Quais os movimentos literários mais presentes no Enem e por quê?

Quais os movimentos literários mais presentes no Enem e por quê?

Colégio Oswald de Andrade

15 de dezembro de 2020 | 17h09

Vivian Gusmão

Assessora de área de Língua Portuguesa

Gabrielle Sá

Monitora de Língua Portuguesa

A área de literatura é motivo de destaque no ENEM e, dentre as escolas da tradição literária, Romantismo e Modernismo são figuras centrais para que compreendamos melhor o modo como as questões dessa disciplina operam no exame. Afinal de contas, cada um desses movimentos representou, ao seu modo, um marco simbólico na cultura mundial e brasileira.

 O que você conhece sobre o Romantismo?

Iniciado na primeira metade do século XIX, decorrente da dinamização da sociedade em pleno processo de industrialização foi, no Brasil, a primeira escola literária legitimamente nacional, pois, antes dela, todas as outras manifestações artísticas ocorreram quando ainda éramos colônia de Portugal e tínhamos na metrópole as referências para o que aqui se produzia. 

Além do fator inaugurador, o objetivo de se criar uma identidade nacional artístico-literária foi a grande marca dessa escola literária que atrelou, ao mesmo tempo, a figura idealizada e exuberante da natureza, do nativo indígena e do colono português enquanto representantes da brasilidade. Autores como Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães e José de Alencar são alguns dos responsáveis pelas imagens grandiosas dos primeiros momentos dessa escola, como vemos na famosa poesia “I-Juca Pirama”, de Gonçalves Dias:

No meio das tabas de amenos verdores,

Cercadas de troncos – cobertos de flores,

Alteiam-se os tetos d’altiva nação;

São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,

Temíveis na guerra, que em densas coortes

Assombram das matas a imensa extensão.

 

São rudos, severos, sedentos de glória,

Já prélios incitam, já cantam vitória,

Já meigos atendem à voz do cantor:

São todos Timbiras, guerreiros valentes!

Seu nome lá voa na boca das gentes,

Condão de prodígios, de glória e terror!

 

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,

As armas quebrando, lançando-as ao rio,

O incenso aspiraram dos seus maracás:

Medrosos das guerras que os fortes acendem,

Custosos tributos ignavos lá rendem,

Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

 (…)

 Nela, percebe-se a grandiosidade do indígena que se comporta como um valoroso cavaleiro, mas que, ao mesmo tempo, está vinculado aos aspectos naturais estritamente brasileiros. Vemos, aqui, a aclimatação de um modelo, que se vale da imagem do modelo europeu do cavaleiro medieval (honrado, disposto ao combate e valoroso), mas completamente inserido à suposta cultura indígena brasileira.

Entretanto, por ser um movimento longo, há inúmeras outras tendências em seu interior, como o sentimentalismo exacerbado e a figura da mulher intocada de Álvares de Azevedo, o pessimismo e a saudade da infância de Casimiro de Abreu e outros mais. Momentos que valem uma revisitação. 

O movimento Modernista.

Oriundo de um momento diverso, em que já éramos considerados uma nação livre e que, mesmo dependente da monocultura do café, caminhávamos para uma maior dinamização econômica e da indústria. A escola Modernista é inspirada nas vanguardas européias do século XX (Futurismo, Dadaísmo, Cubismo, Surrealismo e Expressionismo). Para facilitarmos a sua compreensão, podemos dividi-las em três fases.

A Primeira fase – A Semana de Arte Moderna.

No ano que o Brasil completaria 100 anos de independência, 1922, um grupo de artistas se une e concebe a “Semana de Arte Moderna”: marco fundador de crítica à tradição acadêmica e proposição inovadora dessa escola. Munidos de um espírito jovial e cheio de ironia, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Ronald de Carvalho e outros mais, darão o pontapé inicial da arte e, evidentemente, da literatura contemporânea no Brasil.

Conscientes da contribuição da cultura popular, da mestiçagem religiosa e afastando-se das concepções acadêmicas, os autores vão produzir suas obras, como o poema “Pronominais”, de Oswald de Andrade, nosso patrono.

Pronominais

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro

Aqui, percebe-se a mistura de gêneros, a narração, a descrição e a poesia, bem como a aproximação da linguagem coloquial  à literatura, o que começa a ganhar sentido nessa escola.  

 

A Segunda fase – O engajamento dos anos 1930.

Posteriormente, ampliando e consolidando conquistas da primeira geração, a partir dos anos 1930, autoras e autores mantêm o alto grau de inovação artística, mas já se percebe uma outra ênfase, que é o engajamento político e a crítica social. Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Jorge Amado, Graciliano Ramos e muitos outros passam a olhar para os problemas do Brasil e do mundo por meio de seus textos.

 

A Terceira fase – A escrita contemporânea

Chamada muitas vezes de fase experimentalista ou instrumentalista, a literatura modernista pós-1945 representa a última época do movimento, em que Clarice Lispector, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e outros vão fazer demonstrar que era possível estabelecer um contato com a tradição literária anterior, sem perder de vista a análise social e o mergulho no indivíduo e suas questões.

No poema “Tecendo o amanhã”, de João Cabral de Melo Neto, podemos ver um pouco dessa faceta do movimento: 

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

 se vá tecendo, entre todos os galos.

(…)

Aqui, o efeito sensível e a forma textual convergem para que o leitor perceba que a simbologia do nascer do dia, da esperança e da não desistência é mimetizada na figura do Galo, que “recebe” o cantar de outro galo, e, tal como uma teia, constrói junto o novo. É um exemplo que completa o modernismo brasileiro.

 

E POR QUE, ENTÃO, ESSES DOIS MOMENTOS HISTÓRICO-LITERÁRIOS DIALOGAM? 

Cada uma dessas escolas, ao seu modo, aponta para a formação e a consolidação da cultura letrada brasileira, daí serem as duas tão presentes em avaliações como o Enem. Logo, é importante ter em mente a importância de ambos, de modo a identificar suas características mais marcantes e como podem dialogar com nossa história.

 

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