Dez pontos essenciais para uma educação antirracista

Dez pontos essenciais para uma educação antirracista

Colégio Oswald de Andrade

20 de novembro de 2020 | 12h22

* Coletivo Antirracista do Colégio Oswald de Andrade

 

Quem é responsável por garantir uma educação antirracista às nossas crianças, em um país em que o racismo está entranhado nas estruturas sociais, políticas e econômicas?

Não é difícil imaginar que a resposta mais imediata para essa pergunta seja: as escolas! De fato, as direções têm enorme responsabilidade por implantar uma educação antirracista nos espaços educacionais. No entanto, neste artigo, queremos explicitar a corresponsabilidade de outra parte envolvida nesse processo: as famílias.

Tendo em vista a complexidade dos sistemas escolares, direções e coordenações têm uma infinidade de temas a tratar no seu dia a dia. No momento que estamos vivendo (uma inédita pandemia com a busca por uma vacina em tempo recorde), além dos clássicos desafios de educar, ensinar, envolver, motivar, intermediar conflitos, promover laços de sociabilidade etc., as escolas passaram a ter de lidar com protocolos de segurança e novas ferramentas de aprendizagem a distância. Nesse cenário, como exigir que uma instituição de ensino básico também tenha como prioridade a revisão de suas práticas pedagógicas a fim de implantar um processo de educação antirracista?

No nosso caso, de famílias responsáveis por crianças e jovens que estudam em um colégio particular de São Paulo, acreditamos que a promoção da equidade racial dentro dos muros da escola é uma questão urgente e civilizatória. Todas as organizações que se consideram sérias têm o dever cívico de desconstruir práticas condescendentes com o racismo. Isso vale para empresas, instituições governamentais e não-governamentais e também escolas. Como tem sido muito bem disseminado: não basta ser contra o racismo, devemos ser antirracistas. 

É nesse espírito que acreditamos poder ajudar a alterar o curso natural da definição de prioridades em uma escola. O que podemos observar no Colégio Oswald de Andrade, e em outros colégios cujas famílias integram a Liga Inter-Escolas por Equidade Racial, é que a participação dessas famílias pode contribuir significativamente para colocar o tema da educação antirracista como prioridade.

Desde 2018, um grupo de famílias do colégio se mobiliza para que o Oswald reveja sua estrutura e promova a luta antirracista. Neste ano, nos constituímos como um coletivo e, em comum acordo com a direção, colocamos o tema na agenda, dando mais um empurrão para as mudanças que têm ocorrido na escola.

Para nós, está claro que as famílias de todas as escolas do Brasil são corresponsáveis por promover uma educação antirracista. Sem essa mobilização, um processo que fatalmente será longo e lento – se formos comparar com a urgência que a reparação histórica exige – talvez nem aconteça. Cabe às famílias serem parceiras das escolas e, ao mesmo tempo, atuarem como “representantes fiscalizadores” de uma comunidade que quer promover mudanças.

Mas o que pode ser defendido pelas famílias junto às escolas? As respostas são múltiplas e, como diz o ditado, não existe receita única para processos inéditos. Neste artigo, publicado por ocasião do Dia da Consciência Negra, compartilhamos a nossa experiência, na esperança de que ela seja inspiradora para outras famílias e escolas. E ela se traduz em dez pontos essenciais para ajudar a promover uma educação antirracista.

  1. Nosso objetivo é criar um processo sistêmico de inclusão de conceitos e práticas antirracistas – e não episódico, como já observamos nos debates que ocorrem anualmente em novembro, o mês da Consciência Negra;
  2. Conceitos e práticas precisam ser estudados e acolhidos em diversas frentes (pedagógica, formativa, de relacionamento com a comunidade e estrutural, entre outros) e em todas as práticas diárias, valorizando experiências positivas da cultura e da sociedade negra e ampliando a diversidade tanto entre os discentes como entre os profissionais da escola;
  3. A educação antirracista procura, por um lado, incentivar a criança negra a se respeitar como negra, valorizando a imagem que tem de si, e, ao mesmo tempo, denunciar o racismo e reconhecer seu caráter prejudicial na formação das crianças brancas, que crescem com uma imagem distorcida de si e de seu grupo étnico-racial;
  4. Este não é um projeto de curto prazo, mas um processo de transformação educacional que deve permanecer enquanto existir racismo no Brasil (e ser encarado como um projeto estruturante, com metas claras de curto, médio e longo prazos);
  5. A forma e o conteúdo que proporcionarão a mudança desejada virão da confluência de saberes de toda a comunidade escolar. Nesse processo, vemos como fundamental a participação do Conselho, da Direção, dos profissionais da Educação, dos estudantes e das famílias;
  6. Não basta disponibilizar livros, materiais e elementos lúdicos de valorização da cultura e da sociedade afro-brasileira se não tivermos essa riqueza e essa diversidade representadas nos profissionais e nos alunos da escola. Da mesma forma, não basta termos profissionais e alunos negros se as práticas e os modelos pedagógicos não forem repensados. É na escola que nossos filhos têm de aprender também a valorizar a contribuição da população negra em todas as áreas do conhecimento humano;
  7. É importante que as famílias contribuam para o letramento da comunidade escolar, tendo a função de motor da discussão, trazendo temas, debates, palestras e material para reflexão e consulta;
  8. Precisamos formar professores e profissionais da escola para atualizarem suas práticas, aprenderem a ensinar conteúdos hoje ausentes das salas de aula e dominarem formas de mediar e resolver situações claras ou veladas de racismo e preconceito;
  9. No processo de revisão curricular e redefinição de práticas e modelos pedagógicos, tratando-se de diálogo em um espaço de maioria branca, é necessário cuidado para não dominar as narrativas. Honrar o saber e a produção de educadores e intelectuais negros que têm lutado ao longo de décadas pela educação antirracista no Brasil é essencial;
  10. Não dominamos esse conhecimento – nem o pedagógico nem o antirracista – e precisamos nos apoiar em práticas, modelos e profissionais diversos para construir esse processo de evolução permanente.

 

Esses temas vêm norteando nosso trabalho desde a formação do coletivo e podem servir de ponto de partida para famílias de outras escolas. É importante reforçar que, no Oswald, a opção da direção de montar uma equipe interna para estruturar as ações em prol de uma educação antirracista, com o apoio de uma consultoria externa nos trabalhos de diagnóstico, censo, formação, recrutamento, revisão curricular, inclusão étnico-racial e métricas, permitiu avanços importantes em poucos meses e marca o início de uma caminhada que promete ser longa, mas confiamos ser muito transformadora. 

 

* O Coletivo Antirracista do Colégio Oswald de Andrade é formado por 39 famílias da escola e atua formalmente desde 2019

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