Classificação indicativa: como ponderar as informações e conteúdos que chegam nas crianças?

Classificação indicativa: como ponderar as informações e conteúdos que chegam nas crianças?

Colégio Pentágono

04 de novembro de 2021 | 17h45

Por Carolina G. Araujo Rodrigues *

Desde o início da pandemia, houve um aumento significativo do uso de recursos tecnológicos entre as crianças e adolescentes. Se por um lado o letramento digital e acesso facilitado ao mundo virtual alavancou a aprendizagem no ensino remoto e possibilitou o contato entre os pares, por outro lado trouxe uma série de desafios às famílias e estudantes. 

Nesse sentido, o acompanhamento e supervisão do uso da internet e acesso a jogos e serviços de streaming é um importante foco das famílias. O Colégio Pentágono, como escola parceira das famílias, atua tanto no ensino da cidadania digital aos alunos, quanto orientando os pais. Educar para uma convivência saudável, seja no mundo digital, seja no analógico, assim como zelar pela segurança e bem-estar dos estudantes, é papel fundamental de ambas. 

(Foto: Ksenia Chernaya)

Como um dos exemplos, o fenômeno atual envolvendo a série Round 6, lançada em 17 de setembro pela Netflix, que já é a série mais assistida da história do streaming. Na semana de seu lançamento, a repercussão nas redes sociais foi altíssima, os temas da série se expandiram e chegaram ao público por meio de jogos online e debates em outras plataformas e fóruns. O impacto foi tão grande que colocou em alerta educadores e famílias pela influência que poderia surtir em crianças e adolescentes. 

Nessa produção sul-coreana, pessoas arriscam a própria vida em jogos mortais baseados em brincadeiras “infantis”, como “batatinha frita”, “cabo de guerra”, “bolinha de gude”, entre outras, em busca de dinheiro para saldar suas dívidas. 

Apesar de a classificação etária ser de 18 anos, há relatos de crianças desde os 4 anos que estão consumindo esse conteúdo, seja no próprio Netflix seja através das redes sociais e jogos on-line. A referência a brincadeiras infantis é um atrativo para as crianças, que acessam a série sem perceber os efeitos negativos, além disso, o excesso de comentários entre amigos tornam a série um desejo de consumo – “todo mundo está falando sobre Round 6, vou assistir”. Entre os riscos estão o potencial de identificação das crianças com essas brincadeiras e a dificuldade de filtrar informações por parte do público dessa faixa etária. 

Quanto mais novas as crianças, maior a dificuldade de separação entre o real e a ficção, aumentando o risco da banalização da violência que, na série, é representada como forma de entretenimento ao líder e seus convidados. A criança mais nova pode interpretar as cenas violentas como algo divertido, que pode ser reproduzido no ambiente escolar, o que de fato tem acontecido. Além disso, as cenas chocantes podem provocar um estado de alerta, possivelmente exacerbando ansiedade, medo, preocupação, irritabilidade e atrapalhando o sono. 

Essa série é apenas um exemplo de que crianças e adolescentes têm consumido conteúdos inadequados a sua faixa etária há algum tempo. As plataformas de streaming ampliaram a possibilidade de escolhas, mas trouxeram um grande desafio aos pais em relação a como controlar o acesso, principalmente durante esse período de isolamento social. 

Muitas famílias não sabem ou não têm consciência do malefício dessa exposição precoce, mas existem formas de bloquear o acesso a conteúdos por faixa etária. Ainda assim, mais importante que o controle é a mediação parental, por meio de conversas frequentes sobre o motivo dessa proibição, baseadas em evidências a respeito dos impactos que o conteúdo pode ocasionar. O mesmo ocorre com jogos eletrônicos e redes sociais, como Whatsapp, Tik Tok e Instagram, que têm sido utilizados de maneira indiscriminada, independentemente da faixa etária indicada. Casos de cyberbullying têm sido cada vez mais frequentes na sociedade atual, e na maioria das vezes, as crianças e adolescentes não têm noção do prejuízo emocional causado, bem como das leis envolvidas em relação ao uso indevido. 

Então, nem sempre a proibição é o melhor caminho, pois as crianças são curiosas, os adolescentes querem pertencer aos grupos, e encontrarão meios de acessar os conteúdos. Por isso, é fundamental a parceria família e escola, com bastante orientação e educação da cidadania digital, para sair de uma postura julgadora e oferecer informações baseadas em evidências sobre os impactos do acesso aos mais diversos conteúdos do mundo virtual e dos streamings. 

* Carolina G. Araujo Rodrigues é Orientadora Educacional dos Anos Finais e Ensino Médio da Unidade de Morumbi e Coordenadora de Projeto de Vida no Colégio Pentágono

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