Literatura em tempos de partido e de antropofagia

Literatura em tempos de partido e de antropofagia

Colégio Pentágono

17 Agosto 2016 | 09h15

Pentágono Alphaville (429)

“Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver.” – Carlos Drummond de Andrade.

No Colégio Pentágono, o professor de Literatura se depara com a tarefa que é menos de ensinar e muito mais de debater, fornecer mecanismos teóricos e possibilidades de análise dos textos literários aos alunos. O trabalho é quase utópico: tratar de Literatura em tempos de cólera, não muito propensos à contemplação da arte. A tarifa de embarque é elevada, mas, ainda assim, permite explorar os armarinhos de miudezas proporcionados pela arte, mesmo que nos sintamos, por vezes, verdadeiros gigolôs de bibelôs frente às algaravias de um mundo cada vez mais dissonante.

O trabalho é também altamente crítico. De forma reflexiva, há o ofício de quem faz e se vê fazendo. Uma aula de Literatura é desafiadora desde o início: peleja entre o que o professor entende de textos variados e a compreensão dos alunos – um olhar diferente, inoculado por outras histórias de vida e bagagens culturais. Como há um “eu” e um “outro”, a aula é sempre um acontecimento particular: o mesmo livro discutido por outros professores e alunos se transforma de maneira imediata em outra aula. Os textos são a espinha dorsal da aula, mas os diferentes olhares trazem movimentos ricos a esse grande corpo de significações, que são os textos literários.

É consenso que vivemos um grande pulp fiction, tempos de intolerância. A tarefa a se cumprir parece ser a de exterminar todas as diferenças. Nada mais estranho ao universo da arte. O que nos sobra é apenas um triste papel de mediação entre a beleza e o caos? Continuaremos com a resistência de expressar, por meio da Literatura, a utopia de um mundo sem ódios e fronteiras, no qual flores drummondianas nasceriam mesmo que do asfalto? Ou devemos apenas nos conformar com o fato de que afirmamos na Literatura o que negamos resignadamente na vida?

Nunca se investiu tanto em meios de comunicação, ao mesmo tempo em que os interlocutores parecem hoje radicalmente aniquilados. A verdade, busca permanente das formas jurídicas, está em xeque, uma vez que o próprio maquinismo do mundo moderno impede o avanço do consenso. Ernest Becker afirma em seu premiado livro que, em 1973, o orçamento bélico do mundo beirava a casa dos 204 bilhões de dólares. Com essa vultosa quantia, fica claro que há uma prioridade, mas ela não está vinculada ao crescimento humanístico que a arte pode provocar.

Eduardo Viveiros de Castro nos ensina que a antropologia se aproxima muito daquilo que Oswald de Andrade defendia em seus manifestos dos anos 20. Afinal, para o antropófago, a grande questão é tupi or not tupi, pois só me interessa o que não é meu. A antropofagia de Oswald já apontava para a necessidade do reconhecimento do outro, assim como para a possibilidade de incorporação do que é diferente e que, por isso mesmo, pode ser deslocado para uma compreensão mais ampla do mundo. O que importa é a relação. Antinarcísica, a metafísica canibal inverte os fundamentos da filosofia moderna. Em vez da afirmação do indivíduo em primeiro lugar, teríamos uma verdadeira poética da alteridade: o outro existe, logo, pensa. Por aí, a devoração oswaldiana e a antropologia de Viveiros de Castro nos permitem refletir sobre outro tipo de devoração, que se destaca pelo antagonismo a tudo o que se mostra diferente: a intolerância bruta num mundo em que tudo é comercializável, perdido entre a cultura fast-food e o fundamentalismo político e religioso.

Entre o eu e o outro, não podem existir muros surdos. E a escola é por excelência o espaço do debate, lugar em que o outro é extremamente imprescindível. Por isso mesmo, nunca a escola precisou tanto de partidos (não exatamente para defender agremiações político-partidárias, mas com a acepção de tomar parte), justamente para compreender recortes e olhares múltiplos. Escolas sem partido certamente mascaram ideologias subterrâneas. Nesse sentido, os professores precisam tomar partido, ir ao encontro de outras partes, transcendê-las. A tal deslocamento pode-se chamar de aula, lugar da devoração crítica do avesso das nossas ideias iniciais, e não do extermínio do que é estranho. Devemos, portanto, tomar partido para não formarmos mulheres e homens partidos.

Trabalhar com Literatura no Colégio Pentágono significa compreender que não existe nada que não possa ser reconduzido a outra coisa. Das ruínas de olhares oclusivos, marcas de nosso tempo, chegamos a outra arquitetura: aulas que promovam aberturas para a compreensão de verdades, sempre no plural. Ante o caos, janelas e portas.

Termino este texto recordando a enorme capacidade da Literatura de realizar a si mesma. Talvez ela tenha nascido muito mais da guerra do que da paz. Ainda assim, nunca deixou de ser arte. Por meio da Literatura, abrem-se espaços para o diferente, para o outro, para a complexidade própria da vida. Se a vida é risco, como já escreveu Guimarães Rosa, continuemos com o desejo absoluto de convergência, trabalhemos com a utopia de que o planeta estará, um dia, maduro para a alegria, inexorável prova dos nove.

Por
Fernando Monteiro, Professor de Literatura do Colégio Pentágono