Como abordar o tema da morte e ajudar crianças em seus lutos?

Como abordar o tema da morte e ajudar crianças em seus lutos?

Colégio Pentágono

15 de setembro de 2021 | 09h25

Por Tarsila Krücken Martin*

Não é raro que nós, educadoras do Colégio Pentágono, sejamos abordadas por mães em busca de uma narrativa que possa acolher a notícia ou percepção da criança de que alguém, importante para ela, morreu.

A morte é uma condição natural, universal e como dizia minha avó, é a única certeza da vida. Já as mais variadas maneiras como lidamos, cultural e individualmente com ela, nos faz sentir como reles seres humanos. 

São muitas as estratégias das famílias para abordar (ou não) o tema. De adquirir um pet  semelhante ao que se foi ou levar uma criança ao funeral, a contar que alguém virou estrelinha, há em tentativas como essas, um desejo autêntico de não fazer a criança sofrer, falando sem dizer quase nada, sobre a morte de alguém.

Foto: Jordan Whitt

Se o fim da vida é fatal, o processo de luto é tão singular que, se quisermos ser minimamente acolhedores, empáticos ou não violentos com a dor do outro, seja criança ou adulto, não haverá regra que possa ser generalizada, nem frase que traga consolo verdadeiro.

Podemos chamar de luto o processo pelo qual, crianças ou adultos, convivem com a falta concreta de alguém, enquanto buscam conceber outros sentidos para que a Vida, e sua própria vida, continuem. Para aqueles que ainda estão bastante presos à dor de uma perda, a maioria das frases ou explicações, de ordem biológica ou espiritual, mesmo que busquem confortar ou motivar, são escutados como sermões com pouco significado.

As crianças, pessoas sensíveis como gente grande, mas que ainda pensam como gente pequena, costumam se ater aos fatos objetivos num primeiro momento. Quando perguntam “Por que ela morreu?”, costumam se dar por satisfeitas se escutam algo como  “Porque o coração parou”,  ” Porque o carro bateu muito forte”, “Porque o corpo estava sofrendo muito com a doença e ela não aguentou mais” seguidos de “Eu sinto tanto a falta dela… e você?”. Os infinitos, inexplicáveis e insaciáveis “porquês” que surgem quando alguém morre, daquele jeito ou naquele momento da vida, pertencem muito mais ao universo dos adultos do que ao infantil.

Isso não quer dizer que, com o passar das horas, semanas ou anos, não sejamos abordados com inusitadas perguntas, teses ou tratados, sobre os enigmáticos e filosóficos porquês da vida e da morte, para os quais, raramente, estaremos preparados ou teremos uma boa resposta.

Talvez as melhores respostas nasçam de uma escuta autêntica, curiosa e afetuosa. Uma escuta que possa romper a cripta da dor e dê vida para uma conversa sobre legados, afetos e vínculos, que permanecem reais mesmo depois da morte e ficam eternizados em histórias, ranhetices, trejeitos ou manias. 

Nessa conversa, na qual devem caber choros, risos, abraços e bolo de chocolate, um adulto amoroso e sobretudo humano, que já atravessou ou está atravessando processos de luto, pode compartilhar sobre sua própria tristeza ou saudade e, na mesma conversa, contar sobre o que costuma ou consegue fazer, por si mesmo, em busca de conforto. Quando uma conversa como essa acontecer, a criança enlutada poderá falar mais livremente sobre seus sentimentos. 

Por características da faixa etária, o processo de luto infantil pode ser inundado por algum grau de culpa, pensamentos mágicos ou hipóteses de que a morte possa ser reversível. Por esses motivos, a parceria e acompanhamento de um adulto (familiar ou profissional) pode fazer toda a diferença para ajudar a criança a transcender seus pensamentos naturalmente mais egocentrados, ajudando a cultivar memórias bem vivas e preciosas sobre aqueles que nos deixaram. 

Alguns livros podem iniciar boas conversas e rituais in memoriam, como visitar cemitérios ou lugares onde as cinzas foram espalhadas, escrever cartas, cultivar uma determinada planta, fazer uma receita de família também podem ajudar crianças e adultos a atravessar essa saudade imensa.

Quem sabe assim, possamos junto com a criança, encontrar caminhos e sentidos para seguir em frente, infelizmente não sem dor, mas ao menos, amparados por muito amor.

*Tarsila Krücken Martin – Orientadora Educacional Ed. Infantil e Ens. Fundamental Anos Iniciais

 

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