A silenciosa epidemia dos transtornos mentais

A silenciosa epidemia dos transtornos mentais

Colégio Pentágono

06 de setembro de 2021 | 14h36

Por Carolina G. Araujo Rodrigues *

Em março de 2020, crianças e adolescentes saíram da escola e não puderam voltar no dia seguinte, nem brincar ou se encontrar com os amigos, avós, ou simplesmente sair de casa. Esse cenário, que em muitos casos possibilitou maior convivência familiar, também provocou uma mudança abrupta na rotina de todas as famílias. 

Se por um lado lidar com adversidades fortaleceu os jovens, que tiveram de se adaptar à escola remota, além de desenvolver estratégias para enfrentar a insegurança e o desconforto que esse período trouxe, por outro lado o período de isolamento social despertou sentimentos  como angústia e medo. 

Foto: Anthony Tran

A pandemia pode ser compreendida como uma tragédia coletiva, e essas mudanças abruptas geralmente são entendidas pelo nosso cérebro como estresse, que gera alterações físicas e emocionais. Então, enquanto o número de casos de coronavírus crescia, o número de casos de doenças emocionais silenciosas também foi aumentando.  

Diversas pesquisas vêm sendo realizadas em todo o mundo para medir o impacto desses fatores na saúde mental das crianças e adolescentes. Embora ainda não tenha passado tempo suficiente e não haja um número de pesquisas consistente para uma análise mais precisa de dados, alguns especialistas já falam em “quarta onda”: a dos transtornos mentais. 

Alguns estudos preliminares apontam uma relação entre o isolamento social, necessário para conter a pandemia, com maior índice de angústia, medo de sair de casa, hipersensibilidade, apatia e irritabilidade e insônia. Psicólogos e pediatras relatam um aumento de casos de crianças e adolescentes com ansiedade e depressão em seus consultórios. Em um grau mais preocupante, houve aumento também dos casos de jovens que apresentam sinais de automutilação – cutting – ideação suicida ou até suicídio. As pesquisas mostram que o aumento de casos de ideação suicida ou tentativa de suicídio coincide com momentos de isolamento prolongado. 

Mas então como preservar a saúde mental dos nossos filhos quando se faz necessário o isolamento social para evitar a contaminação pelo coronavírus?

As orientadoras educacionais do Colégio Pentágono, que monitoram e intervém nas questões socioemocionais, elaboraram algumas orientações às famílias, essenciais para ajudar a prevenir essas doenças silenciosas, como: manter a rotina, principalmente no que se refere a sono e alimentação; incentivar a prática de atividades físicas e exposição ao sol; conversar sobre o coronavírus, monitorando a exposição excessiva à mídia, “filtrando” as informações, adaptando-as à idade e ao nível de desenvolvimento; validar e conversar sobre os sentimentos de seus filhos com escuta ativa. 

Os educadores do Pentágono estão em constante contato com os alunos, em especial com aqueles que ainda continuam no ensino remoto, com ações para promover interações, estimulando a abertura de câmera, essencial para que os estudantes interajam, mesmo que virtualmente. Além disso, as orientadoras proporcionam atendimentos individuais ou coletivos, para propiciar um espaço de diálogo sobre essas “dores” emocionais, bem como desenvolver habilidades socioemocionais como resiliência.

Lembrem-se: o medo, a raiva e a tristeza são inerentes ao momento que estamos vivendo, mas é importante que os pais observem os sinais de alerta. Caso percebam que essas emoções estão mais frequentes e intensas que o habitual, bem como seu filho apresente sintomas como aumento ou perda de apetite, dificuldade para adormecer ou com sono aumentado, ou esteja se isolando de amigos e do convívio familiar, recusando-se a sair do quarto, é importante conversar com a escola e/ou consultar um profissional da saúde, pediatra e/ou psicólogo. 

Toda ação positiva a favor da escuta, do vínculo e da valorização do perfil e habilidade de cada filho, são fontes importantes para inibir ou amenizar questões relacionadas ao bem estar físico e emocional. Nossos esforços reverberam no desenvolvimento mais saudável de crianças e adolescentes possibilitando que sejam mais felizes ao longo da jornada da vida.  

* Carolina G. Araujo Rodrigues é Orientadora Educacional dos Anos Finais e Ensino Médio da Unidade de Morumbi e Coordenadora de Projeto de Vida no Colégio Pentágono

 

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