auge dos estudos e da divulgação de metodologias que buscam transferir a centralidade da aprendizagem ao aluno. 

Nesse contexto, há dois aspectos que me parecem essenciais para o debate e que funcionam como argumentos para defender a adoção de outras estratégias alternativas à mera exposição dos conteúdos.

Em primeiro lugar, se a aula expositiva é regra, profissionais com o poder de cativação do professor mencionado no início deste texto são uma exceção. Tanto assim que foi ele, e não outros que se utilizavam da mesma metodologia, que me marcou. Não é possível presumir que todos os profissionais da educação tenham a mesma habilidade de reter a atenção de seus alunos por longos períodos. 

Além disso, precisamos ter especial cuidado com os alunos do ensino básico: há uma diferença fundamental entre este e o ensino superior, na medida em que há uma probabilidade menor de que uma mesma turma de alunos em idade escolar interesse-se igualmente por uma determinada disciplina. Diferentemente do grupo de que eu fazia parte naquele curso da faculdade – em que, presume-se, todos tinham algum interesse em literatura – não é possível imaginar que todos os estudantes do Ensino Médio, por exemplo, se interessarão pelo assunto trazido por um professor, digamos, de História. Os alunos mais novos têm interesses e aptidões muito distintos entre si, de modo que simplesmente ouvir alguém discursar sobre uma determinada disciplina distante de sua afinidade pode tornar-se rapidamente maçante. Ora, não seria possível especular que um aluno de Medicina ficaria bastante desmotivado ao ouvir, por longas horas, aquele mesmo professor que não sai da minha memória como grande mestre?

Há no fazer, no “colocar a mão na massa”, algo que transcende o simples ouvir. As metodologias ativas – ao transformarem o aluno em agente – tendem a tornar os momentos de aprendizagem muito mais significativos justamente porque não consideram o aluno mero receptáculo de saberes às vezes só interessantes para o professor que discursa.

Elas rompem a tradição da docência como sacerdócio, que tem, na figura do professor, o representante de um dado conhecimento que deve ser apregoado como num sermão religioso e, na do aluno, o fiel que se obriga a ouvir e internalizar o que é dito. Informada também pelo positivismo do século XIX, essa tradição acredita na objetividade dos saberes, como se os conteúdos fossem blocos concretos que, ditos em voz alta, chegariam aos ouvintes sem qualquer ruído em sua interpretação. As metodologias ativas pressupõem o oposto: o aluno, agora responsável e atuante, pode ser capaz de fazer escolhas para si e tornar o processo de apreender e praticar novas habilidades muito mais efetivo.

Como segundo aspecto essencial desse debate, não podemos ignorar o que o advento da tecnologia pode significar para a educação. As veredas aqui são mais numerosas do que este texto comporta abordar, mas vejamos algumas delas.

É comum que, em uma escola com várias turmas de uma mesma série, um professor saia de uma classe e vá para outra(s) com o objetivo de replicar rigorosamente a mesma aula expositiva. Numa era em que a possibilidade de gravação de uma aula é uma realidade, continua fazendo sentido que eventos repetíveis sejam realizados de maneira síncrona? O que costumo ouvir como contra-argumento é que duas aulas a princípio replicáveis podem ser diferentes porque a participação dos alunos é diferente. E concordo com isso. Porém, este é mais um argumento a favor de metodologias ativas: se o diferencial de duas aulas é como os alunos participam delas, por que não incentivar justamente a sua participação? Ou a ideia é contarmos com eventuais insights que o professor tenha ao apresentar mais de uma vez o mesmo conteúdo?

Seja como for, o corolário me parece ser este: quanto mais replicável for uma aula, maior será a tendência de ela ser substituída por uma gravação alocada em alguma plataforma. E isso não é, por certo, uma defesa de que nossos alunos assistam a aulas gravadas em casa. Trata-se de uma defesa de que professores não ajam, aí sim, como máquinas reprodutoras, e sim como intelectuais, mentores, formadores de fato. 

Nesse sentido, talvez seja esta a pergunta que devemos fazer: o que fazemos aqui e agora poderia ser gravado e visto em outra hora e lugar sem qualquer prejuízo significativo? Sempre que a resposta for positiva, é provável que tenhamos de repensar nossas práticas educacionais. Aliás, é provável que os alunos, especialmente depois de um longo momento em suas casas assistindo a aulas, passem também a questionar isso. Assim, do mesmo modo como brincamos afirmando que certas reuniões poderiam ser e-mails, alunos provavelmente brincarão ao constatar que certas aulas em horário e local predeterminados poderiam ser simplesmente vídeos a que eles assistiriam no lugar e na hora em que preferissem (inclusive com a possibilidade de acelerar a gravação!).

Em suma, valorizar ainda mais os momentos de contato em carne e osso que temos com os nossos alunos é um imperativo. O que se faz de maneira síncrona deve ser precioso, dando ao aluno a sensação de que aquilo que se faz ali, naquele momento e naquele lugar, seria irreprodutível. Nesse sentido, o maior ensinamento das máquinas e das possibilidades que trazem à educação é este: que nós, educadores, devemos ser cada vez mais humanos.

Por isso, no nosso campo de atuação, a tecnologia não substituirá os educadores e sua humanidade. Sofrerá, provavelmente – e aqui apelo, por óbvio, à caricatura – o conhecido e historicamente celebrado professor showman tão típico dos cursinhos pré-vestibular. É aquele cujas aulas são, até mesmo nas piadas que ele conta, rigorosamente as mesmas por vários e vários anos, a despeito dos alunos, que, nesse caso, são apenas uma plateia.

Não é que todos os professores que dão aulas expositivas atendam a essa caricaturização, mas devemos todos refletir sobre a previsibilidade desse modelo de aula para saber quando tomar distância. O professor contemporâneo deve estar concentrado no trabalho dos bastidores: no planejamento, na curadoria, na confecção cuidadosa dos materiais empregados. Nesse caso, a tecnologia é aliada, e não concorrente; ela potencializa, não substitui o trabalho docente. O professor será substituído pela tecnologia, portanto, apenas quando – tal qual o showman – se fizer substituível.

Essa relação de complementaridade entre o professor e a tecnologia também encontra espaço nos materiais digitais a que os alunos têm acesso em qualquer hora e lugar na plataforma adotada pelos colégios. E também aí há um convite à autonomia do aluno, que, quando achar conveniente, poderá, por conta própria, navegar por textos, vídeos, exercícios e tudo o mais que o professor julgar adequado.

Em outras palavras: a tendência à valorização do papel do aluno – cada vez mais discutida e praticada no Colégio Pentágono – é reforçada pela interface constituída na relação entre professor e plataforma digital. E tanto mais poderosa ela será, quanto mais o professor se dedicar a planejar seus cursos e souber observar, agora da coxia, seus alunos brilharem. Esse momento de brilho, aliás, possivelmente os fará lembrar, muitos anos depois, do professor que lhes abriu esse espaço, do mesmo modo como hoje me lembro com carinho e respeito daquele excelente professor que tive na faculdade.

*Bruno Alvarez – Coordenador pedagógico do Ensino Médio do Colégio Pentágono (Unidade Morumbi) e Gestor de Linguagens da Rede Pentágono

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