O multiculturalismo na escola: um desafio e um compromisso que precisa ser assumido

O multiculturalismo na escola: um desafio e um compromisso que precisa ser assumido

Colégio Oswald de Andrade

24 de março de 2022 | 15h49

Por Sheila Barreto, Coordenadora Pedagógica do 4º e 5º ano do Ensino Fundamental do Oswald. 

 

Olhar para o currículo escolar e assumir uma perspectiva multicultural não é tarefa fácil, embora absolutamente necessária. Romper com as estruturas que se consolidaram ao longo de séculos, elaborando hierarquias nas relações humanas, nos espaços, nas produções culturais, entre outras, precisa passar por um movimento de reconstrução simbólica.

Usando a metáfora da reconstrução, para dar espaço à reforma, é necessário assumir a possibilidade de planejar e replanejar, de ir e vir, e de toda a complexidade que envolve pôr algo abaixo e dar espaço a algo novo.

É preciso, sem mais delongas, sair das certezas e assumir as complexidades. É necessário entender que o currículo, o conhecimento, a escola, não são lugares de reprodução e, sim, de produção. Miguel Arroyo, sociólogo e educador espanhol, afirma que este é território de luta, e que precisa ser marcado por sujeitos.

Nas turmas de 4º ano, começamos, de modo mais formal, a trabalhar curricularmente com a história do nosso país, eixo que nomeamos como “a formação do povo brasileiro”. Assunto de enorme complexidade conceitual e também terreno de tensão, que precisa da tal reforma, mencionada anteriormente.

A abertura deste trabalho se dá com a pesquisa envolvendo os povos originários que habitavam o continente sul americano antes da chegada dos europeus. A partir deste ponto, questionamos a expressão “descoberta do Brasil” e trazemos a perspectiva da expansão marítima e, posteriormente, dos conflitos.

Na sequência, entramos na diáspora africana, incentivando o olhar para os estes povos trazidos para o Brasil. Para tratar disso, é importante apresentar a diversidade entre os povos, que já existia naquela época, e as contribuições que tais pessoas trouxeram para terras brasileiras durante a escravização. Claro que não dá para deixar de falar sobre a tristeza e a violência de tal processo, mas também trazemos a resistência, como forma de evidenciar que não foi um processo de passividade e sim de muita batalha. 

Com as turmas de 5º ano, seguimos com a retomada histórica, trazendo a chegada dos imigrantes, a tentativa de “embraquecimento” da população, as condições econômicas e sociais e o chamado “fim da escravidão”, debatendo sobre as complexidades envolvidas em tal marco. Para fechar o ciclo, fazemos uma conexão entre imigrantes e refugiados, possibilitando um olhar mais contemporâneo e propondo reflexões e leituras envolvendo o racismo estrutural.

É muito complexo tratar deste assunto com estudantes de 4º e 5º ano do Ensino Fundamental? Não temos nenhuma dúvida que sim. No entanto, passar por este assunto com uma narrativa linear e com conclusões simplificadas vai promover, mais uma vez, uma leitura da história sob a perspectiva eurocêntrica, a história da dominação.

 

Toda história é formada por vozes. Vozes que não podem se apagar em detrimento de outras que, por diversos motivos envolvendo relações de poder, tiveram mais propagação. É preciso instigar nossos estudantes para que investiguem, questionem, escutem, perguntem e entendam que uma história parte sempre d e um lugar.

Nossa pretensão não é, neste momento da escolaridade, que nossos estudantes detenham as informações, do ponto de vista conceitual, de todo este processo. Tampouco projetamos que entendam todas as complexidades envolvidas. Nosso principal objetivo é que nossos alunos e alunas compreendam, de forma mais ampla, a tessitura envolvida na história do Brasil, identificando alguns processos de produção de desigualdades sociais que geraram enormes impactos, que se desdobram até os dias atuais. 

Por fim, esperamos que nossos pequenos estudantes sejam afetados com tais estudos. Em um lindo texto do Michel Serres (1993), narra-se a cena em que uma multidão ansiosa aguarda o relato de um arlequim explorador que acaba de retornar das terras lunares. Para a surpresa e decepção de todos, o arlequim conta que nada viu de diferente. No entanto, seu corpo conta uma história diferente de suas palavras:

“Estupor! Tatuado, o Imperador da Lua exibe uma pele multicor, muito mais cor do que pele. Todo corpo parece uma impressão digital. Como um quadro sobre a tapeçaria, a tatuagem – estriada, matizada, recamada, tigrada, adamascada, mourisca – é um obstáculo para o olhar, tanto quanto os trajes ou os casacos que jazem no chão. Quando cai o último véu, o segredo se liberta, tão complicado como o conjunto de barreiras que o protegiam. Até mesmo a pele de Arlequim desmente a unidade pretendida por suas palavras. Também ela é um casaco de arlequim. “

Como um pacto com a necessidade de transformação social, nutridos pelo multiculturalismo, que possamos marcar a pele de nossos estudantes. Que mais do que falar sobre as diferenças, possam eles carregar, em si próprios, a mudança.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.