Relatos sobre Teses: o processo de produção de uma monografia

Relatos sobre Teses: o processo de produção de uma monografia

Colégio Oswald de Andrade

20 Março 2015 | 15h40

Em nosso último post, apresentamos o projeto Teses: um projeto de monografias, que acontece no 2º ano do Ensino Médio, e propõe ao aluno a escolha de uma disciplina na qual estudará um determinado campo teórico, e na qual construirá uma questão de pesquisa para a produção de uma monografia individual. Neste post, reunimos três relatos de alunos que produziram suas monografias em 2014 e, nestes textos, contam as dificuldades, estratégias e escolhas que fizeram ao longo deste processo. Os relatos refletem a diversidade de tempos de aprendizagem, organização, além de aproximação e afinidade com o processo de escrita autoral, assim como as reverberações de uma pesquisa profunda, para além da produção da monografia em sí. Boa leitura!

Sofia Cruz

“A Comunicação da Dança”

“Primeiramente, escolhi a disciplina de Psicologia Social como monografia, mas acabei indo para Ética, pois minha ideia cabia em ambos os cursos. Desde o começo tinha a ideia de fazer algum tema relacionado à dança, por ser a arte que mais me identificava e que tinha interesse em pesquisar.

No início tive dificuldade em tentar relacionar e encontrar algum assunto que englobasse dança e ética, e logo pensei em falar sobre a comunicação da dança com o espectador. Tive, portanto, como primeiro tema “A Capacidade Comunicativa da Dança & Grupos Sociais”, que buscava tratar de como a dança, e os grupos sociais que trabalhavam com esta arte e se comunicavam com o publico. Acabei abandonando este tema  depois de  ter uma conversa com minha tia (praticante de dança sua vida inteira), em julho de 2014. Essa conversa me trouxe descobertas maravilhosas sobre a potência da dança, e sua capacidade com o corpo. A partir daí mudei o tema para a “Comunicação da Dança”, buscando tratar o como essa expressão se comunicava/comunica internamente no corpo, tendo tomo base principal de conteúdo e estrutura, o livro “A Dança” de Klauss Vianna. Ele foi um bailarino, professor e coreógrafo que desenvolveu sua própria técnica do processo de conscientização corporal.

Durante a leitura e o fichamento do livro, fazia semanalmente aulas de Dança Moderna com a dançarina e professora Beth Bastos, que não só trabalhou com Klauss como faz diversos cursos e aulas com sua mulher, Angel Vianna. A aula de Dança Moderna dada por Beth é completamente sustentada na técnica Klauss Vianna, logo, por fazer ambas as coisas simultaneamente, tudo ficava cada vez mais próximo, claro e intenso. O que fazia ia sendo explicado pelas aulas e comentários de minha professora, e pelas palavras de Klauss.

Todo esse processo da monografia avançou para além da escola. Descobri e vivi a dança no começo de 2014 e acabei me identificando completamente com ela, passou a fazer parte de mim, do meu modo de ser, e de ver o mundo. Fui desenvolvendo um interesse tremendo sobre o corpo, e tudo ia fazendo cada vez mais sentido conforme a pesquisa.

A produção da tese, no entanto, foi um processo muito angustiante quanto a redação. Escrever sobre o movimento estava extremamente difícil, portanto,  busquei ajuda, principalmente, de minha tia para que conseguisse entender e redigir todos aqueles gestos. Além do livro, das aulas e das conversas entrevistei a professora do curso de Artes do Corpo da PUC, Neide Neves, que acompanhou grande parte do processo de desenvolvido da técnica Klauss Vianna junto de toda a família Vianna (Klauss, Angel e Reineir – filho).

No momento da defesa fiquei completamente nervosa. Escrevi um roteiro, e ensaiei diversas vezes, contando os minutos. Porém, na hora, acabou que eu deixei o roteiro de lado e simplesmente comecei a contar de toda a pesquisa e a experiência que havia sido essa monografia para mim, e ocorreu tudo certo. No final, depois do debate com a banca, recebi diversos comentários de quem assistiu, e fiquei muito feliz com o que ouvi. Consegui transpassar pela fala e pelos gestos todo aquele estudo e aquele ano que vivi imersa na dança.

Foi uma experiência deliciosa.”

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Helena Gonçalves

“Contornos do feminino: um estudo sobre a representação da mulher em Freud e na contemporaneidade”

“A vivência do curso de teses corresponde e ao mesmo tempo não corresponde às expectativas criadas por todo aluno que inicia o segundo ano e tem a proposta de tal curso apresentada a ele. No caso de muitos, como eu, as teses eram um marco da escolaridade no Oswald já conhecido e esperado: vi minha irmã produzir a dela, fui assistir sua defesa e a partir dessa, de outras pessoas, em outros anos também. De um modo ou de outro, expectativas criam-se e acumulam-se – minha vontade era viver o processo de pesquisa e escrita dentro dos prazos (achei que, já que estava empolgada com a produção, isso seria simples), e ao final, defender.

Acabei por escolher a disciplina de psicologia social, por uma vontade de dar continuidade ao que havia aprendido na disciplina de psicologia durante o primeiro ano, e por um apreço muito grande pela professora-orientadora Marcella. No primeiro trimestre do curso, trabalhamos com bases da psicologia social e com áreas das quais os nossos temas de pesquisa possivelmente derivariam, centrando principalmente no conceito do narcisismo e na psicologia de massas.

Com o primeiro trimestre terminando e o recorte do tema se aproximando, comecei a me desesperar um pouco, pois não conseguia identificar um tema que se relacionasse com o curso até então e que me atraísse para uma pesquisa mais extensa, por mais que estivesse apaixonada pelas aulas teóricas que estávamos tendo. No momento de escrever o pré-projeto do trabalho e definir (mesmo que provisoriamente) um tema, tentei buscar alguma inspiração em trabalhos que eu já tivesse feito, cujo tema fosse de livre escolha – e a partir de um trabalho que fiz na disciplina de projetos no nono ano do fundamental, sobre a mulher na arte, reconheci meu interesse em trabalhar com o feminino.

O recorte exato do meu trabalho acabou definindo-se quase que por si só – no início sentia vontade de trabalhar a mulher no imaginário da sociedade ao longo do tempo através de mitos e lendas, ou tentar envolver uma conexão com literatura, mas acabei seguindo outros caminhos que se apresentaram durante as primeiras leituras, de textos de Freud.

Como base de toda a monografia, quis tentar delinear o que seria a mulher freudiana, e para isso li, entre outras coisas, “A sexualidade feminina” e “A feminilidade”. Me surpreendi com o “machismo descarado” do pai da psicanálise e já me coloquei numa postura crítica quanto a suas postulações. Esse machismo que reconheci deu rumo à pesquisa, pois percebi que seria necessário contextualizar o período histórico no qual Freud produziu suas obras e a posição da mulher na sociedade vitoriana. Com essa contextualização e as pesquisas que seguiram, minha visão sobre o machismo do autor mudou – consegui reconhecer que, apesar de o sexismo permear muito de sua teoria sobre a sexualidade, essa mesmo abriu possibilidades de visão da mulher como sujeito de uma forma inusitada.

Uma curiosidade de como a psicanálise na contemporaneidade lidaria com esse sexismo presente em escritos de Freud me levou a produzir os capítulos restantes do trabalho, um tratando das mudanças na condição social feminina durante o século vinte e outro, trazendo um olhar psicanalítico atual sobre a mulher (que baseei principalmente em “Deslocamentos do feminino”, de Maria Rita Kehl).

O processo de produção não foi nem um pouco como eu esperava: passei meses lendo, lendo, lendo e fichando, sem produzir quase nada. A dificuldade de elaborar em um texto autoral as leituras que tanto me capturavam pareceu intranspassável durante quase todo o último trimestre, e comecei a duvidar da possibilidade de defender. Com o voto de confiança e o carinho da Marcella e da Olívia, nossa monitora, acabei por produzir a maior parte dos textos na última semana antes do prazo final, meio enlouquecida, mas determinada a acabar, para que pudesse defender.

Para minha satisfação, consegui terminar – depois de sofrer muito – e pude defender. A experiência da defesa também foi difícil, mas fechou o processo da tese maravilhosamente. Na manhã da defesa, minha fala de exposição do trabalho, que deveria ter 10 minutos, tinha 40… O nervosismo cresceu quando assisti amigos defenderem antes de mim, mas quando chegou minha vez, acabei me acalmando (a ansiedade virou empolgação) e consegui aproveitar muito – a conversa com os membros da banca foi incrível, eles me trouxeram novas referências, questões e a clareza de que o meu interesse pelo tema iria continuar me movendo, que a pesquisa não acabaria naquele momento.

Agora, depois de alguns meses, consigo identificar o quanto o trabalho me transformou. Meu fôlego de leitura acadêmica cresceu, minha escrita transformou-se para melhor e eu criei bases teóricas para começar a me apropriar de questionamentos que já tinha antes do processo da tese. Fui “apresentada formalmente” ao feminismo durante as leituras que serviram de referência para a produção e estou procurando me envolver cada vez mais com a luta das mulheres, me munindo de recursos a partir de leituras e conversas. Tenho vontade de trabalhar questões de gênero depois da escola.

Conversando com amigos sobre o processo de pesquisa e produção, chegamos à conclusão de que, por ser um trabalho de maior extensão do que todos os que são propostos antes em nossa escolaridade, a tese traz como um desafio o aprofundamento em um tema, e se esse aprofundamento ocorre, ele proporciona uma noção da amplitude do que há para ser estudado, e uma formação de um senso crítico e questionador que serve para vida de uma forma geral, não só para produções acadêmicas. Pensando na minha vivência, posso dizer que foi incrível e muito sofrido, e que o sofrimento todo valeu muito a pena, deixou vontade de continuar estudando (e sofrendo).”

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Guilherme Heitzmann

“Televisão X YouTube e a revolução da participação” 

“Quando entendi como funcionava o projeto de teses do Oswald logo pensei em relacionar com o que eu já fazia no YouTube – mantenho um canal de games há alguns anos – e fazer uma tese mostrando pontos que poucas pessoas sabem que acontecem por trás de grande parte do conteúdo “profissional” criado no YouTube. Minha primeira intenção era falar sobre como eu fazia esse meu “trabalho” e minhas experiências.

Então entrei no curso do professor Amadeu Zoe, de Comunicação Audiovisual, e conversando com ele pensei em ampliar mais a minha ideia da tese e falar também sobre direitos autorais dentro do YouTube. Além disso, fui descobrindo que, com o desenvolvimento da internet, o YouTube ganhou muito espaço nas mídias. Nos EUA, essa plataforma já é mais utilizada do que a televisão, então em minha monografia conto parcialmente como provavelmente a internet vai assumir o lugar da televisão como a grande mídia de comunicação.

Para falar sobre tudo que falei na tese eu aprendi muito mais sobre o meio em que vivo há tanto tempo, algo que eu não esperava que fosse acontecer. Acabei também me divertindo muito com certas coisas que aprendi e falei na tese, mas como era um assunto de que eu já tinha um bom conhecimento, não foi difícil eu conseguir me organizar para fazer. Tirava sempre um tempo de alguns dias para pensar em como poderia bolar certas coisas da tese, como eu faço muitas vezes para bolar mudanças do meu canal até.

Foi uma super experiência, muito mais do que esperava! No começo não pretendia defender pois não estava tão interessado no projeto mas no final fiquei muito feliz de defender. Isso pois ao pesquisar sobre o assunto e me aprofundar achei muito interessante defender, depois de tudo que consegui aprender na internet sobre o assunto vi que realmente seria bom defender. Foi diferente ver e conversar sobre esse assunto com profissionais dessas áreas.

Também com a tese mudei um pouco minha visão no canal, comecei a olhar o YouTube de uma forma mais “analítica”, por tudo que aprendi fazendo esse trabalho. Uma coisa notável é que o assunto da minha tese parecia muito desconhecido e que mudava frequentemente. Por isso foi difícil buscar livros e até mesmo de sites. A internet muda muito em poucos anos, então na maioria das vezes o artigo ou livro que eu achava podia ser considerado inválido pois as coisas mudaram desde que foi escrito.”