É útil estudar Filosofia no Ensino Médio?

É útil estudar Filosofia no Ensino Médio?

Colégio Pentágono

30 Novembro 2016 | 09h32

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É possível se informar acerca dos fatos exclusivamente por meio de notícias e sem mobilizar as competências desenvolvidas pela disciplina Filosofia. Por outro lado, artigos de opinião, comentários e críticas exigem do leitor mais do que a familiaridade com citações eruditas, mas principalmente a capacidade de se orientar em meio ao embate de ideias e ao conflito das interpretações. Se esse exercício fosse prerrogativa de especialistas, não seria diariamente necessário, o que se comprova pela frequência desses gêneros textuais nos melhores veículos.

Assim, a pergunta sobre a utilidade da Filosofia na formação de jovens pode começar a ser respondida a partir de uma outra: qual dos leitores caracterizados acima devemos formar? Aquele que se informa pura e simplesmente ou aquele que analisa, avalia, critica e toma posição? Se a opção for pelo segundo, o “treinamento” filosófico não pode ser oferecido apenas aos que manifestam interesse por determinadas áreas de conhecimento em detrimento das outras, mas para todos.

Utilizo a palavra “treinamento” de acordo com o Prof. Dr. Paulo Ghiraldelli Jr., sem endossar suas opiniões, mas reconhecendo a capacidade de tornar acessíveis aos jovens os conhecimentos da Filosofia e a pertinência da concepção formulada por ele sobre o papel da disciplina como introdução crítica no mundo da cultura. Em texto publicado na Internet , Ghiraldelli propõe que o exercício de “deixar o pensador clássico pensar dentro da sua cabeça” seja um pré-requisito para o nosso objetivo comum de capacitar os jovens a pensar com as próprias cabeças.

Cada pensador funciona como uma espécie de lente fabricada em certo contexto histórico, que pode ser usada para olhar ao redor e construir posicionamentos acerca dos problemas atuais, investigados a partir do contato direto com os meios de comunicação ou in loco durante estudos de meio, sejam eles questões políticas, sociais, econômicas, artísticas ou científicas. O “treinamento” prossegue com a alternância dessas lentes, ou “mônadas,” que seriam os pensadores, considerando as mesmas situações-problemas por meio de perspectivas diversas.

No Colégio Pentágono, cada passo para dentro do texto filosófico também aborda o mundo da vida, em conexão com os conteúdos de outras disciplinas para além das Ciências Humanas. Estudos filosóficos não são fins em si mesmos, mas poderosas ferramentas para a construção da base explicativa teórica de trabalhos de pesquisa realizados no contexto da viagem de estudos para Brasília, tanto a partir da observação direta de julgamentos do STF e debates no Congresso, quanto em contato com adversidades enfrentadas por moradores de cidades-satélites. Estudos de meio, fóruns de discussão e simulações são realizações máximas da prática frequente na sala de aula de utilizar as ideias como formas possíveis de considerar os fatos.

Na Filosofia, avançamos ao perceber que os mesmos fatos podem ser considerados a partir de diversas perspectivas e, em seguida, ao compreender que toda consideração de fatos se dá a partir de alguma perspectiva, seja ela declarada ou não. Preparemos os jovens, então, para reconhecer e explicitar as ideias que se escondem por trás das imagens, dos discursos e das narrativas que povoam o mundo da cultura, a exemplo do prisioneiro que retorna à caverna para alertar sobre os modelos originais das sombras que os seus companheiros tomam por coisas reais, de acordo com o famoso texto de Platão.

Da continuidade dessas experiências, espera-se a aquisição de um valor de uso das ideias que capacite o sujeito que se forma a expressar suas próprias opiniões ao mesmo tempo em que o torna consciente da sua responsabilidade sobre as consequências dos juízos e das opiniões que ele emite. Por isso, a segunda versão da Base Nacional Comum Curricular não sugere “formas de trabalho, nomes de autores ou escolas filosóficas a privilegiar” e reconhece “bastante liberdade de trabalho na Filosofia ”, apesar do aceno ao “contexto grego ”. A ênfase da disciplina não está nos conteúdos curriculares (neste ou naquele filósofo), mas nos processos de aprendizagem que realizam nossas expectativas.

Em suma, enquanto quisermos formar sujeitos autônomos, críticos, que pensam com as próprias cabeças, a Filosofia ainda estará inserida no contexto.

Por
José Bento Ferreira, professor de Filosofia, Sociologia e História da Arte do Colégio Pentágono