Na lama

Na lama

Colégio Oswald de Andrade

06 Julho 2016 | 19h39

Em maio deste ano, os alunos do 8º ano do Ensino Fundamental II do Oswald fizeram uma viagem de Estudo do Meio a Mariana, em Minas Gerais, para analisar de perto os impactos causados pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco. A reportagem abaixo faz parte da iniciativa #CorrespondentesEstudoDoMeio, uma parceria entre estudantes, coordenação pedagógica e equipe de comunicação da escola. Confira.

Texto: André Bánvölgyi, aluno do 8º A

Seleção e legendas das fotos: Maya Matta Lopes e Natália Zabotto Udiloff, alunas do 8º A, e Laura Nassar, coordenadora pedagógica

Edição: Laura Nassar, coordenadora pedagógica, e Priscila Kesselring, jornalista

 

Tenho de admitir: estávamos ansiosos para ir a Paracatu. Era não só um dos primeiros distritos a ser atingidos pela lama, como a nossa primeira atividade da viagem. Mais do que tudo, estávamos a caminho de avistar a lama ao vivo, entender a situação de perto.

É claro que a grande mídia nos deu a primeira “visão” do que aconteceu em Mariana, e fomos influenciados por tudo o que já tinha sido publicado. Mas agora teríamos nossa própria visão do acidente e consequências. “Mariana é atingida por lama”. Você já leu essa manchete? Pelo menos era aquilo que a maioria de nós acreditava que veríamos.

Bem, essa manchete está errada, pois somente alguns distritos foram atingidos, mas se a ideia da manchete era representar o “clima” da cidade no momento, está certa. Não é à toa, também, que mais tarde fomos informados pelos nossos monitores de que a grande mídia brasileira já escondera muitos outros rompimentos na região, com mortes envolvidas, só para não “sujar a marca” da Samarco e das duas empresas que a compõem: a Vale S.A. e a BHP Billinton.

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Distrito de Paracatu depois do Tsunami de lama. Roupas, brinquedos, cobertores e outros acessórios dos moradores

Em um dos dias da viagem, fomos a uma escola de Paracatu, onde nos surpreendemos com a quantidade de lama. Somente percebemos que estávamos a cerca de um metro acima do chão da quadra de esportes quando notamos que os cestos de basquete estavam na nossa altura; o chão foi coberto inteiramente de lama.

Chocante mesmo foi ver a escola por dentro. Eu e meu colega, Félix, fomos convidados pelo professor a entrar na escola. Até subir as escadas foi difícil. Não apenas tiramos fotos; também nos chocamos profundamente. Livros jogados no chão, que estava coberto de barro.

No caso dessa escola, quando houve o rompimento da barragem, a professora soube que a lama se aproximava, e levou os alunos antecipadamente a um ponto bem alto de Paracatu, que é circundada por montanhas. É realmente triste – como se estivéssemos no momento em que estavam deixando o lugar.

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A escola de Paracatu destruída

Conseguimos perceber o tal “clima” da cidade. As pessoas pareciam estar ainda atingidas por aquilo que aconteceu. Afinal, o efeito é irreversível.

Cada pessoa, porém, tem sua opinião sobre o acontecido e o que deve acontecer. Depende da pessoa com quem você conversa – o familiar de uma vítima, ou um vereador, um ex-funcionário da Samarco, ou um administrador da Samarco.

Fomos todos divididos em grupos de trabalho. O nosso grupo entrevistou o vereador Bruno Mol, do PMDB, o homem mais votado da história de Mariana.

Na opinião dele, a responsabilidade do que aconteceu não foi só da Samarco, como das autoridades governamentais – e da presidenta Dilma Rousseff. Segundo ele, a Samarco tem uma relação de pertencimento à cidade de Mariana.

“A Samarco é a empresa que mais sustenta Mariana, 80% dos empregos de Mariana são gerados pela Samarco”, disse Mol, orgulhosamente. Ele considerou a multa de 2 bilhões injusta e dada de forma inconsciente. “Vocês acham que o valor da multa (alguns bilhões) é justo para compensar o acontecido?”, perguntei eu. “Não, nós achamos injusta”, respondeu Bruno.

“Estamos no momento de uma crise mundial, e quando acontece isso com uma empresa que tem lucro reto – na casa dos bilhões de reais – todo mundo quer tirar o dinheiro. O governo federal  veio aqui, no dia, [a presidenta sobrevoou a região de helicóptero no dia do desastre e também no dia seguinte] a ‘ex-presidente’ Dilma já aplicou a multa de 300 milhões de reais sem saber o que aconteceu”.

Mol afirmou que Dilma estava mais preocupada em aplicar a multa do que realmente entender o que aconteceu, descer do helicóptero etc. Guarde isso.

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Desastre ambiental em dezembro de 2015 causou 19 mortes

Agora, além dos números, vejamos a situação de perto. Na manhã desse mesmo dia, tivemos uma palestra com Alisson, ex-funcionário da Samarco, que nos explicou sua experiência com a mineradora e a mineração em geral. Ele explicou todas as fases da mineração que fazem um mineral se transformar num minério – do material na rocha ao de valor agregado.

Além disso, Alisson apontou os grandes riscos de ser minerador. O minerador pode se intoxicar com os minerais ali presentes, além de que, quando se trata de uma barragem, é preciso verificar a situação perfeitamente, para que ela não se rompa. Somente por causa dos efeitos dos minerais no corpo, um minerador se aposenta com cerca de 40 anos. E só porque se aposenta não significa que terá um final de vida “feliz”, digamos assim; as consequências da inalação constante são devastadoras para o corpo.

“O Ministério do Trabalho tem uma classificação do risco dos trabalhos, de 1 a 4: 1 sendo menos arriscado e 4, mais arriscado”, explica Alisson. “Ser minerador é um dos trabalhos mais arriscados no Brasil inteiro, porque seu nível de risco é 4”.

Quando informei o vereador sobre isso e perguntei “sabendo disso, você acha que os mineradores da Samarco, mesmo os que morreram, estavam orgulhosos, satisfeitos com seu trabalho, ou era a sua única opção para ‘sobreviverem’?”, sua imediata resposta foi “bem, se estavam satisfeitos com o trabalho, não sei, mas que estavam ajudando a sustentar a sua cidade, com certeza, pois isso é um bem de todos os cidadãos daqui”.

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Distrito de Bento Rodrigues, que desapareceu após rompimento da barragem da Samarco

Agora, claro, voltamos àquela questão da opção da presidenta de aplicar a multa sem interagir com a situação. Será que aquele foi o maior equívoco? Será que há alguém faturando algo por trás disso tudo? A grande mídia está escondendo algo de novo? Ou não, a culpa foi realmente do Estado? Somos todos apuradores, você decide.