As narrativas e o protagonismo cultural na Educação Infantil

As narrativas e o protagonismo cultural na Educação Infantil

Colégio Pentágono

01 Março 2017 | 13h57

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“Um fotógrafo-artista me disse outra vez: Veja que um pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.” Manoel de Barros

As lembranças, recordações, saudades de um lugar ou de alguém, as experiências pessoais podem se tornar histórias. O uso desse recurso dentro da escola é uma ótima estratégia para aprender.

Ao tentar falar do “Eu”, de si próprio, desenvolvemos uma linguagem dentro de um processo de construção do conhecimento, imagens e memórias que nos levam a instantes que remontam a um passado que se faz presente. Fazer este exercício, narrar nossa história, conforma-se em um processo ascendente e crescente, pois, a cada releitura ou tentativa de reconto, nascerá algo novo, algo relembrado que se constituirá em uma nova história.

Ao ouvir ou contar histórias, este momento de instante tem sentido tanto para quem conta como para quem ouve. Devido à estrutura dos recursos internos do conto provocar esse resgate das lembranças e trazer a memória para aquele momento presente, as suas experiências de vida.

É por meio do uso da linguagem verbal e visual nos livros de leitura, nos vídeos e nos curtas de animação, e nos jogos de faz de conta que fomentamos e potencializamos a criança e as suas narrativas, dentro de um processo de protagonismo cultural nas aulas de Infoeducação, em um ambiente de mediação, que é a Estação do Conhecimento do Colégio Pentágono.

O professor, ao mediar este processo de construção com os alunos, influencia significativamente a formação da identidade das crianças, por meio das interações sociais aos pares, dentro de uma reprodução interpretativa de sua cultura.

É na roda de conversa com as crianças, conduzida pelos professores, um dos grandes rituais consolidados entre a rotina de várias aulas do Colégio Pentágono. É na roda que se dará o espaço da fala, da expressão corporal, é na roda que os ritos edificados construirão o mito, continuarão a desenvolver as simbologias já latentes, e se perpetuarão durante todo o ano letivo. Temos observado que existem, assim, a roda de boas-vindas, a roda da história, a roda de apresentação, a roda de experimentação de alimentos, a roda sensorial, a roda de conversa e outras.

A escuta das experiências das crianças, com o olhar múltiplo, corrobora o pensamento de Malaguzzi, idealizador do projeto pedagógico da experiência italiana de Reggio Emilia, sobre uma pedagogia da escuta: “No sentido metafórico, as crianças são as maiores ouvintes da realidade que as cerca. Elas possuem o tempo de escutar, que não é apenas o tempo para escutar, mas o tempo rarefeito, curioso, suspenso, generoso – um tempo cheio de espera e expectativa. As crianças escutam a vida em todas as suas formas e cores, e escutam os outros.”

Logo, podemos perceber que o ato de escutar da criança e de ser ouvida é fundamental para a comunicação, posto que este ato tenha uma relação viva, já que a criança escuta com os olhos, com o toque das mãos, com os cheiros e os gostos. Se pararmos para observar atentamente como uma criança reage e age ao adentrar um espaço novo, podemos nos precipitar ao julgar por uma aparente apatia da mesma. Mas, na verdade, os seus vários olhares estão tentando dar conta de todos os aspectos perceptíveis e palpáveis neste ambiente ainda estranho, quem sabe seria uma busca de se apropriar do espaço para uma relação de pertencimento em um futuro próximo, ou no mesmo momento, e, assim, usufruir o quanto antes do mesmo, com todas as suas potencialidades e propriedades inimagináveis.

Trazemos aqui o registro de algumas falas de nossas crianças da Educação Infantil no Colégio Pentágono, revelando este processo de socialização e adaptação partilhado com professores e entre si. Em grupos de crianças, elas produzem e participam de suas culturas de pares, e essas produções são incorporadas na teia de experiências que elas tecem com outras pessoas por toda a sua vida.

Minha aluna de três anos, Rafinha, pega a canetinha para pintar durante a aula e diz: “Professor, é um bebê ponta!” Sorrindo, observamos que a pontinha estava encolhida dentro do tubo da caneta. Como é bom ser criança, não existem problemas, tudo é encantamento!

Certo dia, na aula de Artes, a professora da turma de quatro anos perguntava aos alunos os tipos de hortaliças, verduras e legumes que o Jôca, da história contada na aula anterior, planta no sítio. Após inúmeras respostas dos alunos, Fernandinho levanta o dedo e diz: “Carne, professora!” E todos perguntam surpresos: “Ué, Fernandinho, e existe planta que dá carne? E ele responde: “Sim! A planta carnívora.”

Uma garotinha de seis anos se aproxima da professora e diz: “Onde está aquele livro que tem GPS?” E a professora, surpresa, questiona: “Livro que tem o quê?” Ela continua: “Aquele livro de GPS professora, que mostra todas as florestas do mundo!”. Foi então que a professora descobriu que ela queria olhar um Atlas.

E durante a aula sobre o Meio Ambiente, a professora pergunta às crianças entre cinco e seis anos de idade: “Pessoal , o que podemos fazer pra cuidar da água do nosso planeta?” E um garotinho responde: “Se quiser cantar, nada de cantar no banho! Desliga o chuveiro e vai cantar no quarto!”

É nessa escuta com olhar “reparador” que criamos as oportunidades de aprendermos simultaneamente com as crianças.

 

Radamés Rocha
Coordenador de Artes e Infoeducação do Colégio Pentágono