Ensinar sobre arte enquanto objeto sociocultural e histórico: um convite para uma prática reflexiva

Ensinar sobre arte enquanto objeto sociocultural e histórico: um convite para uma prática reflexiva

Colégio Pentágono

18 Abril 2018 | 09h38

“A criação do novo não é conquista do intelecto, mas do instinto de prazer agindo por uma necessidade interior. A mente criativa brinca com os objetos que ama.” Carl Jung

São muitos os olhares em um ateliê. Por vezes, tateamos. De diferentes modos, buscamos trajetos, planos, soluções. Em outros momentos, fluímos, ousados, alçamos voos. Buscamos. Ateliê é busca. Lugar de encontro e desencontro, aproximação e distanciamento. Daí a importância de pensar essa experiência prática nas instituições educacionais, desenhar currículos, definir procedimentos, alinhar propostas, transpor o comum, o conhecido, o esperado. Ateliês inventivos são espaços de reflexão, celeiros de imagens poéticas que dão sentido ao mundo no qual estamos inseridos.

A arte é uma linguagem genuinamente humana, trata da expressão simbólica, da subjetivação, do ser em sua singularidade. Enquanto disciplina escolar, transita entre diferentes polos, do sensível ao cognitivo, da observação, emoção à informação. Ela nos convida a ler o mundo sob os pontos de vista crítico e estético, construindo nesse processo um legado cultural e uma marca pessoal de criação autêntica.

A primeira função da arte é humanizar. Romper a bolha do mundo da produção e do consumo, não se enquadrando em algo utilitário. A arte é inútil à sobrevivência, porém, ela é indispensável, uma vez que nos possibilita atribuir sentido às experiências vividas e, a partir daí, projetar novas cartas de navegação. Diante de uma experiência estética, de sensações que nos provocam, nós nos damos conta de que somos finitos. A vida é aqui e agora. Viver não é só sobreviver.

Um elemento fundamental na experiência reflexiva em ateliê é a criatividade, definida por Piaget como a capacidade de compreender o mundo. Somente o ser humano é capaz de criar esquemas  de compreensão dos fenômenos que o cercam. Isso se dá através da ação reflexiva. Toda ação dispara pensamentos. Pensar é estabelecer relações entre conhecimentos e experiências, isso gera aprendizado. Por sua vez, em arte, o aprendizado não é meramente fruto da informação, mas de descobertas geradas no ato de observar, sentir, criar, refletir e recriar, constantemente, em uma espiral de relação com os elementos que alcançamos e que nos afetam. Criar e recriar, como agentes, no nosso modo de estar no mundo.

“O legado Piagetiano é uma teoria construtivista do conhecimento. Mas, para além da teoria, é também um legado intelectual e humanista… É um legado que encerra uma mensagem que considero muito relacionada à frase de Einstein: “O mais maravilhoso que tem o mundo e também o mais assombroso é que o mundo seja compreensível”. O “mistério da compreensibilidade do mundo” – como costumava chamá-lo – permaneceu sem solução para Einstein. A mensagem de Piaget é que a chave para revelar esse mistério é a criatividade: o mundo é compreensível somente porque a mente cria instrumentos para interpretá-lo. “Criar para compreender”… Piaget nos fez descobrir a enorme criatividade que a criança possui desde as ideias precoces. Por outro lado, juntamente com isso, destruiu as bases de toda a concepção do ensino como processo mecânico e dogmático. Por isso, a prática pedagógica que emerge do construtivismo não é redutível a nenhum receituário pueril sobre as ideias, nas quais se pode ensinar tais ou quais conteúdos”.

(Rosa Iavelberg, 2003, p. 39)

Um ateliê reflexivo considera que a variedade de estilos, dos envolvidos nos processos criativos, contribui para o repertório de todos. Possibilita o desenvolvimento de observadores atentos e sensíveis, capazes de reconhecer suas capacidades de criação e autoral, construindo suas marcas pessoais.

Validar a importância das práticas reflexivas em arte, um desenho curricular aberto à participação de todos, garante espaço para a expressão singular existente e pulsante. Nesse sentido, as oficinas de percurso pessoal ou os livros/cadernos de artista, assim como os portfólios, são elementos significativos de registro, processo e consolidação de nossas práticas no ateliê do Pentágono. Instrumentos em que o ser criativo experimenta, testa, tenta, faz, desfaz e refaz, coleciona resultados completos ou incompletos e, assim, constrói seu trajeto, reconhecendo-se como único.

Nas diferentes formas de contato com a arte, somos convidados a pensar e repensar em nossa temporalidade. É como um convite para transformarmos nossos espaços internos e externos, atribuindo-lhes identidade e significado, encontrando razões de ser, viver e estar  em um mundo em constante mudança. Comunicando quem somos a cada etapa, a cada encontro. Para que novos pares se aproximem, e novos outros estejam junto de nós ou em nós. Agindo e refletindo sobre o que provocamos e o que nos provoca.

Uma vez que a interação social e a linguagem são fundamentais para o desenvolvimento e o aprimoramento humano,a proposta é cuidar da materialização de sentimentos de pertencimento em relação aos lugares que ocupamos e formatamos nas instituições. Nesse sentido, o ateliê mostra-se como espaço prioritário dessa empreitada. Não existe identidade na aridez, no uniforme, na grade, no padrão. Não há uma forma de identificação sem criação reflexiva, sem brincadeira, sem improviso, sem cooperação.

A derradeira intenção será sempre e repetidas vezes sermos autônomos na nossa maneira de construir vínculos, afetos, conhecimento e apreensão de tudo o que não desejamos abrir mão, de tudo que escolhemos ser e fazer. Nossas razões.

Ana Claudia Michelini Paulo
Arte educadora do Colégio Pentágono